ART ME UP – ix

ART ME UP
ROSA CARVALHO – i  – AS CABEÇAS DE ROSA CARVALHO
SÃO CABEÇAS, SENHOR

Em Alice no País das Maravilhas há uma rainha. A Rainha Vermelha. Rainha de Copas. Portanto, do coração que bombeia sangue e vida, o mesmo com que se sente e não pensa. Esta rainha sujeita o mundo e os seus súbditos a uma lógica formal que não permite infracções – coisa impossível, mas o coração é um tirano. Quando elas ocorrem, qualquer veredicto é inútil porque a sanção, sempre a mesma, cortem-lhe a cabeça, já foi ditada – a rainha subverte a lógica que impõe, a sanção precede o veredicto, e como é recorrente, é também, em regra, anulada pelo rei.

Esta rainha corresponde às exigências irracionais e imaturas de uma regra extremada, inaplicável à realidade, apenas funcional e só no sentido em que enforma a massa informe de conhecimento. A mesma que nos ensina o bem e o mal, o bom e o mau, o preto e o branco. O rei reequilibra a balança pois responde às solicitações com bom senso. Distribui perdões a cinzento que evitam a decapitação sem entrar em conflito com a rainha já que não se opõe à sua acção.

RC  jardins secretosA pintura de Rosa Carvalho é o rei e a rainha, sem qualquer dualidade. Ainda que o confronto esteja presente, é o de duas forças complementares que agem conjuntamente e só fazem sentido no seu todo.

RC  PRETO E BRANCO
O recurso a uma lógica formal para a subverter pressupõe o domínio dessa lógica. No caso de Rosa Carvalho de um modo de fazer. Qual? À maneira de, ou seja, maneirista. Logo aqui começa a subversão. Faz-se o hoje num modo de ontem, em consciência: isto introduz o anacronismo e o humor, ora risível ora melancólico, em que o eu é espectador de si mesmo. Quem vê e quem pinta? A mão esquerda e a mão direita: a rainha traz a fórmula e o rei traz o antídoto.
RC pauline

Há falsos decapitados, de cabeças bem coladas ao pescoço, na pintura de Rosa Carvalho. Estão fixados, tais as cartas que se prostravam no chão à passagem da rainha, tal uma natureza morta onde se celebra a exuberância da vida no exacto instante que antecede a corrupção das matérias nela representada. E duas questões aqui se erguem, sozinhas, espontaneamente.

RC full moon

RC 3

Uma. A cabeça ainda que visualmente ausente, está lá, subentendida. O que se pretende com esse silêncio de olhos, boca, nariz, das maçãs do rosto, da testa? Desconstruir a identidade no que ela tenha de mais individual e reconstrui-la no que ela tenha de social através do uso dos símbolos? Há jóias que são ceptros, fatos que são mantos, corpos que são todos quando são um qualquer. Quem somos fora do eu com que nos reconhecemos e como nos podemos reconhecer através dos nossos símbolos? Quem dizem eles que somos? E somos o que eles dizem de nós? Outro que os usasse seria eu? Há na pintura de Rosa Carvalho um olho no microscópio, um olho com vontade de espreitar a criatura.

RC  a secret life

RC  PRESUNTO FATIADO

A outra. A imobilidade. As pernas quietas. Não vão, não caminham. As mãos, instrumentos de fazer, não fazem, representam. Fixados. Borboletas, vivas porém, pregadas por alfinetes numa taxinomia pessoalíssima onde toda a acção está presa. Então, circularmente, voltamos à natureza morta: o foco não é o acto, é o momento. Fotográfico.

RC  2RC  ROSBIFEA desconstrução da identidade e o modo exploratório de definir o eu pelos seus símbolos, a fixação dos objectos em situação, são expressões clássicas e rigorosas, e a porta por onde o anacronismo entra pela tela adentro e nos acena.

Só um coleccionador de cabeças pode rodear-se delas, olhá-las nos olhos e ouvi-las dizer, ou será dizer-lhes: don´t look now.

RC  5

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.

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15 respostas a ART ME UP – ix

  1. Como sempre Eugénia muito bom!
    O seu texto e a pintura da Rosa Carvalho, que muito admiro.

  2. Rita V diz:

    Formidável
    Adoro

  3. Gosto da forma como rei e rainha reequilibram a balança. Belo texto: ouve-se tanto ou mais do que se lê. Colecciona-nos a cabeça.

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Belíssimo! Sem sua licença, este texto já anda por aí.

  5. Ivone Costa diz:

    Eugénia, a menina escreve tão bem sobre estes assuntos que só visto. Lido, digo. Isto é: escreve bem sobre tudo, mas a arte dita pela sua pena ganhava se não as tivesse.

  6. nanovp diz:

    Texto bonito e acutilante sobre obra que conheço muito mal, mas que já fiquei a conhecer melhor…

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