Bati com a cabeça II. O final feliz

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Este não é o TAC do autor que preferiu manter a sua intimidade fora da blogosfera

As palavras são coisas maravilhosas.
Toda a vida gostei de palavras. Nunca as entendi como coisas minhas, do meu corpo ou resultantes dele. Como, por exemplo, os dedos da mão. Sempre entendi as palavras como coisas estranhas a mim e, por isso, sempre tive com elas uma relação igual à que tenho com os objectos que me rodeiam. Olho-as, brinco com elas, uso-as, às vezes mal, mas tenho sempre, a sensação que não são bem minhas, que as posso perder ou estragar e que ficarão por cá, para ser herdadas, quando o corpo que sou, e as usa, deixar de o ser.
Se calhar esta relação coisificada com as palavras nasceu da dificuldade que tinha na primária, dos erros que dava, sobretudo nas cópias; ou foi a coisificação que deu nos erros e dificuldades. Não interessa. Deve haver um quadro clínico para definir esta condição mas nunca o procurei. A coisa tem funcionado bem.
De qualquer modo a minha colecção de palavras não é grande. Não tenho um léxico extenso, não sou dado à verborreia, nem ao virtuosismo verbal. Daí o susto.
Na última semana, como resultado da pancada monumental que dei com a cabeça, faltaram-me palavras. Não aquela falta que acontece quando queremos expor um conceito e sabemos que há-de haver uma palavra certa que nos falta na colecção. Foi antes a aflitiva sensação de querer encontrar uma palavra que tinha algures e não a encontrar porque a pancada a tinha desarrumado do lugar. Não é uma boa sensação para ninguém muito menos para quem escreve.
Felizmente, quando não há lesões no hemisfério da fala, é tudo uma questão de anti-inflamatórios e sono.
O curioso desta história, absolutamente banal – quantas pessoas não batem com a cabeça e quantas não deviam bater com mais frequência para evitar a merda que se ouve – é que, obrigado a fazer um TAC, resultou não só um prognóstico favorável como fui ainda brindado com um magnífica sortido de novas e inesperadas palavras. Leiam-nas com atenção e gravitas e digam-me lá se este não é um poético final feliz

Imagens
no plano axial do buraco
magno ao vértex
processadas
em algoritmo de tecidos moles
e de detalhe ósseo

Lesões traumáticas
endocranianas
contusões parenquimatosas
colecções hemáticas
extra-axiais
ou sangue
subaracnoideu
não revela

Lesões
parenquimatosas
encefálicas
ausentes
normalidade
dos espaços de circulação
de liquor

Traços de fractura
dos ossos
do crânio,
imagens
de hemotímpano ou
de hemossinus
não se observam

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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21 respostas a Bati com a cabeça II. O final feliz

  1. Teve muita sorte. Um amigo meu teve uma tia já com alguma idade que um dia caíu, desmaiou e, quando acordou, para espanto geral, desatou a falar em espanhol.

    Nunca ninguém a tinha ouvido falar espanhol nem se lhe conheciam contactos espanhóis; parece apenas que, na infância, a mãe tinha tido uma empregada espanhola. Esse meu amigo é médico e disse que não é inédito; e que, passado algum tempo, a coisa vai ao sítio. E, no caso da tia, foi.

    Por isso, já sabe: se um dia destes, faltando-lhe as palavras, lhe começarem a sair em ucraniano, não se alarme.

    • Pedro Bidarra diz:

      Se me acontecesse o que aconteceu à tia do seu amigo tenha a certeza que começava a dizer caralhadas e a trocar os bs pelos vs que foi o que aprendi na infância com a criada que era de Fafe

  2. Lurdes Abreu diz:

    De pantufas nos pés e pijama enfiado numa de clika aqui e clika ali e acolá para saber as novidades do fim do dia eis que descubro uma anedota que me fez rir. De repente um outro clike, silêncioso, produz-se na minha pobre cabeça, não sujeita às suas maleitas (gracias a dios). Não era um dos tristes que dizia que gostava de anedotas, de rir? Enqunto lentamente o blog se abre, lembro-me que era o Mestre Bidarra que tal tinha dito ou “escrevidio” melhor dito. Finalmente a coisa dá sinal de vida e eis que o primeiro embate é logo com o sujeito que ocupava o meu pensamento.

