A segunda primeira vez

Não gosto de trabalhar durante a noite: o ecrã do computador fura-me os olhos e o zumbido da máquina que há dentro dele faz-se audível. Interrompi-me, pensei, para ir buscar um copo de água. Mas antes de chegar à cozinha percebi que, afinal, tinha sido interrompida pela Jane Austen.

Ela teve um amor, perdeu-o, não o recuperou. Ficou só. E em cada livro que escreveu deu ao amor uma segunda oportunidade de amar: amou bem quem antes amara mal, foi bem amado quem fora antes mal amado. Talvez por isso, por esse amor que a ela não deu segunda oportunidade e lhe encheu a existência de amoroso vazio, referia-se aos livros que nele escrevia, esses de amorosa reparação, actos de reparação, de devoção, como os seus filhos, os seus queridos filhos – está na correspondência.

O que raio é isso de dar aquilo que se tem? Dar, dar de facto, é dar o que não se tem, não se teve nunca, arrancar sabe-se lá de onde essa matéria inicial. Quando se oferece a vida, oferece-se o mundo.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.

Esta entrada foi publicada em Escrita automática com as tags . ligação permanente.

8 respostas a A segunda primeira vez

  1. Rita V. diz:

    e quando o mundo acabar há outras vidas
    🙂

  2. nanovp diz:

    E o culpado foi o copo de água…o mais difícil é dar aquilo que nos faz mais falta, e como bem diz, podemos não ter…

  3. curioso (repara dor) diz:

    dar é (do que se tem) partilhar, disponibilizar… até per doar!

    dar é (do que não se tem) receber: dar oportunidade para que outro dê.

    reparação, re paração, re para ção: é consertar, perdoar, remir, observar, contemplar?

    acabei por gostar (e dei do que tinha e tenho, já menos, para partilhar) dum outro reparar 😉

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    Amar-se só a partir do amor que não se tem – do amoroso vazio como a Austen – é um grande desafio criativo.

    • Bem, ela tinha o amor que sentia, mas sim, claro que terá sido um imenso desafio, terrível apesar de criativo. Não sei se de outra forma, sem aquela inteligência, ou talvez superioridade, não seria destrutivo.

Os comentários estão fechados.