Não é só bom. É necessário.

 

spielberg

he cannot help but have the eyes of an actor

Já disse que vi o “Lincoln” do Spielberg com a alegria de quem descobre que um amigo desaparecido afinal está vivo? Já, bem sei que sim, que já.

Já não me podem ouvir com este raio de conversa? Já, bem sei que já. E espero que, mais depressa do que cedo venham aqui, escrever sobre o filme, a Eugénia, que gostou muitíssimo e com a serenidade de uma menina, e o PMS que, imagino, se passou exacerbado e viu Ford em cada enquadramento e na estupenda luz elegíaca.

Mas enquanto eles não aparecem, deixem-me dizer que David Thomson, o tipo em todo o mundo e arredores que mais bem escreve sobre cinema (antes era o João Bénard que agora aconselha Deus nessas matérias), escreveu um artigo, limpo, inteligente, tão bom, tão bom que parece fácil. Vê-se que é de quem teve prazer a ver e tem prazer a escrever.

Um excerto: “Day-Lewis has been made up with great skill; there is even the blemish or cyst on the right side of the mouth that we can see in photographs. Yet he cannot help but have the eyes of an actor: eager, clever, ambitious, hopeful. There’s no harm in that, for it plays along with the film’s scheme that A. Lincoln was a public act, a role, and a consummate politician who longed to be the subject of wistful stories like those he tells to dissipate tension. In the eyes of the Lincoln photographs there is something else, a calm certainty that the job is killing him.”

Se ler é a segunda coisa que mais gostam de fazer, comecem a ler no princípio e acabem nestas últimas frases: “But for a few days or weeks now, it is the moment in a way few modern movies have managed. It’s very good, but that’s not the point. It’s necessary. Make sure your children take you to see it.”

E passem a ler a “New Republic”. David Thomson escreve sempre sobre cinema.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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16 respostas a Não é só bom. É necessário.

  1. Estava mesmo agora ali satisfeita no texto do PMS, os dos belos saltos, quando este Lincoln chegou: confesso que também tenho vontade de ler o PMS sobre este bom e necessário filme que planeio rever ainda esta semana. E já pedi à Tia que ali plasmasse The New Republic. Ela disse logo sim.

  2. maria poppe diz:

    Subscrevo inteiramente o título desta crónica Manuel! e obrigada pela indicação do artigo do David Thomson, uma maravilha! Depois de ver o filme fiquei a pensar: terá mesmo existido um homem, que por sorte também era político, assim?

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Era, nos erros e virtudes, um homem. É o que é preciso para se ser um político. Digo eu que não tenho nenhuma apocalíptica malapata contra os políticos.

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Nem me fale! Ainda de lá venho e cai-me esta descoberta em cima.

  4. Se é mais um anjo que nos faz consumir cultura americana, então está ok:

  5. E nunca teria havido filmes de caubóis sem as vastas pradarias de Almeria, (nem Ursula Andress):

  6. Manel, depois de ler o 3º post sobre o filme vou já de seguida de mãos dadas com as filhas!

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Ana Rita, já escrevi o 4º, mas só o publico daqui a 10 dias. É um bocadinho exagerado, mas deu-me para aqui…

  7. Rita V diz:

    bela dica
    thank u

  8. nanovp diz:

    Manuel, obrigado pelo artigo e pela grande dica da “new republic ” onde me “perdi” por longos momentos…só falta ver o filme mas não passa do fim de semana….

  9. soniab1973 diz:

    Eu gostei muito do filme e quero voltar a ver algumas cenas porque ainda não sei como Day-Lewis consegue ser tão perfeito. Até enerva.
    Sei que cada um tem direito à sua opinião, mas dizer que “Lincoln” é uma seca, como já li e ouvi várias vezes, é como reduzir Veneza ao mau cheiro dos canais.

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