Da infelicidade e do rancor

Anton Chekhov

Ontem tive uma grande alegria: depois de horas à procura de um conto de Tchekhov escrevi um texto recordando a sua história, mas reconhecendo que não me lembrava do seu nome.

Mas, maravilhas da técnica, logo vários leitores deste brilhante blogue da nossa Tia me indicaram, com uma precisão suíça, que o conto se chama Inimigos. Um deles, o caríssimo José Magalhães, publicou um link (que está nos comentários àquele post) com o conto todo. Acontece que a minha história estava errada; afinal não era a mulher do médico que havia morrido, mas sim o seu filho, deixando-o num luto ainda mais profundo, que o nobre veio interromper.

Ora o que fiz eu? Li-o de novo! E tendo-o lido de novo, aconteceu-me algo que as grandes obras propiciam. Compreendi que o fulcro da história não está sobretudo na vacuidade e na arrogância de quem não entende o mal que provoca ao outro, como ontem escrevi, mas num outro ponto mais subtil – no rancor da infelicidade.

Os infelizes, como o médico, que perdera o filho, ou o nobre, cuja mulher fugira, estão frente-a-frente na cena final. Com a seca maestria dos russos geniais, Tchekhov diz-nos que ambos lançam insultos imerecidos um ao outro. E afirma acreditar que nunca nas suas vidas, mesmo em delírio, o médico Kirilov e o nobre Abogin teriam dito coisas tão injustas, cruéis e absurdas. E remata: o infeliz é egoísta, rancoroso, injusto, cruel e mais incapaz de compreender o outro do que os tolos. A infelicidade não une as pessoas, afasta-as; e mesmo quando se poderia imaginar que elas estariam unidas na similitude do seu desgosto, vemo-las cometer tantas injustiças e crueldades…

Esta revelação é como um raio! Ainda que mal-amanhado (porque apesar de andar lá por casa a tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra para a Relógio de Água eu não sei dela e traduzi um bocado à balda do inglês) aquele parágrafo é uma forma elaborada e bela de demonstrar como a infelicidade é singular. Curiosamente, é escrito pouco depois do fulgurante início que Tolstoi deu a Anna Karenina: Todas as famílias felizes são semelhantes; as infelizes são-no cada uma à sua maneira.

Ambas as frases remetem para os sentimentos injustos, cruéis e rancorosos provocados pela infelicidade. Para aquilo que no aforismo popular português se diz simplesmente “casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”.

Abogin e Kirilov é o que fazem. Não por falta de pão – por falta de uma vida que queiram viver.

E todo o país está assim um pouco.

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom.
Sem nunca me levar a sério – no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom
(e barato).

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16 respostas a Da infelicidade e do rancor

  1. monica diz:

    mais um, em cheio na ferida 😉

  2. Suas postagens sempre muito boas! Abraço.

  3. Lurdes Abreu diz:

    Conheço várias assim. Aprendi com a minha avó esta expressão sobre esse tipo, tão abundante, de pessoas “parece que todos lhe devem e ninguém lhes paga”. Extrapolando para o pais “querem que todos paguem quando apenas uma minoria, identificada, contribuiu para este estado de coisas”

  4. Luís Domingos diz:

    Muito certeiro.
    Já agora, vou pedir boleia:
    Um conto (novela?) japonês em que dois amigos ricos oferecem um serviço de chá a um coleccionador pobre e acaba com os dois ofertantes a serem convidados para um chá de despedida… Quem sabe quem escreveu? Como se chama? Onde está publicado?
    Desde já se agradece aos benfeitores.

  5. O ressentimento é um trágico motor da história

  6. nanovp diz:

    A infelicidade, tragédia para quem a tem, e todos já a sentimos, é perigosa para os outros. Não se recomenda portanto.

  7. A Bíblia sabe isso há muito. O primeiro crime cometido pela Humanidade, segundo ela, foi por puro ressentimento. De Caim contra Abel…

  8. Análise alternativa:

    Nenhum pai esquece a dor do filho amado. Nenhum! A dor, a mágoa, a saudade, são o último elo. Esquecer é trair e trair-se.

    A infelicidade gerará o que o caráter do atingido permitir. Uma grande dor relativiza as prioridades comuns, daí o desprendimento e o absurdo do conto. A aceitação da morte é a única via para a Liberdade. Quem sofre uma grande perda está lá muito perto.

    O sofredor, liberto dos travões da conveniência, reage às agressões; é autêntico, puro e talvez injusto.

    Nova dor o atingirá inapelávelmente; a dor da solidão. A solidão resultante da incapacidade de fazer perceber aos outros a dimensão da sua dor: a solidão resultante da descoberta de que essa dor é ignorada.

    O sofredor anseia por um olhar, um gesto solidário; apenas um sinal de reconhecimento dessa mágoa.

    O sofredor, torna-se arguto na descoberta dos afetos alheios e sensibiliza-se com eles. Humaniza-se, ainda que silenciosamente.

    Perante causa injusta ou a sua própria culpa, o sofredor pode tornar-se intolerante e rancoroso, constituindo-se como fonte de sofrimento alheio. É aqui que convergimos.

    O conto relativisa o amor paternal enfatisando o materialismo. Um absurdo panfletário atenuado pelo desprezo materialista da esposa, essencialmente carente de afeto.

    Quando muito, mostra, o conto, a relativização circunstancial dos valores do indivíduo.

    (com sua licença publico na minha página)

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