W.B.

Yeats

 “A civilization is a struggle to keep self-control”

(“A Vision”, W.B. Yeats, 1925)

 A primeira vez que visitei a República da Irlanda foi em 1995. A palavra mais correcta talvez seja encontro, não visita. Encontra-se a Irlanda como se encontram novos amigos cuja familiaridade não suspeitávamos ser possível. Comecei em Dublin. Segui para Cork, no sudoeste da ilha. Estive no porto de Kinsale. No campo florescente, em Inishannon. O tempo não deu para mais, embora dificilmente desse para melhor (tempo é dinheiro, e se tinha mais de um e de outro nessa altura, nunca tive muito do segundo). Namorava há poucos meses com a minha mulher. Era a nossa segunda incursão fora de Portugal – na primeira perdemos dois aviões e terminámos num cabaret em forma de transatlântico nos arredores de Praga – e tanto visita como encontro resultaram melhores do que imaginámos (quando se está apaixonado é tudo melhor do que imaginamos, mesmo quando o que se imagina já ultrapassa a imaginação). Nesses dez dias, experimentei todos os grandes whiskies irlandeses, terminando fã do proletário Paddy – o Bushmills é para maricas, o Jameson é para enconados e o Black Bush é para gajos de pelo duro como arame farpado.

Sendo verdade que passámos 47% da estadia encerrados no Peach Room do Arbutus Lodge, de cuja janela experimentámos observar o rio Lee em todos os ângulos, posições e perspectivas – também aconteceram exercícios de cubismo junto à lareira, alguns respeitando a razão de ouro e a sequência de Fibonacci -, ficou ainda a lembrança de um povo espantosamente parecido connosco: o mesmo estertor de miséria, o mesmo namoro com o copo, a mesma pícara fatalidade, o mesmo sentido de humor, a mesma nostalgia de casa (até quando do seu interior contemplamos o vazio), o mesmo canto épico do mar, a mesma bonomia, a mesma secreta doçura. Partilhamos outra forma de levitação: a poesia.

Antes de 1995, sabia certamente quem era Yeats, mas não sabia que não o sabia distinguir de Keats, Byron, Auden ou Wordsworth.  Era um monumento natural esmagador, como a Giant’s Causeway, em Antrim. Os degraus de William Butler Yeats pareciam inacessíveis, apesar de uma aparente, mas rigorosa, busca da simplicidade. Já depois, havia uma névoa, também ela gigantesca, envolvendo as palavras, very misty and full of misticism,uma barreira de ocultismo, excitação rosicruciana, lendas gaélicas, hinduísmo reciclado, historietas de magia rural e diálogos espíritas que ia lendo ou ouvindo dizer, e que me afastavam de vida e obra.

O primeiro passo para romper o nevoeiro foi um livrinho minúsculo – tem 9×4 cms – da Harper Collins chamado “Yeats Anthology”. É, justamente, uma Collins Gem e custou 2,5 libras irlandesas, numa dessas lojas em Church Street para turistas ignorantes – eu. É uma curta resenha poética, mas suficiente para o amor, para uma precoce compreensão da velhice, para as sonatas do abandono, para o êxtase da carne. Para as temperaturas da melancolia:

 Suddenly I saw the cold and rook-delighting heaven

That seemed as though ice burned and was but the more ice

 Como disse Pavese, nunca se deve voltar onde já se foi feliz. Voltei duas vezes à Irlanda, sempre na mesma companhia, e Yeats concedeu que outra vez feliz fosse. Eu e Yeats apenas discordamos numa coisa: a prosa.

 O’Connor: How are you?

W.B. Yeats: Not very well, I can only write prose today.

 Yeatslivro

 

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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9 respostas a W.B.

  1. Curioso (modesto qb) diz:

    Estará ele de acordo?

  2. Isto está tão bem contado que uma pessoa nem sabe se há-de esquecer o Yeats.

  3. Já fui ver, à minha cabeceira, se lá estava o meu Yeats. Ainda não estou descansado…
    A tua história de Praga, fez-me lembrar a minha de Roma. Ficámos na Via Liguria. Em frente, já toda a Roma dormia, a batida zéka de uma bateria ainda saía do antro escuro que era (ainda é) o Cica Cica Boom. Nennhuma cidade é uma cidade sem os seus loca infecta.

  4. Sempre gentil, amiga Eugénia. Nem, mais dottore: um dos meus botecos decadentes preferidos conheci-o em Vrsac, na antiga república federal socialista da Jugoslávia, em 1987, hoje Sérvia, perto da fronteira com a Roménia. Tinha muitas vampiras. Mas tu nos nomes és imbatível: Cica Cica Boom, La Chunga…

  5. Pedro Norton diz:

    não bebo uísque (é assim, não é?) mas acho que dava um golo valente nesse Paddy.

  6. Rita V diz:

    … e eu levava-o debaixo do braço para Sul ( da Irlanda) a ver o mar, resta saber se era ao Yeats ao Paddy ou a si!
    🙂

  7. pedro marta santos diz:

    Rita, nem mais, está combinado. Engenheiro Norton, o grande Paddy já não se encontra nas nossas paregens, mas um hellish meeeting do “Escrever é Triste” em Innishanon ao som de uísque parece-me um projecto jeitoso para 2013.

  8. pedro marta santos diz:

    Rita, nem mais, está com­bi­nado. Enge­nheiro Nor­ton, o grande Paddy já não se encon­tra nas nos­sas pare­gens, mas um hel­lish mee­e­ting do “Escre­ver é Triste” em Innisha­non ao som de uís­que parece-me um pro­jecto jei­toso para 2013.

  9. Pedro Bidarra diz:

    Também fiz essa viagem à Irlanda. Mais ou menos a mesma. Fui de Dublin directo a Galway onde comprei roupas de inverno embora fosse verão (só levava t-shirts). Era dia de corridas e o que é que eu fiz? Enfiei-me num pub a beber black velvet.
    Nunca cheguei às corridas mas um irlandês, quando comprava uma gabardina, deu-me uma dica sobre em que cavalo apostar; dizia ele que tinha um amigo que trabalhava nas corridas e que tinha inside information. Assim, sem tirar nem por, parecia um filme do John Ford.
    Os poetas é que não foi lá que os encontrei. Na época eu era mais plays. Gostava de ler teatro. Só mais tarde subi o degrau.

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