Viagens pela minha estante VII

I think it better to conclude in good time and in erect bearing a life in which intellectual labour meant the purest joy and personal freedom the highest good on Earth

I think it better to conclude in good time and in erect bearing a life in which intellectual labour meant the purest joy and personal freedom the highest good on Earth

Stefan Zweig foi-me apresentado, já bem mortinho, por um amigo comum: Max Ophuls. Bem sei que faltam ali dois pontinhos mas não dei com eles no meu teclado. Adiante. Dizia eu que cheguei a Zweig através de um dos filmes da minha vida. Carta de uma desconhecida. Meninas: desconfiem de homens que não choram com a cena do comboio, todo a fingir, todo Viena, todo fin de siècle, todo amor fulminante e impossível. De café em café, acabámos por ir visitar a sua Áustria Natal. Não era ainda 14 e o Mundo de Ontem que me deu a conhecer é um Mundo de perda, de sonhos em escombros, de uma nostalgia agridoce. Como é, digo eu agora começando a história do fim para o princípio, o Mundo da tal desconhecida. E como é, chegou agorinha à minha estante, a vida intensa de Maria Antonieta. Esqueçam os bolos e as fábulas. Dizem-me que Zweig é o mais adulto dos escritores e que não escreve sem empatia. E a verdade é que é impossível não mudar o olhar sobre a austríaca trágica, arrancada à casa dos Habsburgos ainda menina, e lançada para os braços de um Rei incompetente em matéria de governo e impotente nos assuntos da alcova. Fútil de uma gravidade espantosa. Infantil toda Trianons, de uma maturidade imensa. Impulsiva e de uma coragem desenhada a água forte. Promiscua (?) capaz de amar, em dilacerante segredo, um homem só. Em vida e bem para lá da morte.

No fundo, no fundo, a história é de uma beleza trágica e é sempre a mesma. Zweig escreve sobre a nostalgia do que já não é. Quando eu for grande, quero morrer assim, de mãos dadas.

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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9 respostas a Viagens pela minha estante VII

  1. Como sabes, partilho contigo o entusiasmo pela Carta a uma Desconhecida do Ophuls. E agradeço-te a leitura do magnífico O Mundo de Ontem. Por coincidência, enquanto à tua estante chegava o Maria Antonieta, nas minhas mãos (não digo na estante, porque veio por empréstimo do meu pai, um grande admirador do Zweig) caía o José Fouché. Já leste?

  2. E só para confirmar: quem vemos na fotografia é o Zweig e a mulher na sua cama do Rio de Janeiro depois do suicídio?

  3. curioso (zweig a mente) diz:

    terá sido eutanásia?

  4. Que chatice, Pêéne! deslarga-me o Ophuls, e logo esse em particular, mais morrer de mãos dadas lailailai, perco logo a vontade de sentido crítico: agora tenho de ir à Amazon a uma hora destas!

  5. Ando a jurar dar-me o prazer de ler Zweig a sério (acho que tenho só 2 livritos dele e um mal lido). Fiquei com mais vontade. E o trabalho intelectual converter-se em pura alegria e a liberdade o maior dos bens é um programa de vida para valentes. Há poucos.

  6. ERA UMA VEZ diz:

    “Quando eu for grande quero morrer assim de mãos dadas”

    Abraçada ao último, quem sabe, único amor da vida
    os braços do tamanho do mundo
    ele aconchegado no meu peito
    a jeito de uma última conversa
    conspirada a dois

    depois
    a cumplicidade de um sorriso triunfante
    de quem, em suprema liberdade
    escolheu o instante

    por fim
    o início de um demorado silêncio
    merecido
    conquistado
    CONSEGUIDO

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