A alma do casarão

 

 

Dorothea Tanning - Eine Kleine Nachtmusik

Dorothea Tanning – Eine Kleine Nachtmusik

Mulher dava à luz. Para suavizar gritos de dor, não deixasse más lembranças momento com vida nova possível, soava, alta, música no casarão. Estendia tentáculos nos quatro movimentos: marcha delicada, a lírica romança, minueto, o ‘rodo’ em que violino conduzia a dança do acontecido e por acontecer.

Não faltaram cautelas para as filhas pequenas – enviadas para a sala dos brinquedos. Ainda melhor para o jardim. Entre sussurros, perceberam a chegada do momento ansiado. Não por elas, o quadrilátero era perfeito assim, mas pela mudança (im)prevista na família envolvente. Temiam a vida nova, a mudança nos vértices, a arrogância da música.

Combinadas, deslizaram para o corredor das múltiplas portas. A música com elas.

Mais forte.

Enlaçava-as.

Tolhia-lhes o andar.

Ao fundo, entreaberta, a porta do segredo.

Emanava amarelo.

Esperança ou medo?

Como a música que largava pétalas e crescia braços da cor dos receios que às irmãs enredavam? À mais nova eriçando e cobrindo de cinza os cabelos?

Foi grito diferente que anunciou o nascer. A música amarela baixou o tom até se diluir na alma do casarão.

 

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade.
No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria.
Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.

Esta entrada foi publicada em Museu das Curtas. ligação permanente.

13 respostas a A alma do casarão

  1. Maria do Céu Brojo diz:

    Por­que às “Cur­tas” não con­si­dero ficar bem com­ple­mento em vídeo, segue agora sobre a pin­tora, escri­tora, Dorothea Tanning.

  2. Lurdes Abreu diz:

    Da curiosidade, do medo, da musica, da cor, da dor se faz vida… do amarelo.

  3. Panurgo diz:

    Hum, O quadro pede uma coisa à Espuma dos Dias. O tema é o mesmo e tudo.

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    Gostei. Mais do que violino, soou-me a piano.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Obrigada. No ‘rodo’ é mesmo o violino a ditar contradanças. Digo eu que pouco sei.

  5. nanovp diz:

    Tempos em que se nascia em casa, com tapete vermelho e tudo….bela crónica de parto…

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Acredita que assisti a cena semelhante? O parto era de primo; eu, em Moledo, na casa da família passando férias de Verão. Lembro a música, não esta para a qual a tela remete, mas outra. E não é que o jardim seguia o ‘astro rei’ por via dos girassóis?
      Ele há coisas!

Os comentários estão fechados.