Caminho de volta

Zarco e Soraia viviam, em simultâneo, sim, na mais exacta sincronia, o mesmo sentimento, o mesmo pensamento, a mesma experiência de um espaço em branco, melhor, difuso, enquanto duravam na mesma sensação: para fora e para dentro.

Zarco sentia que alguma coisa continuava a escapar-lhe. Um je ne sais quoi que lhe mexia com o baixo-ventre. Para fora e para dentro. 

Soraia, sentia que alguma coisa continua a escapar-lhe. Um je ne sais quoi que lhe agita o baixo-ventre. Para fora e para dentro.

No instante da dissolução, quando tudo se faz preto, fez-se-lhes também a luz que fere, cega e mata. Aqui, no reino, Malkuth, Soraia e Zarco eram um só sopro percebido em duas manifestações distintas, dois corpos de prazer e poder que afinal, e no impossível encontro da consciência ambos, tão letal quanto o encontro físico do eu com os eus, desfaziam a aparência da vida, aniquilando a mentira da vida, morrendo sem nunca terem, de facto, assim existido.

Eram agora um único, finíssimo, fio de ar brilhante ascendendo e sorriam.

É este o presente de Da´at: a ideia da ascensão quando a multiplicidade é suprimida pelo reencontro, a reunião. E é este o presente envenenado de Da´at, o lugar onde o homem se perde: é no centro do abismo, lugar do coração, que se vê a sombra luminosa de Deus, Deus, ou a loucura.

FIM

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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7 respostas a Caminho de volta

  1. Gostei de os ver morrer sem nunca terem existido. Deve ser isso a eternidade, porque existir sem nunca morrer só pode ser um breve pesadelo.

  2. curioso (peni tência) diz:

    deus, ou a loucura, seja louvado 😉

    receio que isto seja (mais um) pecado, pois parece que Deus está a ser invocado em vão (ou antes, não sei se vão ou não)

  3. Ivone Costa diz:

    Morrem? Ora bem, continuo a achar que é o melhor desfecho para qualquer história. Assim mesmo, Eugénia.

  4. Plutão regenera.Tudo ou nada. Belo fim.

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Que remate! Bem engendrado e melhor descrito.
    Agora, o ‘Cadavre’ foi enterrado – descanse em paz.

  6. Isto foi só descer o caixão à pressa: o velório e o funeral foi o Manuel Fonseca que fez no Ritornello com o maluquedo todo do Cadavre bem organizado. Merci pelas bondades.

  7. nanovp diz:

    Mas até me pareceu uma morte sedutora, uma poeira que se evapora, sem nunca ter sido forma. E agora vamos ficar com saudades….

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