Às árias diárias, suas luminárias (2)

Pois hoje, por ser sábado, apeteceu-me drama. Dos sérios e gordos, aqui cantado pela bela voz de Renata Scotto. Reparem nas notas finais, de uma exigência brutal.

Não sei se sabem que o rei da Suécia Gustavo III foi assassinado durante um baile de máscaras. Claro que não sabiam, ninguém sabe estas coisas sórdidas se não for regularmente à ópera. Mas foi assassinado em 1792 e isso deu azo a que Scribe tivesse escrito um drama para ser levado à cena com música de Daniel Aubert, em 1833, com o título Gustav III ou Le bal masqué. Esta versão não teve sucesso, mas Giuseppe Verdi, que sabia fazer óperas com duas pedras e uma pandeireta (talvez mais um ou outro violino) repegou o tema de Scribe, chamou-lhe Un ballo in maschera, e pôs-lhe a sua música. Sofreu bastante com cortes da censura, porque isto de matar um rei não deve servir de exemplo, mas levou a sua avante.

A obra, do meu ponto de vista, não é do melhor que há, mas esta ária, Morro, ma prima in grazia, tem um je ne sais quoi ( à atenção de PêÉne) que me deixa inquieto e maravilhado.

O enquadramento é este: Renato, que suspeita que a sua mulher, Amélia, tem um caso com Ricardo (nas óperas italianas o tenor quer comer a soprano, mas o barítono opõe-se) decide matá-la. Ela reconhece que ama Ricardo, embora jure que nunca tenha chegado a vias de facto e, aceitando morrer, pede-lhe como última mercê, que o marido a deixe despedir-se do filho de ambos. É desta frase o título com que ficou conhecida a ária:

Morrò, ma  prima in grazia mi consenti almeno
l’unico figlio mio avvincere al mio seno.

Morro, mas primeiro deixa-me ter o meu filho ao colo (ou coisa assim). De qualquer modo é com este enquadramento que têm de perceber o drama da senhora.

E pronto, ouçam.

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

14 respostas a Às árias diárias, suas luminárias (2)

  1. Ó Henrique, já me ri de gosto! A partir do tio Verdi que sabia fazer óperas com duas pedras e uma pan­dei­reta é sempre adiante…

    Bem digo que a ópera é coisa de faca e alguidar, mas as sensibilidades eruditas afligem-se muito, são muito frágeis no egozinho, têm medo de ter uma sentimentalidade de sopeira – para utilizar uma expressão da minha avó a meu respeito.

    • Henrique Monteiro diz:

      Pois, a ideia de que a ópera é para levar muito a sério é de uns senhores e senhoras que pensam que a gorda, quando leva meia hora a morrer depois de levar uma facada, não está a gozar com eles. Imagino como verão as telenovelas… De smoking e vestido de noite?

      • Excelente escrito, porque desmistifica a ideia da ópera como coisa elitista. Na Itália oitocentista (e daí em diante, até à primeira metade do século passado) era um espectáculo imensamente popular, como saberá o Henrique melhor que eu. No caso de algumas obras de Verdi, também se tratou de um factor de afirmação nacional, simbólica de uma ideia de «Pátria» que se fazia em torno de um património comum; nada que desconheça, claro.
        Agora esse «ou coisa assim» podia ser um bocadinho afinado:)
        «Morro, mas antes permite-me, ao menos, a graça
        do meu único filho trazer ao meu peito.»
        (ou coisa assim)

  2. Esta ária é linda e a interpretação, maravilhosa! Do melhor que ouvi! Desconhecia Renatta Scotto bem como esta ária. Muitas óperas têm enredos melodramáticos patéticos; na essência, pouco diferentes das telenovelas, mas…as árias Senhor…

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Henrique, como diria a Princess Eugénia ao teu rei sueco: fabulástico. Já agora, aceitas encomendas? Podemos sugerir árias para tu escreveres?

    • Henrique Monteiro diz:

      Ó Manuel, eu com a crise que aí vai aceito encomendas, faço domicílios e se for preciso toco e canto….

      • Manuel S. Fonseca diz:

        Henrique, já imaginava. Isto não está fácil, mas agora, palavra de honra que não vais parar-

  4. Tenho uma encomenda! Aceita?

    Gosto das mortes, farto-me logo de chorar – é tal da sentimentalidade lailai. Mas há uma que dá cabo de mim pelos motivos errados: falta-me conhecer a voz certa, com o raio do maestro certo, no dia certo em que Isolda morreu como nunca mais havia de morrer.

    Mal comparado, e porque já sei que o Henrique adora ballet, aquela que seja como a morte de Nikiya dançada pela Isabelle Guérin em 92 – e não tenho nem uma nem duas La Bayadère.

  5. Natália diz:

    Já vi uma Isolda morrer, e ía morrendo também…
    E chorei. Muito.
    É relativamente recente, a produção está editada em DVD (acompanha-me para onde
    quer que eu vá…), e também está no youtube.

    Também voto na encomenda!
    Pode serque o resultado seja o mesmo…

  6. Ricardo Correia Afonso diz:

    Henrique, Un Ballo in Maschera tem das melhores composições para conjunto que Verdi jamais escreveu. Quanto à escolha da Scotto, um pouco triste, tendo em conta que sendo italiana acentua as primeiras silabas das palavras de um modo desajustado, por vezes comendo o som, o que prejudica os arcos do som. Já para nao falar do vibrato exagerado. Recomendo a gravação ao vivo da abertura do Scala, temporada 57/58, Ballo dirigido por Gavazzeni. Depois de ouvir esta versão, cheguei a conclusão que nao há melhor dueto – de amor – que o desta opera, se bem executado, claro esta. E pronto, já fui triste e cromo que chegue! Resto de bom domingo, e continua a escrever sobre opera, que, ao contrario de outros futebois, essa sim, e arte total, que arrebata e leva fãs, muitas vezes divididos pelas opiniões, à loucura. Ricardo Correia Afonso

    • Henrique Monteiro diz:

      Eh lá, seu Ricardo. Nunca tínhamos discutido isto, de tanto falar de processos de imprensa. Isso prova que cada um de nós é dois ou três. Posto isto, que é um cumprimento, não concordo. Nem com a elevação do Ballo nem com a desconsideração da Scotto. Mas havemos de falar nisso. Que a tua sugestão é boa, não duvido. Mas YouTube rules!!!!!

      • Ricardo Correia Afonso diz:

        Eheh, essa agora. Mas a que falta de elevação te referes? Do texto? Da música? Se é o primeiro, boa sorte para um texto sobre o Ernani ou O Trovador, cujos libretos considero piores que do Ballo. Se te referias à música, o Ballo é muito melhor que estas duas últimas, na minha opinião. Tens que ouvir a versão que te recomendei. Tem mau som, mas a companhia do Scala estava, nessa noite particular, on fire. 🙂

        • Henrique Monteiro diz:

          Sim mas tens o Rigoletto e, sobretudo, o Falstaff. E sabes que estou limitado ao youtube. De qualquer modo, lá mais para a frente, levarás com a Callas no Ecco l’orrido campo para teu deleite. ok? Grande abraço

Os comentários estão fechados.