Deste lado

A luz verde por cima da porta permitia a entrada. A porta fechada com sinal vermelho separava o mundo como o conhecia do mundo que a esperava. Nunca tivera medo de abrir portas mas era a primeira vez que o fazia por meio de uma intermitência luminosa.

Maria sabia que a luz verde dava-lhe entrada para uma nova dimensão, sem hipótese de retorno ao presente que já conhecia.

Lembrou-se de todas as vezes que desdobrou o papel escrito a esferográfica que guardara. A letra caprichosa desenhada a rigor tinha a morada e a frase: “O depois aqui, sem que o seu agora se torne amanha!”

A luz vermelha permanecia acesa sem alterações. Maria fechou os olhos e deixou-se levar pelo adormecimento dos músculos que deixaram o corpo perder peso.

Ouviu-se um pequeno click. A luz virou verde e uma pequena figura assomou à porta. Espreitou e agitou um pequeno sino de metal dourado.

Maria de cabeça caída sobre o peito respirava tranquilamente e expirava o cansaço que carregava.

– Maria! Disse a voz baixinho e agitou de novo o pequeno sino.

A respiração agora mais profunda, embalava o corpo e cobria a entrega sem reservas de Maria

Ouviu-se de novo um click e a luz virou vermelha. A pequena figura moveu-se e fechou atrás de si a porta.

Maria estremeceu e acordou estremunhada. Olhou para o relógio e percebeu que tinham passado horas. Estava em casa. Tossiu e Popoff apareceu-lhe à porta a abanar a cauda.

Na mesinha de cabeceira o cocktail de comprimidos que tinha reunido para aquele dia especial continuava colorido junto ao copo de vodka puro.

Maria voltou a tossir e fechou os olhos. Não percebia porque não lhe saia da cabeça o som de um pequeno sino, mas sabia que estava na hora de dar ração ao cão.

 

 

Sobre Rita Roquette de Vasconcellos

Apertava com molas da roupa, papel grosso ao quadro da bicicleta encarnada. Ouvia-se troc-troc-troc e imaginava-me a guiar uma mobylette a pedais enquanto as molas a passar nos aros não saltassem. Era feliz a subir às árvores, a brincar aos índios e cowboys e a ler os 5 e os 7 da Enid Blyton. Cresci a preferir desenhar a construir palavras porque... escrever é triste.
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9 respostas a Deste lado

  1. Penso em quantas portas com a luz verde não terão passado despercebidas em nossa vida…

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Eu, a aventureira com pingos de sensatez, jamais tive medo de abrir portas. Até um dia, talvez o pior da minha vida (va de retro Satanás!). 🙂

  3. Como é que se abrem portas de que não se tenha a chave?

  4. nanovp diz:

    Com algum vodka no sangue as portas tendem a fechar-se, e sem luzes…

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