    Depois de tudo lido não tenciono ir ao dicionário ver nada disso mas posso concluir que teve alta, ou seja “está pronto para outra”

    Aqui fica então a anedota que encontrei e que por acaso e só por acaso tem a ver com palavras e o jogo das palavras.

    “Entrei, dirigi-me ao balcão e disse:’Quero matar-te!’
    E a empregada perguntou-me:’De cereja ou maçã?'”

    • curioso (gra vitas) diz:

      a melhor da noite (paz mental – pasme em tal) 🙂

    • Pedro Bidarra diz:

      Que bela anedota. A empregada era esquizófrénica ou queria fazer stand up comedy (provavelmente por passar o dia de pé era o que sonhava). Em qualquer duas casos há aí uma disfunção comunicacional que consiste em considerar que a palavra pode fazer parte de simultaneamente de dois conjuntos exclusivos. Isso gera paradoxos. disfunções comunicacionais típicas da esquizofrenia, ou anedotas.
      Desculpe a resposta mais técnica mas o susto levou-me de volta à faculdade e aos textos sobre linguagem

      • Lurdes Abreu diz:

        E por que não por a hipótese da empregada ser apenas um bocadito surda ou ter cera em excesso nos ouvidos ou ter uma audição selectiva? Psicólogo complica mesmo! 🙂

        • Pedro Bidarra diz:

          Se ela tivesse problemas de audição, e vez da descodificação dos níveis lógicos da comunicação, a anedota não resultava. 🙂
          Psicologo complica e é chato

  3. curioso (dignitas) diz:

    poético é estranho mas chega-se lá 😉

    mas atirando com a gravitas na nossa cabeça… dá para ficarmos meio ator doados 😉

    para equilibrar: dignitas, pietas e iustitia

  4. Quandoi li
    «nor­ma­li­dade
    dos espa­ços de cir­cu­la­ção
    de liquor»,
    vi logo que estava tudo bem. Ainda bem.
    Eu também andei nesses territórios sombrios, mas tiveram de me fazer buracos na cabeça com uma verruma grande.
    E é por isso que me irrita estar a ficar careca – vou ficar bestialmente lunar…

    • Pedro Bidarra diz:

      Caro António foi exactamente o que pensei. E o contente que fiquei por confirmar, como já desconfiava, que há espaços para a circulação do liquor. Nunca mais me vou entregar àquela dúvida judaico calvinista do “Se calhar não devia beber”. Agora sei que há espaços próprios para a circulação do liquor.

  5. Olinda diz:

    às tantas bateste com a cabeça, aqui ficam desde já os meus votos de rápidas melhoras, para aprenderes que afinal as palavras, tal como os dedos, fazem parte de ti quando, no entanto, tanto umas como outros não são teus – são emprestados da vida.

    • Pedro Bidarra diz:

      os dedos serão comidos pelos bichinhos. As palavras não. E isso faz toda a diferença

      • Olinda diz:

        isso é absurdamente limtado, tenho de te dizer – as palavras têm a voz dos dedos. se os dedos são comidos também a voz, neste a caso a tua, será também. porque as palavras têm carácter e o carácter é a voz das palavras.

  6. God your doG diz:

    E aprendeste a ver no escuro?

  7. Gosto bastante do subaracnoideu. Já estás pronto para um “tête a tête”.

  8. Henrique Monteiro diz:

    Magnífico. A cabeça, embora hoje em dia seja dispensável aos políticos, é bastante conveniente em certas ocupações honestas.

  9. Manuel S. Fonseca diz:

    Pedro, isto não é só uma questão de tu gostares das palavras. O que se percebe é que as palavras gostam bestialmente de ti e vão bater-te com força na cabeça. Ficam taradas com o teu suba­rac­noi­deu. Isto é caso para uma estada feliz em editora adequada. Mais nada.

  10. nanovp diz:

    Há sempre um lado positivo nas ” cacetadas” da cabeça…

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