Já me devem mais de um ano

Trabalhava-se. Vinham ter connosco e perguntavam-nos, então quanto é que lhe devo? Respondíamos descuidados, olhe, se faz o favor, pague-me três horas de vadiagem a ver ali o rio, os cacilheiros e, vá lá, o som e o vôo de umas gaivotas.

Devíamos ganhar em tempo. Se ganhássemos pouquinho, eram só uns minutos, pagos em quartos de hora. Por duros trabalhos, eram dias e dias de papo para o ar. Uma hora a ver o mar havia de ser melhor do que o 13º mês. O tempo que se escoa, lento, brisa e rumor, que indistinto mal se sabe se é passado, se é futuro, era o que se pagava pelo trabalho de amar.

Devíamos ganhar em tempo. Cada mastigado, elástico segundo seria um século. O PIB feito todo de meias-horas. Quanto ganhas? Oh, estou rico, andam a pagar-me um ano por cada mês.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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3 respostas a Já me devem mais de um ano

  1. Depois, com um ano livre: zás! fartava-se de trabalhar, escrevia um romance!

  2. nanovp diz:

    Numa recente estatística (ai ai os númeors) parece que quase dois terços dos Franceses preferem trabalhar menos horas mesmo que recebendo menos…A grande tragédia é que o tempo que não estão a trabalhar é gasto a ver os priores programas de televisão! Nem ua vadiar, nem sequer a dormir…

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