Do namoro das cores ao S. Valentim no futebol

Maria Brojo

Maria Brojo

No alvor da paixão, dizem-na rubra. Em «andamento», encarnada. Mais fácil assim – cor primária na radiação visível emanada do Sol e constante no ‘Disco de Newton’. Girando-o com rapidez, da mistura das cores que o constituem surge tom acinzentado; branco se a proporção real fora respeitada.

Autor que não foi possível identificar

Autor que não foi possível identificar

Newton, o génio em cuja cabeça terá caído a maçã, no impacto, em vez de ouvir campainhas engendrou a “Teoria da Gravidade”. Recomposto, foi além: garantiu ser a luz carreira de partículas enviadas por corpo luminoso – “Teoria Corpuscular da Luz”. Huygens, opositor de Newton no que ao entendimento da luz concerne, afirmava ser a luz onda semelhante a onda marítima – “Teoria Ondulatória”. Pior: se por um lado a reflexão(1) e a refração(2) das luzes (no vazio, velocidade de 3,0×108 m.s-1) os corpúsculos explicavam, já à difração, espalhamento da luz ao atravessar obstáculo com fenda de largura próxima da distância entre altos e baixos vibratórios da radiação, somente a teoria ondulatória dava resposta. Uma «salsada» mágica.

Das cores enamoradas que a luz branca compõem, três as primárias – azul, verde e encarnado. Esquema para simplificar.

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Se um corpo absorver apenas a cor da paixão e for iluminada com luz branca, será observada a cor complementar. Qual? Sugestão: tape com a mão o encarnado e veja que da sobreposição do verde e do azul refletidos surge o azul ciano. “Azul cueca” dizem línguas perversas. Tapando o azul pela exclusiva absorção desta luz por um objeto, a cor oposta é soma de vermelho e verde: amarelo. Assim o veremos. Ao mesmo princípio obedece a folhagem da árvore que abriga Newton – entrando a luz branca em ação, é absorvida apenas a mistura de encarnado e azul e refletido o verde. De tudo concluído não ser a cor característica dos corpos mas dependente da luz que os ilumina.

Mario Zanini

Mario Zanini

Seja configurado o que se passa no futebol. Suponhamos de uma cor só o vestuário das equipas. O encarnado do Benfica, sendo pura a cor, fica negro se for iluminado com radiação azul ciano. O mesmo aconteceria ao FCP se as luzes do estádio falharem e apenas de sobra as verdes – jogadores vestidos de preto. Com o Sporting, sendo pura e únicas as vermelhas na iluminação o equipamento é visto como preto. Iluminando apenas com luz magenta um desafio Porto/Benfica, preto o relvado por absorver toda a luz, de púrpura os jogadores. Talvez Santo Valentim explique como se entenderiam equipas, árbitros e adeptos.

Hoje, saindo com o namorado de ontem ou de sempre, cuidado com o namoro das cores. Se vestir tecido fino encarnado e, para aspeto virginal fruído mais tarde, lingerie branca, sendo iluminada com luz vermelha, é vista de negro com rubras intimidades resplandecentes. Sendo essa a intenção, será o must da festa noturna. Atributos outros dispensam ordem de chamada.

(1) http://www.algosobre.com.br/fisica/refracao-da-luz.html

(2)http://www.sofisica.com.br/conteudos/Otica/Reflexaodaluz/reflexao.php

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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12 respostas a Do namoro das cores ao S. Valentim no futebol

  1. monica diz:

    belas “curvas da vida”

  2. E do namoro a preto e branco:

  3. Pelos deuses, Céu, com tanta informação a considerar mais vale apagar a luz!

  4. Que conjugações interessantes, Céu.
    E bela ligação entre pinturas e texto.
    (mas agora que tão bem explicou a matemática das cores, acho que começo a perceber melhor porque é que as contas dos amores saem tantas vezes furadas…)

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Obrigada, Teresa. A sinestesia que tantos experimentam, eu por exemplo, ainda piora este e outros namoros. Sabe que muitas obras de arte, seja qual for a respetiva área, foram concebidas por autores sinestésicos? Daqui também a pegada histórica que deixam para a posteridade.

  5. Maria, só agora li. Se tivesse visto antes esta fantásrica explicação, já não tinha feito o post do Carvaggio. Estão explicados os fabuloso negros dele…

    • Maria do Céu Brojo diz:

      O seu belíssimo texto é luminoso. Ainda assim, acrescento: na pintura, o negro é considerado facilidade. Felizmente, muitos pintores talentosos sabem conjugá-lo para realçar o fundamental. É o caso de Carvaggio.

  6. nanovp diz:

    O melhor será amar de olhos fechados, com o ónus de perder pormenores deliciosamente coloridos…

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Prefiro amar olhando. Porém, reconheço fechar os olhos quando momentos imperiosos pedem.

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