Hitch

 

"Hitchcock", de Sacha Gervasi

“Hitchcock”, de Sacha Gervasi

“Hitchcock” é como uma daquelas biografias impressionistas e largamente romanceadas de um génio criativo. Já se sabe: a melhor forma de conhecer um artista excepcional não é analisando a sua vida, é observando o seu trabalho. Continua a faltar um grande filme sobre a origem do medo, que o mestre cultivou e inspirou como nenhum outro cineasta, sobre a sexualidade recalcada, sobre o mortal sentido de humor, sobre a tirania no plateau (traduzida na frase célebre “os actores são como gado”), sobre o espírito vingativo (a forma cruel como Hitchcock fechou as portas a Vera Miles após esta recusar o papel principal de “Vertigo” quando engravidou), sobre o desprezo pela autoridade, sobre a erotomania das loiras, sobre o enleio com o sadomasoquismo (basta ver “Difamação” e “Frenzy”, separados 26 anos), sobre o namoro platónico com a necrofilia (“Rebecca”, “Vertigo” e “Psico”). Continua a faltar porque “Hitchcock” não é esse filme.

Primeira obra de ficção de Sacha Gervasi, “Hitchcock” adapta o livro de Stephen Rebello “Alfred Hitchcock and the Making of ‘Psycho'”, concentrando-se nos meses de 1959/1960 em que o realizador bateu o pé à Paramount, hipotecou a casa que partilhava com a mulher e habitual coguionista, Alma Reville e se decidiu a financiar, rodar e estrear “Psycho”, um filme-choque  a partir da novela de Robert Bloch sobre um assassino inspirado no serial-killer Ed Gein. “Hitchcock” tem o virtuosismo mimético de Anthony Hopkins (que já fora Hitler, Picasso, Nixon e Ptolomeu) e uma impecável direcção artística, em tons californianos e cores primaveris. Mas Helen Mirren, no papel de Alma Reville (cuja importância criativa era à época subestimada mas que a História se encarregou de repor) exala uma graça e uma sexualidade que a verdadeira Alma, segundo rezam as crónicas, nunca teve. E a platitude do retrato do realizador alterna entre a fantasia psicanalítica (os inenarráveis pesadelos com Ed Gein) e o mais básico “peeping tom” (Hitch espreitando Vera Miles a despir-se por um buraco na parede). Resultado: “Hitchcock” falha na complexidade da figura, sugerida pela melhor de todas as biografias sobre o cineasta, “The Dark Side of Genius: The Life of Alfred Hitchcock”, de Donald Spoto.

Como já se escreveu a propósito de “The Girl”, de Julian Jarrold, o telefilme da HBO difundido em 2012 que conta a rodagem de “Os Pássaros” e o assédio físico e mental de Hitchcock à protagonista Tippi Hendren, o verdadeiro Hitch estaria entre a perversidade infantil, quase ternurenta, deste “Hitchock” e a fúria manipuladora de “The Girl”. Mas Gervasi (e, segundo consta, Jarrold) não tem o talento necessário para desvendar a Alma e a alma de Hitch. Mais vale (re)ver “Psycho”, que estreará para a semana em cópia restaurada.

 

"Psycho", de Alfred Hitchcock

“Psycho”, de Alfred Hitchcock

Alfred Hitchcock, génio narrativo a meias com Alma Reville e George Tomasini, génio plástico a meias com Robert Burks, génio comercial na autopromoção icónica, teve o maior sucesso de público com este “Psycho”, rodado por uma pequena equipa de televisão. “Psycho” é o papá dos filmes de “serial-killers”, o padrasto dos “slasher movies” e o patriarca do novo cinema de terror. Hitch assume tudo como supremo prazer voyeurista: abre o filme entrando pela janela do quarto de hotel – e pelas janelas altas da psique – onde Marion Crane (Janet Leigh, de soutien pontiagudo como uma faca e mais desejavelmente loira do que nunca) se despede do amante, leva-a com uma mala cheia de dinheiro roubado até a um motel perdido em nenhures, coloca o dono do motel, Norman Bates (Anthony Perkins em abismos lacanianos) a observá-la nua no banho e mata a protagonista aos 45 minutos, numa sequência de sublime abstracção ao som dos violinos lancinantes de Bernard Hermann. É, ao mesmo tempo, uma ala do cinema moderno e um andar das produções para o grande público que aqui se inaugura, e até Deus é voyeur, no plano picado sobre a falsa mãe de Bates subindo as escadas da mansão na colina. Arte e “exploitation”, nem mais.

Publicado na revista “Sábado”

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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6 respostas a Hitch

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Pedro, estou cheio de medo de ir ver, o que até podia ser um elogio ao género… Pelo contrário, já me deste uma vontade dos diabos de ir rever o “Psycho” nem que fosse só para ver a abertura…

  2. Algumas das frases que o excelente Agostinho da Silva disse, escreveu, tornaram-se clichés, mas nem por isso são menos verdadeiras: quando ele diz que um brasileiro é um português à solta.

    É um ponto assente o gosto que tenho em ler o que escreve, e o quão bem escrito está. Mas, o que gosto mesmo é quando o Pedro escreve brasileiro como no último parágrafo.

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Ainda não vi o filme. Com este texto entendi melhor Hit­ch­cock do que todos os filmes dele que vi e revi.

  4. Vai, Manel, que os primeiros cinco minutos são um Verão antecipado. O europeísmo malsão em que estamos mergulhados arrastou-me para a tropicalidade, amiga Eugénia. Sempre de uma desmesurada simpatia, Maria do Céu.

  5. nanovp diz:

    Como já nos vens a habituar, grande texto sobre o homem e a obra. Acho que vou como o Manuel ver a copia restaurada (valeu ver o Vertigo).

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