Duas chávenas de chocolate quente

 

Cruzeiro Seixas

Cruzeiro Seixas

Domingo finda ou inicia a semana segundo os credos vários que fidelizam clientes. Seja útil ou inútil do dia a noite, ele caminha curvado. Vigia o estaleiro das construções em curso. Mal nascida a madrugada, leio-lhe o recorte da silhueta no contra luz dos holofotes que encimam as gruas. Pelo escuro do que devia ser manhã, fosse outro o fuso ou a hora oficial, prossegue, cabisbaixo, a vigilância.

Vento torce plátanos despidos. Adivinho o frio que lhe enregela pensamentos e rosto. Por só lhe conhecer a silhueta obscura, ignoro o tom da pele que, antes da roupa, o veste. Emigrante de primeira ou segunda geração é quase jura – aos nacionais é, normalmente, atribuída jornada de trabalho soalheira.

Findo serão de letras, óleos e conversa, repetitivamente apetece descer à rua e encetar fala. Talvez duas chávenas de chocolate quente na mão. Talvez café para ele e chá verde para mim. Como receberia o vulto gesto tão inopinado? Talvez nem fale português. Talvez nos entendamos na língua solidária de humanos que um do outro querem saber. Talvez lhe pareça extraordinária a figura envolta num polar com calças de atilhos a espreitar. Talvez rejeite o gesto e a surpreendente proximidade o confunda. Por isso, o olho de cima. Por isso, seguro entre as mãos o café fumegante da alvorada desejando-lhe, sem que ele o saiba, bom dia!

(Texto meu em arquivo pessoal)

“Como posso saber se o que vejo desta janela é de fato a paisagem que vejo?

Há muito, finjo acreditar em coisas que o homem teima em trocar pela fragilidade do vidro!

Deus existe?

Deus não existe?

Ambas as coisas são verdade ao mesmo tempo.

Pergunto-me e pergunto-lhe se a verdade existe mais que um milésimo de segundo.

Nada é eterno.

A eternidade passa depressa como a ciência.”

Fabricio Carpinejar

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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12 respostas a Duas chávenas de chocolate quente

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Mas onde, Maria, é que hoje se consegue beber uma boa chávená de chocolate quente!

    • Quer a receita? Dou-lha.

      1. Em leite frio dissolva perfeitamente uma colherzinha de farinha Maizena – pouca, não pode sentir-se sabor a farinha, é só para engrossar.

      2. Leve o leite ao lume com uma casca de limão e adicione o chocolate que deve ter uma elevada percentagem de cacau e ser de boa qualidade, pode, se quiser, levá-lo a banho maria antes ou, tanto faz, deitá-lo partidinho ou em pó – vai tudo dar ao mesmo. Mexa sempre durante todo o processo.

      3. Acrescente uma colher de baunilha e o açúcar. Mexa, não se esqueça, não se desgrace.

      4. Quando a espessura estiver próxima da pretendida, retire do lume – ainda vai engrossar depois de o retirar.

      5. Enjoy.

      Tenho outra muito boa mas não é deste belo e tradicional chocolate, é do chocolate vienense, com café.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Estimado Manuel: o meu chocolate quente não costuma ter defeito.

  2. Mario Soares diz:

    Gostei da descrição do guardador.(e do naco de prosa que o inclui)….:)
    Em geito de agradecimento e com a devida e merecida vénia aqui vai:

