Coisas pequenas

A BELA E O MONSTRO
Há algum tempo atrás pus-me a conversar com o Amor – bem sei, bem sei, parece que não e tal, que não foi diálogo, foi monólogo. É mentira. Todos os diálogos fundamentais parecem monólogos. Eram conversas informais, quando calhava, no entanto, pouco distantes entre si para não perder o fio à meada. Aconteciam num daqueles cadernos pequeninos de capa dura, da papelaria Fernandes, feitos à mão, com tela na lombada e nos cantos, uma etiqueta ao centro, cadernos Flecha, e entre as notas que tomava e um rasto de poemas de outras pessoas que fui seguindo, as listas do supermercado, contas, obras primas do meu sobrinho disfarçadas de gatafunhos, e gatafunhos meus que depois tentava decifrar ou dar-lhes significado – ora, isto é uma password ou um número de telefone?

Porque falo nisto? Porque numa dessas conversas, através de Kavafis, recordei, e anotei, que só o amor, a maior barbárie, nos protege dos bárbaros. Depois, subterrâneas, as palavras fizeram o seu curso. Um dia percebi. Nada mais havia a dizer. O mundo dormia descansado nem que fosse por uma noite.

Miguel Esteves Cardoso arrancou um título do caraças quando escreveu, O Amor é Fodido. O amor é fodido. A verdade, verdadeira, é a que sabemos desde pequeninos e fechamos os ouvidos para não ver até a esquecermos: A Bela e o Monstro. Quando amamos e nos amam, somos mais, sofremos uma transformação: o melhor em nós exalta-se, expande-se e isso vê-se nas nossas acções, o monstro depura-se e faz-se bela. É um estado de graça. Se calhar é por isso que, quando as pessoas deixam de amar, acontecem coisas terríveis: somos outra vez bárbaros e, desamparados entre o medo e o espelho, crescemos em violência: matamos e morremos.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.

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15 respostas a Coisas pequenas

  1. “(…) Não perca Ítaca de vista /pois chegar lá é seu destino” Eugénia.
    Mais uma vez muito bom. Obrigada

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    O amor é como os sapatos, é o que nos faz andar sem deixar os pés a sangrar. Com o amor pode até andar-se sobre brasas.
    E pus-me a pensar no título do MEC – O amor é fodido é um título percebido com a ideia de que o amor é lixado, é complexo, é tramado, dá cabo de nós. Mas pode não ser: o amor é fodido, esse título, talvez queira dizer que as pessoas fodem o amor, que nós arranjamos maneira de dar cabo dele, de o escavacar.

    • curioso (boa zona) diz:

      ou, melhor ainda, o amor é uma mulher 😉

      mas se o Amor for a Caridade (e hoje foi tema) não há mal que lhe pegue: tudo suporta.

  3. Manuel Fonseca, essa do título está bem caçada!

  4. A caridade é muito bonita, mas pela parte que me toca, sem esses extremados “tudo suporta” que tenho pouca vocação para dar a outra face.

    • curioso (dar as duas) diz:

      pois… mas é a receita (do Amor, da Caridade). o resto são imitações, contrafações.

      com um risco: mata-morre 😉 e conta gia…

  5. Mafalda diz:

    Os pactos de egoístas parecem-me bem.

  6. nanovp diz:

    Coisas pequenas que se agigantam até ao infinito…porque o amor é fodido por quem não sabe amar…

  7. Maria do Céu Brojo diz:

    Coisas pequenas? Grandes, enormes, gigantes, diria eu.

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