Nem meiínho, nem vom…

rtp-ao90

 

Há dias, esta imagem no Facebook provocou-me assim como que uma espécie de epifania.
Na minha visão interior exibiam-se, despudorados, numa união simultaneamente melancólica e feroz, uma história com anos que ouvi ao meu querido amigo Afonso Leite de Castro, que a velha gadanha já levou, e o inefável estropício que dá pelo nome de Acordo Ortográfico de 1990 (vulgo AO-90).
A história é um primor etnográfico, e passou-se em terrenos da cerca do antigo convento que alberga hoje a magnífica Pousada de Santa Marinha da Costa, em Guimarães – até meados dos anos 70 propriedade da família deste meu amigo.
A coisa é simples: descia-se do Largo Domingos Leite de Castro para a estrada cheia de curvas, e numa delas existia uma venda com tasca associada. Por trás do balcão enófilo, alinhadas em cepos altos para que a clientela com mais facilidade pudesse analisar os produtos e melhor escolher, encontravam-se três meias-pipas devidamente identificadas. Destacada, em grandes letras toscas, surgia na primeira pipa a informação sobre um «binho muito vom», logo seguido de um outro «binho vom».
A fechar a montra, aparecia um «binho meiínho mas que também é vom»…
O que se me descortinou aqui, na altura, e que nada tem de especial, foi a corrupção do falar galaico-português que troca habitualmente os «v’s» pelos «b’s», mas só muito raramente faz o contrário. Essa raridade aparece apenas quando o falante pretende saber como é o dizer correcto da palavra em questão, e mais se mostra se o dito falante se cala e resolve desatar a escrever.
O desastre surge no cruzamento das dúvidas: quando ele diz «o binho é bom» sabe intuitivamente que algo ali não está bem pelo menos com um dos «b’s». E como não lhe passa pela cabeça  que seja o binho que está mal, vai de apelar a um quase erudito «vom»!
Já vi isto acontecer com outras variantes, e até cheguei a assistir a uma breve altercação sobre o tema – curiosamente também numa tasca, mas desta feita em Viana do Castelo. Claro que nenhum dos contendores tinha razão, mas ali eu não meti o bedelho.
Havia muito vinho no ar.
A ligação disto tudo ao AO-90?
Bem, há pelo menos a ideia de bebedeira generalizada quando se vê o que acontece a quem se forçou ao medonho manual de contradições e patetices avulsas que é, em si, o tal acordo.
Reforça esta minha ideia copofónico-ortográfica o facto de as imagens com que ilustrei o aborto em actividade fazerem parte da mesma reportagem e do mesmo jornal.
Tal como ao galaico-português que servia copos na tasca da Costa, a dúvida instala-se, tudo confunde e tudo estraga.
Em última análise, o AO-90 é um acto de traição.

Sobre António Eça de Queiroz

Estou em crer que comecei a pensar tarde, lá para os 14 anos, quando levei um tiro exactamente entre os olhos. Sei que iniciei a minha emancipação total já aos 16, depois de ter sido expulso de um colégio Beneditino sob a acusação – correcta – de ser o instigador dum concurso de traques ocorrido no salão de estudo.
E assim cheguei à idade adulta, com uma guerra civil no lombo e a certeza de que para um homem se perder não é absolutamente necessário andar encontrado.
Tenho um horror visceral às pessoas ditas importantes e uma pena infinita das que se dizem muito sérias. Reajo mal a conselhos – embora ceda a alguns –, tenho o vício dos profetas e sou grande apreciador de lampreia à bordalesa e de boa ficção científica.

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29 respostas a Nem meiínho, nem vom…

  1. mónica diz:

    gostei da explicação da confusão do “binho vom”, e a confusão aumenta quando está presente alguém “de fora”, na minha opinião é assim q eles “nos topam”

  2. Muito bem observado, também acho que a coisa piora com mirones…

  3. Minhona diz:

    Pois tristemente comento: hilário,o texto, hilário o binho, e o germanófilo vom devidamente aportuguesado. Excelente a demonstração de quão simples é evidenciar o falhanço primário da pretensa adaptação solidário-simplista do principal património da nossa identidade. Esse projecto que me recuso a chamar pelo nome agora reduzido a uma fórmula científica, é em todas as análises um acto de traição à língua portuguesa, nossa pátria.

  4. Bravôôô!
    Mais uma soldada! 🙂

  5. Pedro Bidarra diz:

    Ora aí está uma malta que bateu com a cabeça e desarrumou as palavras. Deviam ter ido logo às urgências. Mas não, deixaram andar e agora os danos são crónicos. Portugal levou uma cacetada no hemisfério esquerdo (o da fala) e agora só com terapia intensa.

