Amor em Mogmog

Mogmog, uma minúscula ilha no Pacífico

Mogmog, uma minúscula ilha no Pacífico

Tentou o Manuel provar, no dito Congresso do Amor em que ambos participámos em representação do Escrever é Triste, que o amor, nestes tempos desavergonhados de e-mails, sms e facebooks, já não é como dantes. No passado, sim, é que havia histórias como lá (no Congresso) e aqui relatou, de amores que sabiam resistir à tentação até à morte. Com a certeza antecipada de que me estava a pedir o impossível, desafiou-me a encontrar uma história, desta idade das novas tecnologias, que provasse o contrário.

Bem a propósito do episódio da recusa da virgem com que deixou uma plateia inteira lavada em lágrimas, levou-me a contar a história de um homem, François, historiador francês que dedicou boa parte da sua carreira académica a investigar a verdade, a lenda e o mito por trás de Saint Louis, Louis IX de França, que recebeu o trono, justamente, do protagonista da história do Manuel, seu pai, Louis VIII.

Na sua incessante busca para encontrar os antecedentes e as razões da marcante personalidade de Saint Louis, o interesse de François incidiu, também, sobre as circunstâncias da morte de Louis VIII e, em particular, sobre o episódio da recusa da virgem que o Manuel tão bem descreveu. E era tal o fascínio deste homem pela insólita história que acabara a desenvolver um estranho processo de identificação com Louis VIII. Tal como o rei que nunca cedeu à tentação, também ele, François, tinha sido fiel uma vida inteira à sua mulher, Béatrice. Também ele, François, em nenhum momento admitira trair, ainda que em simples pensamento, o amor incondicional que votava a sua mulher.

Todavia, desde que completara 50 anos de idade, talvez porque isso fosse sintoma de quem se sente já na curva descendente da vida, passara a ser perseguido por imagens (imagens de sonhos, de sonhos dormidos primeiro, e depois cada vez mais acordados) de um corpo nu de uma jovem mulher – quase que juraria que se tratava de uma adolescente – a entrar-lhe pela cama adentro, exigindo ser por ele desflorado. E não é que ele se via a si próprio, no insistente sonho, a ceder logo ali à tentação, cumprindo as súplicas da jovem virgem? Mais grave ainda, para um homem para quem a fidelidade estava bem entranhada na pele, era a sensação que dele então se apoderava, uma sensação para a qual só encontrava equivalente no fervor típico dos seus anos de adolescente, como se aquela virgem (não sabia bem se era sempre a mesma a entrar-lhe pela cama, se lhe aparecia uma diferente de cada vez) fosse para ele a cura que Louis VIII recusou.

Empreendeu então que teria de conhecer uma mulher mais jovem, ele que, até então, nunca abrira o seu olho erótico a nenhuma outra mulher que não a sua. Para se pôr à prova como Louis VIII, o ideal seria uma virgem, mas disso agora já não havia depois de uma certa idade, e ele não era homem para alguma vez ser acusado de pedofilia. Bastar-lhe-ia uma jovenzinha já na maioridade, mas ainda com o sangue bem fresco, que fosse capaz de lhe insuflar o sopro do oxigénio que cada vez mais lhe faltava.

Logo concluiu que, para atrair uma mulher muito mais jovem, teria, ele também, de parecer muito mais jovem. Abriu então uma conta no facebook, com um perfil falso, exibindo uma fotografia de um jovem atlético nos seus vinte e poucos anos. Em homenagem aos dois reis Louis que ocupavam o seu estudo, apresentou-se como Louis. Passou a dedicar algum do seu tempo à sua nova missão, em frente ao computador, em casa, ou no seu escritório. Estranhamente,  a mulher pouco parecia importar-se com o tempo que François passava em frente ao computador, pois que, também ela, se entretinha – pelo menos era isso que lhe dizia – a descobrir velhas amigas no facebook. Numa dessas noites de facebook, uma bela jovem “pediu-lhe amizade”, pedido que rapidamente aceitou. Em pouco tempo começaram a trocar mensagens, primeiro, e depois a conversar pelo chat. Era impressionante como aquela jovenzinha, lindíssima a julgar pelas fotografias do perfil, se assemelhava, nos seus gostos e afinidades, na personalidade em geral, à sua mulher enquanto jovem. E era curioso que se chamasse Ilsa, que era o petit nom pelo qual tratava a sua mulher nos tempos de noivado e nos primeiros anos de casamento, em homenagem à Ilsa Lund de Casablanca, o filme que tantas vezes viram juntos na altura. Pura ilusão apenas explicável, assim o pensava, para disfarçar o mal estar que o assaltava sempre que pensava em Béatrice. Bastava-lhe olhar para ela, ali ao lado, no outro computador da sala, para perceber que aquilo não podia passar de uma brincadeira, que nunca iria traí-la, que o seu amor era de tal forma incondicional que, antes morrer tal como Louis VIII, do que ceder à tentação. Mas a verdade é que a conversa no chat ia aquecendo, e o que até então julgara impensável começara a insinuar-se no seu corpo, que cada vez reagia com mais fervor aos impulsos que vinham do lado de lá. A coisa tomou proporções tais que deu por si a trocar com Ilsa promessas de amor eterno e a combinar fugirem para um qualquer lugar paradisíaco.

