E agora, algo completamente diferente (*)

Hans Holbein. Desiderius Erasmus

Hans Holbein. Desiderius Erasmus

Estão (…) definidas as duas grandes correntes fundamentais e eternas de toda a politica universal: a politica prática e a idealista, a diplomática e a ética, a politica de Estado e a da Humanidade. Para Erasmo que vê o universo como filósofo e  que partilha a visão de Aristóteles, de Platão, e de São Tomás de Aquino, a politica só pode ser moral: o príncipe, o chefe de Estado tem de ser antes de mais o servidor do divino, o expoente da ideias morais. Aos olhos de Maquiavel, diplomata de ofício, para quem a vida das chancelarias não tem segredos, a politica é uma ciência amoral e independente que tem tão pouca relação com a ética como com a astronomia ou a geometria.

(…) Bem entendido, a concepção de Maquiavel que glorifica o princípio da força soube impor-se na história. Não foi a política humanista, flexível, conciliadora, não foi o Erasmismo mas a politica da violência fiel ao espírito do Príncipe que determinou o curso dramático da história europeia. (…) Foi o espírito da discórdia e não o da concórdia que forneceu aos povos as energias mais apaixonadas. O pensamento de Erasmo não jogou qualquer papel na história nem exerceu qualquer influência sensível no destino da Europa: o grande sonho dos humanistas (…) permaneceu uma utopia nunca realizada e talvez nunca realizável no domínio dos factos.”

Quem traça este quadro cruelmente realista e deprimente da história Europeia, traduzido às três pancadas por moi-même, é o meu amigo e mestre Stefan Zweig na sua notável biografia sobre Erasmo de Roterdão.  E fá-lo – é sintomático – em 1935. Em plena crise económica. Em pleno advento dos totalitarismos na Europa. A meio caminho entre uma guerra que dilacerou a velha Europa e destruiu o seu Mundo de Ontem (em que ninguém acreditava em guerras, em revoluções e subversões) e um dos conflitos mais desumanizados e mais desumanizadores que a história haveria de conhecer. Num tempo simultaneamente tão longe e tão perto do nosso Mundo de Hoje. Num tempo em que a esperança parecia para sempre arredada do léxico dos europeus.

Mas Zweig, suicida que ainda há de ser, não é, paradoxalmente, homem para abandoná-la completamente. E, coisa verdadeiramente extraordinária, no meio da escuridão, parece conseguir antever o breve triunfo do ideal humanista que haveria de ser a União.

“No domínio do espírito há lugar para todas as oposições: mesmo aquilo que nunca triunfa na realidade, conserva aí um dinamismo eficaz e são precisamente os sonhos que nunca são realizados que se revelam mais invencíveis. (…) Só os  ideais nunca realizados, e que assim permaneceram puros, continuam a fornecer a cada geração um elemento de progresso moral, só esses ideais são eternos.”

Perdoem-me esta preguiça que mal consegue esconder-se atrás de tão longas citações. Mas hão de convir que em tempos sombrios como estes em que voltámos a viver, Zweig e Erasmo, europeístas esperançosos, valem bem uma missa.

(*) Antes que a tia me apanhe. Este Está escrito há de aparecer, com ligeiras modificações numa Visão que ainda não é. Servir a dois mestre tem destas coisas. Um homem não arranja tempo para tudo.

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.

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11 respostas a E agora, algo completamente diferente (*)

  1. Zweig e Erasmo são tipos perigosos. Querem que tudo seja inteligível. Ora, este é o mundo da doxa: tem pernas, mãos e bocas sensíveis. Roçam-se umas pelas outras e isso provoca desiquilíbrios, porque o homo politicus também é, para usar recente expressão eugeniana, homo humanus. Qiase que aposto quje Maquiavel era melhor amante do que os dois expoentes idealistas.

  2. Henrique Monteiro diz:

    Servir dois mestres? Ou servir dois amos?

    • Henrique Monteiro diz:

      Agoa a sério, nunca li esse livro se Zweig. Mas as biografias de Balzac, Dickens e Dostoiewsky (um livro) Casanova, Stendhal e Tolstoi (outro livro) são sublimes. Para não falar do Amok e de uma coisa sobre o Brasil e o modo de ser brasileiro, magnifica. Ele morria pelo Brasil (piada negra)

    • Pedro Norton diz:

      mestre mesmo. é assim que trato a tia.

  3. Diogo Leote diz:

    Depois deste texto e do comentário do Henrique, eu que já vou no segundo Zweig desde o verão (o Mundo de Ontem e o José Fouché), está visto a que leituras me vou continuar a dedicar nos próximos meses.

  4. Panurgo diz:

    Há aqui qualquer coisa que não bate certo; o que Maquiavel queria, esquecendo aquela tontice de superar Aristóteles, era unificar a Itália e não sei quê. Exagera-se muito a importância da filosofia política – cento e tal anos antes de Maquiavel, o rei Filipe espetou duas lambadas na cara do Bonifácio (o Príncipe é isto). Dois mil anos antes já Trasíbulo tinha explicado como é que isto se fazia. Ora, se se parte daqui, só se pode olhar a União Europeia com um horror que Deus nos livre. É que nem Maquiavel ou Napoleão (caramba, nem o tio Adolfo) imaginaram uma coisa destas: os povos que nem rebanhos a abdicarem sem um pio do território, da nacionalidade, da moeda, dos costumes… nem em sonhos, quanto mais em clarões nas trevas.

  5. Depois de subscrever em absoluto o Panurgo, lembro uma bela duma biografia do Zweig sobre Fernão de Magalhães a partir dos diários de Pigafeta. E de ‘Vinte e quatro horas da vida…».
    Gosto muito e não conheço este.

  6. Pedro Norton diz:

    Olhe que não, dr. Olhe que não. Pois se o Zweig morreu no leito nupcial e ainda matou a mulher por cima…

  7. Pedro Norton diz:

    Panurgo, não nos vamos zangar por isso mas, na parte que me toca, que se lixe a moeda e a bandeira se puder ter mais 60 anos de paz.

  8. Pedro Norton diz:

    Tenho esse 24horas debaixo de olho caro antónio.

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