À caça de piratas

Esta semana lá fecharam 49 salas de cinema da Castello Lopes. E lá ficaram algumas cidades sem um cinema sequer. Que não há público para tanta sala de cinema, isso não se discute. Para muitos, tudo se resume a uma mudança de paradigma, que a crise vem facilitar: a malta agora prefere ver filmes em casa. Isto dito só assim – e foi só assim que a outra malta, a bem pensante, o disse – parece mesmo uma inevitabilidade, parece mesmo que não há nada a fazer para contrariar o fenómeno. O tanas que não há nada a fazer. A verdade, verdadinha, é que a malta ainda prefere ver filmes no escurinho do cinema. Mas quando tem a possibilidade de ver os mesmos filmes que passam no cinema em casa e de borla, a coisa torna-se complicada. Por isso, e porque o cinema não sobrevive sem salas de cinema, decidi tornar-me polícia. Caça-piratas. E ando armado. De códigos, leis, ameaças de apreensão de equipamento e de inibições para a navegação na web, até de visões apocalípticas sobre o fim da arte. Por enquanto só consigo chegar a quem consome o produto final da pirataria, a tal malta do download ilegal que a lei não sanciona. Por enquanto só tenho mandato para exercer a autoridade dentro das paredes de minha casa, onde desconfio que há quem, ainda com idade inimputável, ande a consumir o que a bandidagem oferece de borla. Para princípio de cruzada, é o que se arranja. Mas juro que um dia ainda hei-de ser respeitado no meu novo ofício de polícia.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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8 respostas a À caça de piratas

  1. Rita V. diz:

    Um cinecop do melhor. Boa!

  2. monica diz:

    n fechem o cinema city de alvalade, para ter o privilegio de continuar a ir ver sessões de cinema em família

    • Diogo Leote diz:

      É um milagre ainda haver um cinema de bairro como o de Alvalade. Ai que saudades do Quarteto.

  3. nanovp diz:

    É capaz de não ser suficiente caro dr. Policia, mas pode ser um princípio….

    • Diogo Leote diz:

      Não é suficiente de certeza, Bernardo. Há muita gente que só vai acordar quando já não houver cinemas.

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Bem dito, melhor feito! A malta unida tem muito poder. Junto-me ao exército.

  5. Nem mais, um Pasionara era mesmo o que nos faltava.

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