Mas não. Não podia trair a sua mulher. Não podia abandonar o amor de uma vida. Não mesmo? E se visse em Ilsa a sua mulher como a conheceu, com menos 30 anos? Talvez Béatrice lhe perdoasse se o fizesse por ela. Talvez ele se perdoasse a si próprio se a traição mais não fosse do que uma segunda oportunidade ao lado de alguém com quem chegara, trinta anos antes, a trocar também promessas de fuga para uma ilha perdida, longe dos olhares do mundo. Na altura, lembrava-se bem, até tinham escolhido a ilha, Mogmog, uma minúscula ilha remota no pacífico sem electricidade nem água potável, que mais ninguém no mundo conhecia para além dos dois, dos seus habitantes e de meia dúzia de geógrafos. Mogmog. Foi esta a palavra mágica, que o fez decidir-se como não se decidira no passado. Era mesmo para Mogmog que iria com Ilsa. Estava decidido. E ela também. Encontrar-se-iam no aeroporto. Deixaria um bilhete em casa à sua mulher a explicar-lhe que o fazia por ela.

Assim, na manhã combinada, François saiu de casa, deixando o bilhete dentro de um envelope numa gaveta que a sua mulher haveria de abrir lá mais para o fim da tarde, quando lá fosse buscar – já ele estaria longe então – o equipamento desportivo para o seu jogging diário.

Acontece que as rotinas da mulher de François foram diferentes naquela manhã. Saiu de casa pouco depois de François e não voltou mais. A empregada de limpeza (os filhos já não moravam em casa com os pais) descobriu um bilhete na mesa de trabalho de François. Um bilhete em que ela se despedia de François. Tinha conhecido um homem fascinante, bem mais novo que ela, de nome Louis e ia com ele viver para Mogmog, uma ilha remota no Pacífico que, em tempos (ele já não devia lembrar-se), alimentara os seus sonhos de jovens apaixonados. O computador estava ligado numa página de facebook de uma tal Ilsa.

Consta que François ainda vive com Ilsa em Mogmog. E que continua fiel à sua mulher. E mais do que isso: que o seu amor está, agora, mais forte do que alguma vez foi. 

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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12 respostas a Amor em Mogmog

  1. Diogo, não sei se sabes, mas Mogmog é o teu destino. Quem primeiro lá chegou – há quantos séculos? – foi outro Diogo, portuguesíssimo como tu, Diogo da Rocha. A ilha espera o seu soberano e oferece-lhe eterna juventude.

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Fabulosos texto e notícia. Venham mais.

  3. Com esta é que me apanhaste de surpresa. Desconhecia de todo a existência de Mogmog até à semana passada, quando soube,de forma casual numa pesquisa pela web, que um barco com uma família de australianos tinha naufragado na ilha e que iria por lá ficar pelo menos seis meses, a alimentar-se de caranguejos e tartarugas, até conseguir reparar a embarcação. Mas sim, claro, é mais do que plausível que, para aquelas bandas, tenha sido um português a descobri-la há uns séculos.

  4. Maria, podemos fazer um congresso do amor todos os dias. Histórias não faltam.

  5. Isso é que era giro, Diogo. Todos os dias não digo, mas uma vez por mês, uma história de amor, mesmo que fosse daquelas de cordel, tinha um piadão. Vou sugerir isto ao nosso Tirano, perdão, ao nosso querido Manuel Fonseca.

    Manuel Fonseca, venha cá depressa que o Diogo quer Folhetim uma vez por mês e eu aprovo! 2 já somos 2!

  6. Ivone Costa diz:

    Bem. Eu não sei escrever sobre isso de histórias de amor e vexas sabem muito bem disso e sobretudo sexa Diogo que veio para aqui com a pintura de lesmants do outro e só eu sei o que penei para escrever sobre aquilo e também sobre a maçã da Maria João. Bem.

  7. Ivone, V.Ex.ª que se deixe de falsas modéstias que aqui a malta está ávida dessas suas histórias de deuses que amam e são amados, do tempo em que o amor nasceu.

  8. nanovp diz:

    Afinal o facebook não é tão mau assim….e a fotografia com uns anos a menos e um retoques de “photoshop” também não é má ideia

  9. Bernardo, talvez não dê para chegar às sete dos gatos, mas parece que, através do facebook, cada um tem à sua mercê gozar mais do que uma vida.

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