Homem que é homem não come mel, trinca abelha

Aborrece-me esta polémica desabrida com o Acordo Ortográfico. Uns, como aqui o nosso AEQ, (olá, António) são pelo de 1911 com as reformas subsequentes até 1965; outros são pelo de 1990. Isso, meus caros, é uma discussão de meninas. Ambos querem demonstrar a pureza do idioma, como se duas rameiras pudessem discutir a virgindade.

Homem que é homem, dizem, não come mel, trinca abelha. Ou seja, vai direto aos fundamentos. Mulher que é mulher, também, claro, ou pensavam que me tinha dado uma de machista?

E assim, vou eu ao Meestre da língua que é Fernão Lopes. E que escreveu:

“O Page do Meestre que estava aa porta, como lhe disserom que fosse pella villa segumdo ja era percebido, começou dhir rrijamente a gallope em cima do cavallo em que estava, dizemdo altas vozes, braadamdo pella rrua: Matom o Meestre! Matom o Meestre nos Paaços da Rainha! Acorree ao Mestre que matam!”

Ou a esse mágico que é Camões e que fez isto:

“Ceffem do fabio Grego, & do Troyano
As navegações que fizerão
Callefe de Alexandro, & de Trajano
A fama das victorias que tiuerão
Que eu canto o peyto illuftre Lufitano”

Aqui sim! Aqui há português do bom. Troya é com Y porque aquilo era grego. Rrua é com dois R porque aquele R é érre e não re! Paaço é com dois AA porque é aberto até dizer chega e, claro, victoria sem C é como um jardim sem flores. E aquela espécie de f que são S e tão diferentes do beta alemão, embora o façam lembrar. E aquele aa (qual mariquice de contração de a com a para dar à) é lindo e soa a dinamarquês.

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Não aviltemos, voltemos à pureza e, se for possível, não affixemos comentários desapropriados n’esta (ou preferem em esta) paagina.

Hobrigado!

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom.
Sem nunca me levar a sério – no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom
(e barato).

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12 respostas a Homem que é homem não come mel, trinca abelha

  1. Olinda diz:

    a questão é que no antigamente não se foi amputando a língua por meras questões políticas e económicas de terceiros. esta língua, a que hoje escrevo, não se quer coxa nem cega nem muda. esta língua, a minha, não está de pernas abertas a terceiros. esta língua, que se abre apenas aos de dentro, não é uma grande puta.

  2. Pedro Veiga França Ferreira. diz:

    Caro Henrique.
    Normalmente aprecio os seus artigos, e este não é excepção, se bem, que pela ironia do mesmo, vislumbro que é a favor do AO. Eu sou contra. Mas sou a favor da evolução da lingua. Claro que não faz sentido escrever como Fernão Lopes ou Luís de Camões. Mas uma coisa é uma evolução natural, eventualmente organizada de quando em vez por um AO, que se deve limitar a organizar a transformaçõe que o tempo foi introduzindo na Lingua. Outra coisa é um AO, feito em gabinetes, certamente por pessoas que sabem muito da temática, mas que foram muito além do que deviam ter ido. O Inglês falado na Grâ-Bretenha não é exactamente o mesmo que se fala nos EUA, e está longe de ser o que Shakespeare falava, e que saiba nunca fizeram um AO. Simplesmente respeitaram a tradição e fugiram a obsessão quase compulsiva, infelizmente herdada por nós da Europa Continental, de tudo regular e regulamentar.
    Para não se escrever como Camões um AO não é necessário. O seu argumento é falacioso.
    Cumprimentos.
    Pedro França Ferreira.

    • Curioso (zero) diz:

      Inteiramente de acordo. A seguir a este AO veio a redução de freguesias. Agora é a tabela de medicamentos. A próxima será…
      E os ganhos são…

  3. Henrique Monteiro diz:

    Está a ver Olinda, já está a affixar 🙂

  4. Humberto Baião diz:

    O novo AO que nos querem impôr altera significativamente a possibilidade de, em relaçãoà raiz latina de muitas palavras, nos ser impossibilitada uma leitura etimologica das mesmas, o que nada abona em favor do que nos querem “vender” como se de uma inovação se tratasse, na realidade resulta em mais nevoeiro num panorama em que a ileteracia avança como fogo em restolho.

    • Isso mesmo; nevoeiro, demasiado nevoeiro!
      O processo está inquinado por interesses políticos e económicos de duvidosa idoneidade.
      Alguns puristas querem manter a ferramenta que bem dominam por uma questão de poder.
      Entretanto é imperioso melhorar a eficácia do idioma que tudo afeta.
      Ignorar a experiência de outros falantes é estupidez.
      Aceitar incondicionalmente o que nos querem impor é cobardia.
      No meio de tudo isto, haverá linguistas competentes e sensatos no universo lusófono capazes de bolinar.
      Por mim, reivindico o predomínio do vínculo latino.

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Henrique, tu tens toda a razão, mas lá que o acordo é uma boa merda, isso é.

  6. Concordo em absoluto consigo, maça-me esta história. Já escrevi sobre isso tb algumas vezes. E é isso. Siga a vida. 🙂

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