Viagem

nevada desert road, Ansel Adams

nevada desert road, Ansel Adams

Tinhas adormecido. Das estradas desertas e estreitas do Wyoming, enroladas pelas montanhas carecas e baixas como num tapete de veludo fofo e verde, chegávamos agora às curvas acentuadas da subida para as Rockies, o ar cada vez mais fresco e limpo, as ravinas de terra a transformarem-se em pedra e granito. Acordaste abrindo os olhos longos como azeitonas deitadas, cabelos castanhos, o olhar pela janela sobre a infinidade da paisagem. Vista do alto, a terra parecia de Deuses, dos primórdios tempos quando ainda nada existia.

Na descida para o vale, senti o peso desse tempo que não conhecia, dessa terra que vibrava sobre os meus pés e parei o carro. Saí para um enorme prado ladeado por abruptas cordilheiras de granito cinzento, descalço porque quis sentir o calor do mundo, ofegante e vivo, que pisava. Uma areia fina sobre a gravilha condensada de milhões de anos, onde enterrei os ossos magros dos pés nus, e comecei a andar obstinadamente a direito, como navio a avançar em mar liso para um porto iluminado por farol longínquo.

A noite começava a cair num céu que podia ser todo o espaço, uma película imaculada que nos protegia do infinito. Avistei ao longe o carro, onde tinhas ficado, sobre um fundo de montanha tornada azul, e um silêncio ensurdecedor, porque o vento caíra e as primeiras árvores do vale eram estátuas fixas no horizonte inerte.

Com a queda da noite e da luz senti medo, medo do tempo que parecia fugir, da história que não acabava, e eras tu que conduzias enquanto olhava, deitado no banco com as costas inclinadas, as tuas mãos brancas e finas na continuação de uns braços delicados de mulher. A massa dos cabelos castanhos cobriam os ombros estilhaçando-se como ondas nas rochas, sobre a saia lisa os Joelhos redondos eram dois pequenos  círculos, quase colados.

Era o negro lá fora, mas podia ser o fundo do mundo ou do oceano, tal era a limpidez e a profundidade que nos embriagava o olhar, criando vertigens, quando deitados de costas sob o “capot” do carro olhávamos as estrelas da noite e os uivos dos coiotes no fundo da paisagem que não tinha limite.

O tempo esticava-se e diluía-se em pequenos momentos que deixavam de ter duração e se misturavam na vida como a água do rio que encontra o mar, na foz.

Quando o deserto quente e vermelho se aproximava, o sol a pôr-se um pouco mais tarde, a terra transformada num espectáculo de ouro e fogo, a vontade do amor mais quente e suada no embate dos corpos, lisos e duros, acordaste-me para uma nova existência, quando os pequenos grãos de areia siena queimada faziam sentido por tu os teres pisado, como no filme de Ford, onde os cavalos a galope levantavam a poeira no ar, entre as erupções de terra transformadas em esculturas eternas, derretidas em lagrimas na memória dos tempos em que senti o calor na face cansada encostada ao peito.

De manha pusemo-nos à estrada, poucas palavras faladas, o diálogo era com a paisagem simplificada pela velocidade do carro, como um filme sem história que se desenrolava pela janela, o calor do vento quente a aquecer o vidro gordo. As cores da terra iam mudando com a luz do sol, as sombras estilhaçadas pelos pequenos cumes que se erguiam na berma da estrada, antecipando as gargantas mais profundas que teríamos de atravessar, com a estrada fina esmigalhada pelas ravinas de terra erectas e verticais, aqui e ali uma linha de verde, riachos onde a água levava a vida à terra, e de repente, na saída de uma curva maior era já o vale verdejante, as árvores frondosas junto ao leito do rio de água transparente, forrado de enormes pedras lisas do tempo.

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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10 respostas a Viagem

  1. Ivone Costa diz:

    Que belo texto on the road, Bernardo. Fartei-me de gostar e também daquela cor da areia siena tão bem queimada que lhe vi a cor.

  2. O mundo é a fita de uma estradas e a terra, como dizes, Bernardo, é bela é vista do alto…

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Viajei sem sair do sofá. Tão bom!

  4. cc diz:

    É um texto mesmo muito bonito, devia dedicar-se a esta função, temos tão má literatura de viagem em Portugal.
    ~CC~

  5. Que bonito, Bernardo, olhos como azeitonas deitadas.

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