Cereais? Qual o quê… pequeno almoço neotético!

A minha irmã, que tem dois filhos, ambos no percentil não sei quantos da altura, mas sei que é desalmado, e ambos no percentil desgraçadinho do peso, toda satisfeita, ao chegar do super-mercado:
– Golden Grahams, vê lá que bom, pediu.
Eu, que tenho dois sobrinhos cuja parte mais larga da coxa ao tornozelo é o joelho, já conhecedora dos raciocínios do meu sobrinho mais velho, para a minha irmã:
– E como é que ele os pediu?
A minha irmã em criptoguês:
– Ora, pediu cereais em vez de papa e puré de fruta ao pequeno almoço, e assim pode ser que coma.
Eu, vá, especialista em criptoguês:
– Falta aí qualquer coisa… Ele pediu cereais e tu, omnisciente, zás, Golden Grahams.
A minha irmã agarrada ao alfabeto secreto:
– Mostrei-lhe os cereais que ele poderia comer, tu sabes que ele já sabe e pergunta, tem amêndoas, tem amendoins, tem aveia, até fora de casa pergunta, e ele escolheu.
Eu incrédula a olhar para a caixa:
– Pois sim…
Ela a fulminar-me com os olhos, pum-pum:
– Mostrei-lhe os de trigo, os de trigo com chocolate, os de trigo e milho e ele pediu os quadradinhos de trilho.
Eu perdida de riso:
– Trilho! Ainda não diz os érres e já é um prodígio do neologismo sintético.
A minha irmã ainda a disparar com a metralhadora ocular:
– Não me enerves nem lhe encorajes os disparates!

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.

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4 respostas a Cereais? Qual o quê… pequeno almoço neotético!

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Põem o miúdo a fazer trabalho hermenêutico e depois admiram-se que não coma…

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Deliciosa estória num tempo de crianças com teclas nos dedos (perdoado me seja o lugar-comum).

  3. fernando canhão diz:

    Um amigo meu, nascido na cidade de Beja, à época supunha-se ele, militante de esquerda(?),viveu e com enorme satisfação – “a minha namorada xxxxx, além do trivial, sabe fazer rissóis e frita muito bem peixe, o que como sabes não é fácil, do resto nem te conto para não te dar ideias”, durante aproximadamente 2 anos e 5 meses, com uma namorada (a do trivial, rissóis, peixe frito e do resto) nascida em Viseu, que após a morte do seu pai, o da namorada nascida em Viseu, pai esse por ela muito estimado sabia-se(?), veio a revelar-se lésbica(?), saliento que a frase não é minha, e ele o meu amigo, nunca deu por ela, não fora a sua mãe, a mãe do meu amigo, o nascido na cidade de Beja, lhe o ter revelado, quando ela a mãe do meu amigo etc. etc., juntou os trapinhos(?), com a agora já ex namorada e lésbica(?), do meu amigo etc. etc., indo ambas viver para Sintra (Estefânia), numa Villa de excepcionais dimensões, não pelo tamanho dos quartos, mas sim pela harmonia dos espaços, comprada em 1949 pelo avô paterno do meu amigo alentejano, para encontros fortuitos com um jovem motociclista, proprietário de uma Matchless encarnada (ou talvez fosse uma Rudge ou outra Ariel) poderosa, oferecida pelo avô do meu amigo alentejano ao jovem motociclista, mas onde o cão “Diana”, pastor alemão, da ex namorada e lésbica(?), se iria dar muito mal, Sintra (Estefânia) tem muita humidade foi a razão alegada, deste modo o bicho foi deixado ao cuidado do meu amigo alentejano – A cada um o seu trilho, disse-me ele, o meu amigo alentejano, quando fomos passear o cão num terreno vago.

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