Havia um Tempo

Eduardo Viana, Paisagem       eduardo viana, paisagem

Havia um tempo, esvaído como a água do orvalho que rodopiava pelas folhas gordas e caía em espessas gotas na estrada de pedra lisa, cinzenta, onde as salamandras, fugidas dos buracos negros, espreitavam serenas as pequenas carroças que chiavam na subida, puxadas por bois, o pelo molhado da húmida noite que agora o dia começava a conquistar.

Leonardo olhava da janela o pequeno fio do vazio que se rasgava, entre as copas das árvores e o horizonte imaginado, e esperava. Tinha esperado toda uma vida, já sem conta tinham ido meses,  anos, as estacões, que passavam com o vento.

Anos antes, corria desalmadamente, fugindo, pelo campo abaixo, agarrado ao cinto de couro do João Safado, entre os espinhos das amoreiras que cresciam pelo vinhedo a dentro, e cobriam muros de pedra que desapareciam sobre as folhas verdes e as manchas escuras do fruto já maduro. Eram tardes de fogo sobre o vale escuro, os pássaros que se despediam no anoitecer, a luz a cair, resgatada em sombra nos panos lisos da casa alta, sobre o campo, isolada.

Só mais tarde, muito mais tarde é que veio a tristeza, o arrependimento escondido, cobarde. Arrependeu-se de tudo, quis deixar a vida para trás, desentendeu-se. Pirou da cabeça, diziam alguns, parecia que toda a raiva do mundo tivesse sido chupada para dentro de si, um sufoco de loucura.

Mas ali, sobre a janela, e durante momentos, era ainda o tempo da castanha, que caía das enormes árvores de folha grande, sombras esparramadas no caminho de terra sulcado pelos trilhos das rodas dos carros de bois, os tais que gemiam e chiavam, onde adoravas agarrar-te na corrida, saltando para as ripas sujas de madeira, as mãos fechadas sobre os troncos secos que faziam de guarda ao feno. O vento verde como se se chupasse o suco das folhas no ar, a velocidade lenta da carroça como um deslize, quando olhavas o vale fresco a esconder-se à tua frente, enquanto as curvas se amontoavam na subida suave da serra.

Tinha sido aquela pele límpida e clara, uns braços longilíneos que se juntavam em duas mãos desenhadas, os pés nus a acariciar a terra molhada junto ao tanque de pedra. As horas passaram a ser  alucinadas, na espera de te ver chegar, a navalha afiada a pontear os ramos de bétula, cada vez mais afogueado com a expectativa do leve aroma que te precedia.

Depois o corpo levitava sobre o húmus do chão e atravessava de rompante o pequeno pomar até te poder tocar, sorrateiramente, no ombro despido e liso. Fingias-te surpreendida, um sorriso que arrebatava o corpo, um mundo a desabar num turbilhão de sensações. Porque havia um tempo.

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência.

Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra.

Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data.

A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach.

De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro.
A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.

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6 respostas a Havia um Tempo

  1. Ó Bernardo, isto é uma grandessíssima frase: Arrependeu-se de tudo, quis dei­xar a vida para trás, desentendeu-se. Está aqui desenhado um personagem. Isto pede que o Bernardo lhe escreva uma shortzinha…

    • nanovp diz:

      Vamos com calma querida Eugénia! Às vezes o mais difícil é “amputar” a “short” para poder colocá-lá em formato mais apropriado, mas a personagem há-de voltar outra vez…

  2. Tão bonita esta paisagem do Eduardo Viana. É preciso ter coragem para arrancar uma short da tarde do monótono Verão que ali se vê, alucinar cheiros e gestos. Well done, Bernardo.

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    A beleza silencia-me. No silêncio da manhã, arquivei o texto para o reler quando a nostalgia de tempos vívidos e vividos me tocar. E toca tantas e tantas vezes. Obrigada, Bernardo.

  4. nanovp diz:

    Ainda bem que as palavras se gastam menos que as coisas, assim pode arquivar e reler sempre que quiser…obrigado também!

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