Conchita

Jack Vettriano

Jack Vettriano

Na vida adulta de avoengos beirões e endinheirados, o pecado da luxúria falava espanhol. Melhor, encantava em espanhol, convencia por gemidos e obtinha através de beicinho e volúpia. Os casinos de Espinho, Póvoa de Varzim e da Figueira da Foz desfaziam fortunas em menos de Pai Nosso rezado com fervor e de joelhos pelas mães e «esposas» devotas e (des)enganadas frente a oratórios pejados de Santos e santinhos.

Os desvios do bom caminho de um ‘rapaz de família’ começavam nas repúblicas coimbrãs, aí prosseguiam até o enérgico «Basta!» do pai de família temendo exaurida a bolsa. Havia interlúdio no casamento, por amor ou «arranjado», que legitimava discretas e ocasionais derrapagens sendo preservada a ignorância da respetiva e ao jantar, servido a horas, ninguém faltasse. Um sossego!

Pelo fastio, a modorra instalava-se. Os negócios entediavam e os ímpetos da carne, outrora vigorosos, murchavam. Os parceiros de tertúlia afiançaram: _ “Do que precisas é ir à Conchita. Ficas outro!”

E ele ia. E ficava. E ganhava ânimo. Enrubescia as faces, o olhar coruscava, abria o riso e a vela dos negócios enfunava como se alísio soprasse. Tudo corria de feição até o homem transpor a corrente da lascívia e desaguar na paixão. Aí começava a pensar, gastar, comer e gemer em espanhol sob o imperioso domínio da horizontalidade das artes de nuestra hermana. A Conchita florescia, a fortuna do homem diminuía, o tabelião afiava as unhas, a Conchita abalava e as mágoas do abandono eram diluídas às mesas de jogo.

As devotas mães e «esposas» continuavam prostradas de joelhos. Lágrimas na face, olhar fremente dirigido aos Santos e santinhos. O oratório, esse, já tinha desaparecido.

 

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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8 respostas a Conchita

  1. Céu, se em vez da choradeira e da reza as supracitadas esposas fizessem um workshop com a Conchita, sempre poupavam as rótulas, na cera, não entupiam os ouvidos aos santos e o património ficava com o marido, feliz da vida, em casa, não lhe parece?

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Ora bem! O problema é que na época os pudores impediam “senhoras de bem” de tais «desmandos». Felizmente, parece que hoje as meninas já nascem com todos os workshops da Conchita. 🙂

  2. Dito de outro modo, tudo estará em certa paz se quem ajoelha sempre reze.

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Até porque ajoelhar e «rezar» pode ser momento prazenteiro. Dispensáveis Santos e santinhos.

  4. Pelo amor da Conchita:

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Não é que visto agora não me parece tão ridículo como na época! Coisas do tempo… Obrigada.

  5. nanovp diz:

    E havia sempre uma Lola não era?

    • Maria do Céu Brojo diz:

      As Lolas e as Carmencitas. Um paraíso de ‘salero’ que desfazia a cabeça das respeitáveis Marias. Como afirma a Eugénia, se em vez de acumularem ralações apostassem no arrojo, talvez houvesse empate entre umas e outras. Mas, à época, onde aprenderiam as Marias tais artes?

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