As Muitas Razões

Todas as coisas acabam por ser especiais para cada um à sua maneira.

O “Sétimo Selo” de Bergman é um desses meus filmes especiais. E por variadas e inúmeras razões que provavelmente farão pouco sentido para outros. Pela irrepetível sensação de o ver pela primeira vez, que obrigou a uma redescoberta tardia de toda a restante obra de Bergman; os extraordinários “Monica e o Desejo”, “Os Morangos Silvestres”, “Persona” e, bem mais  tarde, “Fanny e Alexandre”, talvez o filme mais alegre de Bergman, um comovente e transparente hino à família Luterana protestante, que Bergman tanto criticou durante toda a sua obra, mas a quem envia um último aceno de agradecimento.

o prematuramente velho livro

o prematuramente velho livro

Voltando às “razões que a razão desconhece”, como diria o poeta, uma outra tem a ver com um pequeno livro do guião do filme, que facilmente passaria despercebido em qualquer livraria, e que por mérito acaso se cruzou comigo. Comprei-o numa banca de livros em segunda mão, numa bela manhã primaveril. Sempre teve o aspecto gasto e velho que ainda conserva, como que prematuramente velho para mim que nunca o conheci novo.

A grande pérola escondida neste pequeno e despretensioso livrinho, e para além das fotografias retiradas das cenas do filme, é o texto da Introdução, muito curto, escrito pelo mestre.

as fotografias das cenas

as fotografias das cenas

Este texto tem-me acompanhado há tantos anos que sinto que tenho envelhecido com ele. O grande elogio que lhe faço é de que continua actual meio século depois de ter sido escrito, ou seja possui as características de uma grande obra de arte ao manter a sua importância independentemente do tempo e do contexto em que foi escrito. Aliás diria o mesmo do próprio filme, que visto hoje com o olhar de um novo século, mantém todas as grandes questões que me parecem importante discutir.

Fala de arte, da criação, dos porquês que estão escondidos por detrás da obra consumada, desenhada, escrita ou filmada. Fala do artista, fala da beleza do mundo construído pelos homens através da sua arte. Fala também de algo que está para além do homem, e que é ingrediente essencial à construção artística.

E Bergman, tal como a personagem do cavaleiro medieval interpretado por Max von Sydow, aceita que o papel do artista é o de desaparecer, aceita deixar de existir para que outros continuem a viver, continuem a desfrutar da obra que entretanto se autonomizou.

Por isso, e no universo intelectual dos anos sessenta Europeu, Bergman identifica-se antes com os anónimos construtores das catedrais medievais. Podia ser falsa modéstia, mas agora que já só temos a sua obra, a sua vontade parece concretizar-se.

o texto

o texto

 

 

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência.

Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra.

Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data.

A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach.

De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro.
A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.

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6 respostas a As Muitas Razões

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Belas razões, Bernardo, para gostares tanto do Sétimo Selo.

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    O cavaleiro, a peste, a morte, o sentido da vida. A travessa semelhança com Dom Quixote e o seu fiel escudeiro. A diferença entre as motivações sublimes do cavaleiro e as bem mais ácidas de Sancho Pança que não procura respostas por já as possuir dum modo criticamente pragmático pelas agruras da vida.
    Gostei e muito.

  3. nanovp diz:

    Bem lembrado Maria do Céu, D.Quixote que se ” aventura num mundo que já não consegue reconhecer” como diz Kundera, tem muito do cavaleiro de Bergman, a sabedoria de que o mal e o bem fazem parte do mesmo mundo.

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