Árias – a morrer de amor há várias. O caso de Isolda (3)

Este post é a resposta a dois desafios que eu decidi condensar num único. Perguntou-me o maître Manuel se eu aceitava encomendas, sem especificar quais. Adiantou-se a goddess Eugénia, tal e qual uma alma génia, a encomendar a morte Isolda.

Devo dizer que a ária Mild und Leise é, mesmo para mim, belíssima. Conhecida entre os melómanos e estudiosos como Liebestod (palavra alemã que congrega os significados de amor, liebe, e morte, tod, portanto a morte de amor) é uma obra prima do desespero esperançoso, ou da desarmonia harmoniosa. Todas as obras, ou quase, de Richard Wagner, que compôs Tristão e Isolda em 1865 (salvo erro, vejam no Google), só podem ser ouvidas de uma forma: ter uma boa acústica em casa e mandar a família um fim-de-semana para fora. Vê-las ao vivo é sofrimento (o Tristão e Isolda dura mais de quatro horas e provoca escaras no sítio onde o Dr. Viegas mandou o fiscal tomar); ouvi-las no meio da mínima distração é fatal, não se entende o sentido da música. Por isso, casa vazia e, de preferência, auriculares. Nada nos pode distrair de uma obra feita de subtilezas orquestrais que apela constantemente a que estejamos para lá de nós próprios. A música de Wagner (que Mark Twain considerou better than it sounds) é uma transcendência que, como todas, só faz sentido em estado ascético.

Para dar o enquadramento à Liebestod, a coisa passa-se assim: Marc, o rei da Cornualha (não será por causa destes factos que aquilo se chama Cornualha), manda o seu sobrinho Tristão buscar a princesa irlandesa Isolda para que com ele se case. A história tem origem numa lenda medieval, que integrou o ciclo arturiano pela mão de Christian de Troyes, onde Isolda também se chama Iseu, assim sendo referida nas traduções galaico-portuguesas do séc. XIII e pelo nosso Rei D. Dinis – “Tristan sey ben que non amou Iseu quant’eu vos amo, esto certo sey eu”. Mas adiante: pelo caminho Isolda e Tristão bebem uma poção e ficam perdidamente apaixonados. Claro que não consumam a paixão, mas querem ambos morrer para que, no além, possam estar sempre juntos. Esta cena, na ópera, é relatada através de um dueto entre  os dois apaixonados (So stürben wir, Ato II) onde ambos dizem desejar morrer para não mais viver separados e estarem eternamente juntos – a fim de que nada viva, exceto o amor! (Bonito, hein? O problema é que eles levam uma eternidade a cantar cada coisa).

De acordo com a lenda (mas esta parte não está na ópera), Tristão casa-se mais tarde com outra Isolda, conhecida por Isolda das Mãos Brancas. De qualquer modo, as duas narrativas encontram-se no ponto fulcral da trama. Tristão à morte pede para ver Isolda uma última vez. Num derradeiro esforço, morre nos seus braços. Isolda, por sua vez, morre também, de amor, o tal Liebestod, sete minutos de maravilha em Wagner. Na última cena, o rei Cornualho, que seguira a esposa, ele próprio comovido por tanto amor platónico, abençoa os dois cadáveres, enfim unidos (algo que Soares dos Passos, quando escreveu o Noivado do Sepulcro sabia bem, malandro de plagiador).

A prosa está a acabar, mas como dizia Victor Borge, talvez o único humorista que foi erudito em música, nada em Wagner termina antes de a senhora gorda cantar (it ain’t over till the fat lady sings). Porém, se ouvir Wagner, como disse e escreveu Woody Allen, pode provocar um desejo irreprimível de invadir a Polónia, vou direito ao fim.

O Liebestod que aqui trago é de uma das grandes intérpretes de Wagner – Jessye Norman (embrulha, Hitler, depois do Jesse Owens, levas com outra afro-americana). Claro que haveria outras hipóteses, mas nenhuma Isolda contrastaria tanto com a Isolda das Mãos Brancas (andava há anos para fazer esta piadola e não conseguia).

Vamos, pois, ao que conta: a música, a voz, a orquestração

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom.
Sem nunca me levar a sério – no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom
(e barato).

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7 respostas a Árias – a morrer de amor há várias. O caso de Isolda (3)

  1. Não lhe passa pela cabeça, Henrique, o que gosto e me divirto com as suas árias, desde o título à última palavra.

    Esta mulher é uma coisa, olhe, nem sei. Já lhe agradeço esta Isolda a preceito.

  2. Pedro Norton diz:

    Bonito sim senhor. E quer mais duas historietas caro Marquês? Pois tome:
    Reza a lenda que, em 1861, Tristão e Isolda foi ensaiada 77 vezes antes de ser cancelada por manifesta impossibilidade de ser cantada. Wagner demorou mais quatro anos até que lá arranjou um casal (Ludwig e Malwine von Carosfeld) que, num esforço sobre humano, levaram a obra até à estreia. Exausto, Ludwig morreu um mês depois.
    No tempo em que estas coisas se faziam assim, a minha tia avó deu o primeiro pontapé na barriga da sua mãe enquanto esta ouvia Trista e Isolda. Pois por ordem do seu pai (o arquitecto Raul Lino), Isolda se chamou a senhora. E ter-se-ia chamado Tristão se o destino lhe tivesse trocado as voltas ao sexo. Muitas vezes agradeci eu à fortuna pelo facto do meu pai não lhe ter dado para ir ouvir o Otello.

    • Henrique Monteiro diz:

      Olhe que a possibilidade de se chamar Perceval, Segisfredo, Segisberto, Pamino, Papagueno, Sarastro, Rigoberto ou outro nome assim, ia bem com a sua cara. Só dependia da opera que os seus antepassados ouviam. Imagino Rigoberto Matos Prego – é todo um programa!!!!! 🙂

  3. Pêéne, essa da Malvina do Carrossel e do marido dá uma short gira se formos uns incompadecidos do drama familiar-wagneriano.

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    Henrique, por causa de ti e dos teus conselhos já tenho os vizinhos do prédio ao lado a baterem à porta. Excelente, excelência.

  5. Maria diz:

    Por acaso tenho uma amiga que vai ser avó! Os “grávidos” resolveram lançar um concurso entre os parentes mais próximos para escolherem o nome do rebento que vem a caminho. A minha amiga gostava de sugerir um nome original, porque, como professora que é, sabe bem das modas dos nomes e ter uma turma em que metade são Tãnias ou Martim ou Dinis (a última moda) é das coisas mais chatas que existe pois tem sempre que se pronunciar um segundo nome. Vou sugerir-lhe esta ideia tão inspiradora 😉

  6. Entre o azedo e o empolgante, como todos os temas de Wagner. Cenário, vestuário e interpretação soberbos. Não creio que haja muita gente a cantar esta peça.

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