A 2 mãos


Às vezes, a nossa cabeça é aquele lugar onde várias autoestradas convergem para melhor divergirem depois nas direcções do pensamento. Explico. Vinha postar um texto sobre Abelardo e Heloísa, coisa impuríssima de dar gosto, a propósito de uma beleza de edição da Gulbenkian que fez as minhas delícias.

Mas, no outro dia, aqui, o nosso PMS falou da importância de Alma Reville no trabalho de Hitchcock. E lembrei-me de Pope com Bolingbroke. Enquanto estou feliz da vida nesta converseta comigo mesma – e ainda se admiram que goste de estar sozinha em vez de namorar… -, zás! encontro parte disto num dos livros que comprei ontem, o do tio Steiner. Sempre acreditei no anjo das bibliotecas, aquele que nos faz vir parar às mãos o livro de que precisamos.

A verdade é que, quando dois separados têm a sorte de fazer um par, duas mãos escrevem sempre melhor do que uma. Quando se sabe o que faz falta, já não nos falta tudo.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.

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11 respostas a A 2 mãos

  1. Panurgo diz:

    O livro do Steiner é maravilhoso. Os parágrafos que ele dedica a Heráclito são das melhores leituras que alguém jamais fez do filósofo obscuro. Destruí o livro ao sublinhá-lo, e agora ao abri-lo de novo, encontrei uma frase que devo ter destacado apenas por ser bela. «As between metaphysics and poetry, the air is thick with echoes». É pena ele insistir em que a Civilização Grega foi um milagre. Mas isso não lhe tira altura, nem brilho. Um livro magnífico. Parece que o estar próximo da fronteira da morte o fez escrever muito melhor.

    • A grandecíssima vantagem de uma ideia ser radicalmente diferente da que temos é a de nos fazer pensar o que jamais pensaríamos. Não é preciso que concordemos: é ginástica.

      É um belíssimo livro, de fôlego, mas não sei se muito melhor escrito: a mim, o Steiner, já me tinha convencido antes.

      • Panurgo diz:

        Não se trata de convencer. O homem possui um intelecto verdadeiramente majestoso. Mas há uma diferença notória nestes últimos livros. Mais bonitos, mais calorosos. Adorava-o na faculdade, pela quantidade de livros que me mostrava, mas, ao mesmo tempo, a prosa não me trazia grande prazer – poucos livros me aborreceram mais do que As Antígonas. E de poucos livros contemporâneos guardo tão boas memórias como aquelas que me trouxeram Os Livros que não Escrevi e as Lições dos Mestres. Se gostar do «milagre helénico» do Steiner, leia também um desses livros raros, que aparecem de quando em quando, e trazem uma nova vida dentro deles: The Other Greeks, de Victor David Hanson, um notável historiador militar. É o contraponto à visão miraculosa do aparecimento dos «gregos».

        • Porque são os livros da maturidade. Salvo raras excepções de juventude que só a genialidade, ou uma extrema originalidade, de ruptura, justificam, os últimos livros tendem a ser os melhores.

          Com certeza que não se trata de convencer: não estamos aqui a contar sílabas, isto é coloquial.

          Obrigada pelo Victor D. Hanson.

  2. Que inveja desse tempo para ler. Um luxo que merece castigo: é escrever já dois posts, um abelardizado, o outro para o Steiner… Estamos à espera.

  3. Rita V. diz:

    ‘…Sem­pre acre­di­tei no anjo das bibli­o­te­cas…’
    😀
    às vezes até o ouço respirar

  4. O livro de entrevistas do Jahanbegloo ao Steiner é indispensável. O homem é de uma inteligência ofuscante, quase excessiva, o que, de quando em vez, retira algum prazer à leitura. Mas vale sempre a pena. Gostei.

  5. Não tenho esse ainda, Pedro, nem o li. Merci e pela referência. Fica para dar alegria ao futuro.

  6. nanovp diz:

    Belas sugestões “angelicais” Eugénia…

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