Morrer por ideias… mas de morte lenta!

Eu sou tão capaz de morrer por ideias que vocês não imaginam! Ou talvez deva dizer: eu acho que sou capaz de morrer por ideias. Ou, talvez ainda diferente, provavelmente, eu seria capaz de morrer por algumas ideias – a liberdade, a justiça… Ou, dito de outra forma, eu gostava de poder afirmar que seria capaz de morrer por uma ideia grandiosa e não ter dúvida nenhuma de que morreria por ela. Mas, para ser sincero, eu terei de dizer que não sei se sou capaz de defender uma ideia ao ponto de me deixar matar.

Ao fim e ao cabo, por que razão havemos de morrer por uma ideia? O que é isso, uma ideia? Aceitaria morrer por um filho, por um amor, por um amigo – são reais e não nos enganam, se forem bons filhos, bons amores e bons amigos. Mas numa ideia posso estar enganado… E se a minha ideia não é assim tão boa que mereça a minha morte? Foi bom o D. Carlos ter morrido? Valeu de alguma coisa a morte do Buíça e do Costa? E a do Sidónio? E a do Humberto Delgado? E a de todos os que morreram pela liberdade ou por outra ideia qualquer? Nós apenas homenageamos os que morrem por ideias porque foram eles que morreram, e não nós? Nós ainda cá estamos para dizer: ah, sim senhor, ainda bem que fulano morreu pela liberdade que agora me dá tanto jeito. Mas o fulano que morreu em seu nome não a gozou! É injusto, sobretudo se não houver paraíso ideológico.

Assim sendo concluo que não morro por ideias. E menos por ideologias. A ideia de morrer por ideias, como diz aqui o Brassens, é excelente, mas por qual das ideias devemos morrer, uma vez que as bandeiras de todas elas são semelhantes e grandiosas? Além de que, como ele acrescenta, a maioria daqueles que pregam a morte por ideias chegam à idade de Matusalém, fazem disso a sua raison de vivre

Morramos pelo amor, pela discussão acalorada, pela contradição, pela piada, pelos copos, pelas pequenas sacanices, pela vida! Esta, sim, é a melhor forma de morrer – e como canta o Georges, morramos de morte lenta!

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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6 respostas a Morrer por ideias… mas de morte lenta!

  1. É mar ao barco! Esta é uma vaga das grandes!
    Pode valer a pena morrer por uma ideia altruísta. Valerá a pena morrer para salvar um camarada no campo de batalha. A ideia pela qual vale a pena morrer, resulta da extensão dos amores que refere; aos filhos, aos pais, à mulher amada. Os outros, somos nós. É compulsivo. Amamos mais os outros do que parece.

    Idiota, desprezível, é invocar falsas ideias ou adotar, falsamente, boas ideias alheias para morrer “heróicamente” de acordo com os esteriótipos estabelecidos na busca da tal distinção.

    Herói é o que não sente necessidade de o ser, nem sequer entende bem o que isso é.

  2. Mas vale a pena revisitar Brassens. Apela a realidades que vamos esquecendo.

  3. Se me permite publico na minha página.

  4. Panurgo diz:

    «For, gentlemen, it is a fact, that every philosopher of eminence for the two last centuries has either been murdered, or, at the least, been very near it; insomuch, that if a man calls himself a philosopher, and never had his life attempted, rest assured there is nothing in him; and against Locke’s philosophy in particular, I think it an unanswerable objection (if we needed any), that, although he carried his throat about with him in this world for seventy-two years, no man ever condescended to cut it.»

    Não é tanto morrer por elas; mas, ao menos, que nos tentem matar. Só isso já era bom.

  5. Rita V. diz:

    Às vezes: hora errada – lugar certo!

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