Gracias a La Vida

Não sei se foi este azul puro celeste que substituiu os dias cinzentos e chuvosos, não sei se foi a memória do calor do café “Tropical”, no meio da cidade dos anjos, onde se falava espanhol; ou se terá sido mesmo a lembrança desse fim de tarde, tão longe de casa, quando Mercedes Sosa, grande como uma deusa, cantou para a multidão que lhe respondia uníssona. Nesse dia senti-me em parte latino, chileno ou argentino como na música que nos tocava por dentro.

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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19 respostas a Gracias a La Vida

  1. Henrique Monteiro diz:

    OMG, Bernardo, essas é das que me fazem llorar. Perfecto distingo el negro del blanco y en alto cielo, su fondo estrellado….

  2. “Nesse dia senti-me em parte latino, chi­leno ou argen­tino como na música que nos tocava por dentro.”

    Que é o que quase todos somos e tendemos esquecer. São artistas e temas como este que apelam à nossa mais profunda e rejeitada identidade.

  3. Pedro Norton diz:

    foi-me apresentada, numa noite fria de Boston, por uma querida amiga Argentina e nunca mais a esqueci. Acho que até a postei, na outra casa que era também nossa quando morreu.
    ps: Lafayette, poupe-me a graçolas escusadas sobre amigas argentinas.

  4. Gostei tanto de a ter ouvido que, quando ela morreu, fiquei triste, fiz-lhe um poema – obviamente não lhe faz justiça. Já o postei, mas postarei outra vez por causa deste seu post. Mais logo, agora vim de corrida. Merci.

  5. Rita V diz:

    Gracias Bernardo

  6. Bernardo, a multidão que canta é o meu sonho. Arrasa sempre.

  7. Maria do Céu Brojo diz:

    Triste esta alegre memória escrita com alma tanta.

  8. Vasco diz:

    Preenche-nos a alma – perfeito Obrigado

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