Doce Lar

Entrou em casa tarde, como de costume atirou as chaves para cima da mesa e acendeu a luz. Ainda ouviu as chaves caírem no chão quando a lâmpada do tecto do hall lhe mostrou a casa vazia.

Teve vontade de sair e voltar a entrar. Se era um pesadelo, queria acordar depressa. Olhou em volta. A mesa das chaves, o espelho da entrada, as fotografias dos filhos… nada!

Abriu a porta estreita do armário da entrada e o saco de golfe, as raquetes de ténis, os jogos de mesa… nada!

Correu em direcção ao quarto, abriu a porta e… nada!

A sala… nada!

O escritório… nada!

Voltou atrás, apanhou a chave e desceu à garagem. A carrinha Mercedes, a caixa de ferramentas, as pranchas de surf… nada!

Subiu os degraus e com a chave do cofre na mão inseriu o código secreto. O coração parecia querer sair-lhe pela boca. Aberta a porta, um envelope fechado a linha de coser.

Com as mãos a tremer de raiva, desfez o perverso ponto de pé de flor e leu: “Fui!”

 

Sobre Rita Roquette de Vasconcellos

Apertava com molas da roupa, papel grosso ao quadro da bicicleta encarnada. Ouvia-se troc-troc-troc e imaginava-me a guiar uma mobylette a pedais enquanto as molas a passar nos aros não saltassem. Era feliz a subir às árvores, a brincar aos índios e cowboys e a ler os 5 e os 7 da Enid Blyton. Cresci a preferir desenhar a construir palavras porque... escrever é triste.
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20 respostas a Doce Lar

  1. Henrique Monteiro diz:

    As melhores saídas são curtas. Como as piadas

  2. Julieta do Romeu diz:

    Curta e sem gastar “cuspo” como gosto tanto.

  3. CeC diz:

    Admito que lendo, inicialmente, o título, dei por mim a pensar: “Doce lar, é voltar de uma viagem“. Nunca se torna tão acolhedor como quando se perde da nossa inevitável rotina.

  4. Diogo Leote diz:

    Curioso: li o texto dando de barato que era um ELE a entrar em casa e uma ELA que dela tinha saído. Li outra vez e percebi que era mais a minha imaginação a funcionar, porque não se especifica quem é quem no texto. Nem sequer se especifica se há um ele e uma ela e se não haverá antes dois eles ou duas elas. Não sei se foi ou não propositado mas é esta, a ficção do fill in the blanks, a narrativa paradigmática do séc. XXI.

  5. seja ela+ele ou ele+ele quiça até ela+ela tinham uma existencia confortável – ou então viviam “acima das suas possibilidades” 😉 eheheheheh

  6. Maria diz:

    Bem… se os homens bordarem fica-se na dúvida…

  7. monica diz:

    o ponto pé de flor traíu o sexo
    quem se dá ao trabalho de “fui” e levar os móveis e a tralha toda, não vai longe ;)))) ó Rita hmm isso ainda é a continuação do sonho 😉

  8. nanovp diz:

    Podia ser a casa ao lado….idêntica…?

  9. Maria do Céu Brojo diz:

    Andei tão entretida com spins e magnetes, que atrasei leituras aqui. Quanto ao texto, pois é! Em comentário no seu ‘Museu das Curtas’ explico o ‘pois é’.

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