Bati com a cabeça

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A história conta-se numa penada.
Grande declive, velocidade exagerada, gelo, pernas para o ar, CATRAPUM. Aterrei de cabeça. Agora mandam-me descansar. Nem ler, nem ver, nem escrever.
– E não pense em nada – disse o homem de bata branca.
– Não pensar em nada? Só se me der uma anestesia geral – disse eu.
Não tive sorte. Disse-me para ir pra casa, para o escuro, e estar em silêncio.
– Ó doutor, mas se ficar em silêncio fico a pensar.
– Então oiça uma música relaxante e adormeça – disse-me o homem de bata branca, olhando-me desconfiado, sem saber se eu estava a gozar ou se eram efeitos do trauma.
A desconfiança aumentou quando eu, com cara de pau e olhos de carneiro mal morto, lhe perguntei se, em casos destes, havia alguma música que ele costumava prescrever.
De soslaio, levantou os olhos do papel que escrevinhava, puxou de um bloco de notas, sempre a olhar para mim, e escreveu, sem nunca se desmanchar, Ária das Variações Goldberg. E acrescentou:
– Pode ser genérico se quiser. Boa tarde e as melhoras.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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21 respostas a Bati com a cabeça

  1. António Barreto* diz:

    Boa malha! Vou ouvir esse tal Goldberg a ver o que dá.

  2. António Barreto* diz:

    Com sua licença levo para a minha palhota.

  3. Já me ri, Pedro! Obrigado por ajudares à minha tarde. Vê-se mesmo que o médico é centro-europeu. O Bach em convalescença pode provocar depressões. Se fosse a ti ouvia antes os primeiros álbuns dos Metallica. As melhoras para ti.

  4. Ivone Costa diz:

    O melhor para isso é ouvir muitas vezes os 4′ 33” do John Cage. Acredita, eu já bati com a cabeça. As melhoras, beijinho e pronto já passou.

    • Pedro Bidarra diz:

      O problema do 4’33” oiço-me o pensamento acompanhado de zumbidos nos ouvidos. É uma espécie de “pensamento preparado”. Não é relaxante.

  5. curioso (sound of silence) diz:

    aquele raio-x mostra muita falta de manutenção 😉 podia ter sido fatal…

    espero que a receita do 4’33” não seja uma ‘pequena’ maldade. rápida recuperação.

  6. Henrique Monteiro diz:

    Pedro, é possível ouvir as variações sem bater com a cabeça, mas se fosse preciso bater com a cabeça para as ouvir, eu batia

    • Pedro Bidarra diz:

      Também tenho cá em casa a versão do Wilhelm Kempff. Cheia de energia pueril. Uma coisa mais germânica, sem hesitações.
      Gosto muito mesmo das variações.

  7. O meu sobrinho diz: o nosso Báque? Mas o nosso Bach, para ele, ou é Glen Gould ou é só meu.

    Agora para não pensar: Muse. É uma espécie de hipnose ou anestesia. A cabeça fica em automático sozinha e nem damos por nada. Um beijinho de melhoras, Pedro.

    • Pedro Bidarra diz:

      Se não passar com Bach, tentarei Muse. As sugestões do Pedro é que são assassinas. Metallica, Radio Head. Como é que ele pensa que eu fiz aquele buraco que se vê na foto?

  8. O meu afilhado adora Muse, Eugénia, e eu também acho piada. É verdade que é das poucas bandas a saber inspirar-se em Rachmaninoff, mas prefiro os Radiohead. Esses rapazes sabem mais de Schonberg do que nós todos juntos (e isso, sim, é um elogio).

  9. monica diz:

    gostei mais da história do que da receita, acho que automedicava-me com eric satie ;))

  10. Maria do Céu Brojo diz:

    Olha o prato de substância que nos serviu! Digeri-o todinho. E porque tenho riso morto por vir à luz, ri a bom rir. Merci.

  11. nanovp diz:

    Gin Tónico, chaise longue, o concerto de Koln do Keith Jarrett.

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