Decálogo

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Precisamos das Leis. De voltar a uma tábua de leis. De passagem por um antiquário do Médio Oriente, encontrei um díptico já com o texto meio apagado. Decidi reconstitui-lo, com pleno e integral respeito pela época e pelos costumes. Uma compulsiva vontade de ser original levou-me a chamar-lhe “O Decálogo”. Leio-o:

  1. Fizeste-Me à tua imagem e semelhança: agora, não terás outros em desafio a Mim. Eu sou Iavé, o teu Deus. Fiz-te sair – ó mil cuidados, mil trabalhos – da terra do Egipto, da casa dos escravos. Eu sou o teu Deus.
  2. Não contemplarás ídolos de ouro ou bronze, não farás imagem esculpida, nem outra com semelhança alguma do que há em cima, lá no mais alto céu, nem lá em baixo na terra, nem nas águas que são o fundo dessa terra. Destruirás o Discóbulo ou múltiplos Caravaggios e também Picasso e Rothko – ao contrário do que pensas são ainda imitação e semelhança. Não os adorarás, nem lhes prestará culto, porque Eu, Iavé, teu Deus, sou o Deus de ciúme. Castigo o erro e iniquidade dos pais nos filhos até à terceira geração. E abater-se-á a minha fúria sobre a quarta geração dos que me odeiam. Mas uso de benevolência – que não confundirás com colo, self-indulgement ou lascívia – até à milésima geração dos que me amam e que guardam os meus poéticos ditames.
  3. Não tomarás o nome de Iavé, teu Deus, em vão, pois Iavé não considera impune aquele que toma o seu nome entre dois cocktails e um canapé. Como ao austríaco Adolph e ao georgiano Vissarionovitch, a futilidade repugna-Me.
  4. Lembra-te do dia do Sábado. Santifica-o. Seis dias trabalharás. Por tua opção, conta e risco podes trabalhar só cinco, mas não se abra a tua boca se um exército de créditos mal parados e o batalhão da dívida pública baterem à porta da tua casa. O sétimo dia é o shab.báth de Iavé, teu Deus. Nesse dia não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho ou filha, nem o teu servo ou serva, nem o teu animal, nem o estrangeiro que está dentro das tuas portas – reservo para decreto posterior as obrigações do teu ou tua amante. Porque em seis dias fez Iavé o céu e a terra, o mar e tudo o que neles há, e ao sétimo dia descansou.
  5. Esquece Freud: honra a teu pai e a tua mãe, a fim de que os teus dias se prolonguem sobre o solo que Iavé, teu Deus, te dá.
  6. Não assassinarás, a não ser para maior grandeza de Shakespeare ou para dar um gosto e alguns vinténs a Agatha Christie.
  7. Não cometerás adultério. Este é o nosso pacto de denegação. Assim, quando o faças – e, em verdade, em verdade te digo, repetidamente o farás – teus amores serão melhores do que o vinho, um cacho de cipro florido entre as vinhas de Engadi.
  8. Não furtarás. Com os primogénitos do clã financeiro, os chefes das tribos de ratings e seus descendentes, os escribas do direito financeiro, serei manso em vida porque eles não entrarão no reino dos céus.
  9. Não levantarás falso testemunho contra teu próximo, ex-privilégio reservado à comunicação social com que agora se locupletam as redes sociais: os seus animais poderão pastar no pasto do vizinho, o seu boi marrar noutro boi e não lhes será exigido resgate.
  10. Com ou sem hipoteca, não cobiçarás a casa do teu próximo, nem a sua jovem mulher, nem o seu escravo ou escrava, nem o seu touro ou jumento, nem mesmo o vermelhíssimo Ferrari ou qualquer outra coisa vermelha que ele, tão próximo e tão distante, possua.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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12 respostas a Decálogo

  1. teresa Font diz:

    Livra! 🙂

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Ó Teresa, olhe que isto veio mesmo do Oriente Médio. É que não acrescentei uma palavra, foi só traduzir

  2. Epá! nem uma palavra sobre o Lincoln? e tu que gostas de ser abusado:

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Taxi, o Derrida é um artista. Bem bronzeado, aliás. E já agora, would you mindo to elaborate justl a little bit on your idea?

  3. Henrique Monteiro diz:

    Olhe lá, o Mestre Divino, um gosto e seis vinténs não se dá a uma senhora, sobretudo quando é a tradução, mal feita, de The Moon and six pences do Dr. Somerset Maugham! Ouviu? Que raio de deus menos culto. LOL

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    O que é que queres, Henrique, já me cheirava que jogar com o título do Maugham e chamar à pedra a Agatha ia dar mau resultado, mas o Maugham não era homem para matar ninguém. E a Agatha era senhora em tudo, menos a encher a sala de cadáveres…

  5. Já me ri tanto! Isto está giro que se farta e perverso qb. E, convenhamos, há ali uma teoria da arte que não é para pagodes: havia o senhor autor de escrever um postinho sobre aquelas imitação e semelhança.

    • Com uma condição, a Eugénia começa. Escreva lá o primeiro textinho. Dê o mote, Vai ver que aparece o Norton, o Bidarra, a nossa Ivone. E eu também, está claro… Vamos lá dar acabo da arte contemporânea.

  6. Vergílio Frutuoso diz:

    Falta de modéstia assustadora. Já não bastava escrever tão bem de sua lavra, para agora nos vir mostrar como se deve traduzir a linguagem de antigos prescientes. Inveja e gozo, é o que senti ao ler. Apesar disso, parece-me que já li algo semelhante e com o mesmo título: uma cena que se passou com esse mesmo Iavé e um tal de Moisés. Não terá havido por aí uma shavanice, ou estou enganado ?

  7. nanovp diz:

    Seguundo o Mel Brooks haviam três tábuas Manuel, totalizando 15 leis, o descuido levou a que uma se partisse….não quer continuar com mais cinco?

  8. Maria do Céu Brojo diz:

    Faço coro com o Bernardo. O que me ri, deuses!

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