Viagens pela minha estante VIII

Le Bal. Degas.

Le Bal. Degas.

Não há nada mais cruel do que um homem de encontro marcado com a morte, a fazer contas à vida, dando-se conta que tudo foi, afinal, muito pouco. Não há nada mais cruel do que o Diário de um Homem moribundo que se  descobre Supérfluo.

A não ser, talvez, a crueldade de um morto supérfluo que em vida foi enciumado e ridículo. A crueldade de um baile a despique, dançado, de fúria, para dentro. A outra volteando, feliz, nos braços de um beau, brillant, aimable, que ele gostaria de ter sido. Esta escolhida com irreprimível asco e por puro despeito.

“Dès que résonnèrent les sons entraînants de la mazurka, je jetai tranquillement les yeux autour de moi et les arrêtai sur une demoiselle qui avait une figure allongée, un nez rouge et luisant, une bouche qui s’ouvrait si disgracieusement qu’on l’aurai crue déboutonnée, et un cou veineux qui rappelait l’archet d’une contrebasse. Je m’approchai froidement d’elle et l’invitai d’un air dégagé en faisant sèchement frapper mes talons l’un contre l’autre. Elle portait une robe rose qui paraissait relever de maladie et entrer à peine en convalescence; une espèce de mouche déteinte et mélancolique tremblait sur sa tête et se balançait sur un gros ressort de cuivre. Elle semblait pénétrée de part en part d’une sorte d’ennui aigre et d’infortune rance. Elle n’avait pas bougé depuis le commencement de la soirée, car personne n’avait songé à l’inviter.”

Pardon my french. Não sei falar russo e o meu Turgenev não escreve português. Mas vale bem o francês.

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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13 respostas a Viagens pela minha estante VIII

  1. curioso (cruel) diz:

    então há… 😉

  2. Se homem morrer, que seja de febre:

  3. Panurgo diz:

    Gosto muito. Mas há outro, o Oblomov, do Goncharov ( é só oves). Uma leitura moderna, por parte de três exegetas russas:

  4. Henrique Monteiro diz:

    К сожалению, я не знаю, французский или португальский. Только русский. Я понимаю, вы говорите о больших Тургенева, но не понимаю, что он говорит

    • curioso ( Молотов ) diz:

      Существует не более жесток, чем человек свидание со смертью, чтобы сделать математику на жизнь, понимая, что это, в конце концов, очень мало. Существует ничего более жестокого, чем Дневник умирающего человека, который обнаруживает лишнее.

      уже реализованы или хочет объяснить остальным? 😉 🙂

  5. Pedro Norton diz:

    посмотрите там SR Лафайет, думает, что это единственный умный в блогосфере?

  6. Pedro Norton diz:

    Acho que é a primeira vez que vejo uma exegeta em cuecas. Ou as cuecas de uma exegeta, é como queira. Tenho andado a passar ao lado de muita arte.

    • Panurgo diz:

      Deve ser a segunda. São Jerónimo de Dürer – a caveira era a roupa interior dos cristãos. É o próprio Santo que o afirma algures naquela carta a Pamáquio, se não estou enganado. Só que isto agora está tudo mudado.

  7. Pamáquio? Foda-se! (perdão, espirrei)

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