David e a cabeça de Golias

Corria o ano de 1609. Caravaggio teria 38 anos. Esta foi uma das suas obras finais. Ainda hoje inspira poemas fratricidas.

caravaggiodavid

Nada é real. Um rapaz, túnica presa de um só ombro, tem uma tranquila espada na mão direita enquanto a esquerda segura pelos cabelos uma cabeça de homem, apenas uma surpreendida cabeça de homem, sem corpo. Poderia ser de uma violência inaudita – se fosse real. Mas nada é real As figuras saem do negro, um negro saturado. Não é um negro de noite, é um negro inventado por olhos iníquos, de bas-fond. O negro donde emergem David e a cabeça de Golias – tão liso, tão cego – só pode ser um negro completamente pintado. Houve quem dissesse que pintar assim era destruir a pintura.

E, no entanto, David, a espada e a cabeça de Golias vêem-se tão bem, tão definitiva e vivamente recortados. Basta olharmos um segundo para sabermos que não há nenhuma forma física da luz os iluminar desta maneira. Nem é preciso. Esta é uma pintura anterior ao fiat lux do Génesis: a luz não vem, não tem de vir de lado nenhum: a luz é o que, por pura ilusão, pensamos ser os corpos. O braço, o torso, o linho branco da túnica de David, David ele mesmo, o fio da espada, são luz. Luz de dentro, não luz de fora. Teatro negro, teatro de luz. Sem uma única sombra. Só pinta um negro destes quem já matou com as próprias mãos.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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11 respostas a David e a cabeça de Golias

  1. É bonita essa ideia da luminescência e faz sentido em meio a tanto tão preto. Acho que vou levar isto, Manuel Fonseca, para um dia quando… Sim?

  2. a.riès diz:

    Nao digo o que me passa quando olho para o David. Teve que.

  3. Como consumidor de cultura americana convém que estejas saudável:

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Taxi, não quero ser saudável, quero é ser americano. Tanto como tu seres poeta beat, ah, ah, ah.

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    “a luz é o que, por pura ilu­são, pen­sa­mos ser os cor­pos”. Tão verdade que dói! Os humanos almejam a perenidade. Outra ilusão que dói.

  5. nanovp diz:

    Que arrepio de expressão feita luz! Ter matado pode ter ajudado, mas o génio estava lá antes da morte…

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