    Escrever é Triste Escrever é triste. Impede a conjugação de tantos outros verbos. Os dedos sobre o teclado, as letras se reunindo com maior ou menor velocidade, mas com igual indiferença pelo que vão dizendo, enquanto lá fora a vida estoura não só em bombas como também em dádivas de toda natureza, inclusive a simples claridade da hora, vedada a você, que está de olho na maquininha. O mundo deixa de ser realidade quente para se reduzir a marginália, puré de palavras, reflexos no espelho (infiel) do dicionário.
    O que você perde em viver, escrevinhando sobre a vida. Não apenas o sol, mas tudo que ele ilumina. Tudo que se faz sem você, porque com você não é possível contar. Você esperando que os outros vivam, para depois comentá-los com a maior cara-de-pau (“com isenção de largo espectro”, como diria a bula, se seus escritos fossem produtos medicinais). Selecionando os retalhos de vida dos outros, para objeto de sua divagação descompromissada. Sereno. Superior. Divino. Sim, como se fosse deus, rei proprietário do universo, que escolhe para o seu jantar de notícias um terremoto, uma revolução, um adultério grego — às vezes nem isso, porque no painel imenso você escolhe só um besouro em campanha para verrumar a madeira. Sim, senhor, que importância a sua: sentado aí, camisa aberta, sandálias, ar condicionado, cafezinho, dando sua opinião sobre a angústia, a revolta, o ridículo, a maluquice dos homens. Esquecido de que é um deles.
    Ah, você participa com palavras? Sua escrita — por hipótese — transforma a cara das coisas, há capítulos da História devidos à sua maneira de ajuntar substantivos, adjetivos, verbos? Mas foram os outros, crédulos, sugestionáveis, que fizeram o acontecimento. Isso de escrever «O Capital» é uma coisa, derrubar as estruturas, na raça, é outra. E nem sequer você escreveu «O Capital». Não é todos os dias que se mete uma ideia na cabeça do próximo, por via gramatical. E a regra situa no mesmo saco escrever e abster-se. Vazio, antes e depois da operação.

    Claro, você aprovou as valentes ações dos outros, sem se dar ao incómodo de praticá-las. Desaprovou as ações nefandas, e dispensou-se de corrigir-lhes os efeitos. Assim é fácil manter a consciência limpa. Eu queria ver sua consciência faiscando de limpeza é na ação, que costuma sujar os dedos e mais alguma coisa. Ao passo que, em sua protegida pessoa, eles apenas se tisnam quando é hora de mudar a fita no carretel.
    E então vem o tédio. De Senhor dos Assuntos, passar a espectador enfastiado do espetáculo. Tantos fatos simultâneos e entrechocantes, o absurdo promovido a regra de jogo, excesso de vibração, dificuldade em abranger a cena com o simples pai de olhos e uma fatigada atenção. Tudo se repete na linha do imprevisto, pois ao imprevisto sucede outro, num mecanismo de monotonia… explosiva. Na hora ingrata de escrever, como optar entre as variedades de insólito? E que dizer, que não seja invalidado pelo acontecimento de logo mais, ou de agora mesmo? Que sentir ou ruminar, se não nos concedem tempo para isto entre dois acontecimentos que desabam como meteoritos sobre a mesa? Nem sequer você pode lamentar-se pela incomodidade profissional. Não é redator de boletim político, não é comentarista internacional, colunista especializado, não precisa esgotar os temas, ver mais longe do que o comum, manter-se afiado como a boa peixeira pernambucana. Você é o marginal ameno, sem responsabilidade na instrução ou orientação do público, não há razão para aborrecer-se com os fatos e a leve obrigação de confeitá-los ou temperá-los à sua maneira. Que é isso, rapaz. Entretanto, aí está você, casmurro e indisposto para a tarefa de encher o papel de sinaizinhos pretos. Concluiu que não há assunto, quer dizer: que não há para você, porque ao assunto deve corresponder certo número de sinaizinhos, e você não sabe ir além disso, não corta de verdade a barriga da vida, não revolve os intestinos da vida, fica em sua cadeira, assuntando, assuntando…

    Carlos Drummind de Andrade, in “O Poder Ultrajovem'”

  3. curioso (sombras) diz:

    falta aqui qualquer coisa… nota-se a remoção 😉

    • Maria do Céu Brojo diz:

      O texto sofreu várias emendas como é natural. Ajudar-me-ia se localizasse a frase onde “lé não dá com cré”. Como sabe bem demais, por vezes tenho destas. Obrigada.

      • curioso (texto meu) diz:

        estava a reparar nos comentários e na propriedade do texto.

        mas para corresponder ao agradecimento noto que devia ser
        ‘na contraluz’ 😉

        • Maria do Céu Brojo diz:

          Talvez. “Na contraluz”, milagres acontecem. Então na pintura, ‘é um ver se te avias’.

  4. nanovp diz:

    Uma chávena de café ou de chocolate quente resolvem muita coisa…

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Numa dor de cabeça, o café é miraculoso. O chocolate quente aconchega. Também revela préstimo noutras ocasiões estando o chocolate morno.

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