  6. António, eu, se os trabalhadores me contratassem como advogado, invocava já a nulidade do despedimento colectivo, pela falta do primeiro requisito indispensável para a sua promoção: a existência de uma comunicação de intenção. Parece que há quem queira comunicar uma “intensão”, mas isso, é uma inexistência, tanto do ponto de vista jurídico como linguístico, e não serve para começar um despedimento colectivo.

  7. Lurdes Abreu diz:

    Sempre que bejo estas verbaridades, se fosse crente, venzia-me.
    Não tenho opinião formada sobre o NAO. Uma coisa sei: escrever com erros de palmatória nada tem “a ver” com ele.

    • Curioso (come diante) diz:

      Vem aplicada 😉

    • Lurdes, «ele» (o AO-90) limita-se a potenciar o erro em quem já errra: se vir bem as imagens vai ver que em ambas há uma palavra certa e outra errada, que depois mudam de posição (suponho que em conflito com os correctores automáticos, se os há na RTP, ou com algum ‘isperto’ em linguagem…)

      • Maria diz:

        A existência ou não do AO não interfere rigorosamente em nada com quem não tem a preocupação de escrever escorreito. Intenção/intensão (menos usual) não foram palavras tidas nem achadas para o acordo ortográfico (o meu corretor ortográfico tracejou a vermelho “intensão”; não soubesse eu da existência das duas formas e já daria raia).

        O seu pressuposto, meu caro AEQ, apenas serve de desculpa para aqueles que agora usam a existência do NAO (não se esqueça que já houve um em 1931) como desculpa para os seus dislates.

        • Digamos que está no seu direito achar o que entender, Maria, mas eu não ando à procura de desculpas para coisa nenhuma. Fundamentalmente, não preciso.
          E mantenho que o NAO (e por acaso há ainda o de 1911…), por ser muito extenso, cheio de excepções e até de contradições, limita a sua acção ao potenciar de erros de forma sistémica.
          Com tudo isto, gostava de lhe dizer que não sou de forma alguma contra a modernização da língua – nem posso ser.
          Agora este ‘pacote’, e eu já o li, é mesmo muito mau.

          • Maria diz:

            Meu caro António, é óbvio que esta da “desculpa” não é para si. Foi a hora tardia que o levou a pessoalizar a minha rabecada?? Só pode!!! 🙂

            O que disse é uma constatação do que vou lendo por essa blogsfera, jornais e muita “conversa” às vezes da treta com muitas pessoas… alguns com responsabilidades a esse nível

            Quanto ao NAO reconheço que tem coisas que não fazem qualquer sentido. Dá ideia que dividiram tarefas e depois juntaram tudo sem fazerem uma revisão. O caso mais típico, cito de memória, é o do cor-de-laranja que não tem hifen e o cor-de-rosa já tem ou ao contrário… para o caso tanto faz como fez . Por mim mando-os passear e escrevo os dois com hifen como sempre fiz, no entanto já sou adepta de deixar cair as consoantes que serviam para abrir o som à vogal que o antecedia. Quanto ao cágado e cagado reconheço que também me incomoda como muitas outras… a lista seria fastidiosa …

            Um bom fim-de-semana

  8. Maria Dalila Teixeira Pinto diz:

    Este «binho vom» faz-me lembrar uma frase escrita a giz branco num caixote do lixo em Calvos (aldeia vizinha da Póvoa de Lanhoso)« VOTA DENTRO PORCA»!

  9. Manuel S. Fonseca diz:

    Mas que vom binhinho! Tchin-tchin. O Acordo é uma bosta.

  10. Dalila, acho que até já vi um cartaz com isso (uma foto, é claro)

  11. Caro bloguista, a sua história é deliciosa. E, sobre as imagens que apresenta, já reparou que a segunda, porventura escrita antes por um feroz detrator do AO90 (aquele “c” denuncia qualquer um) revela ignorância, enquanto a primeira, porventura uma correção posterior, não tem nenhum erro, já que a RTP adotou o Acordo? Não vou generalizar, mas que o exemplo não é feliz, lá isso não é…

  12. É verdade, Artur, tem toda a razão (eu como sou um desses «ferozes» nem reparei nisso…).
    Ainda bem que gostou e obrigado pelo seu comentário.

  13. Vem caçado, António, muito vem! Quero que o AO se lixe.

  14. Maria Leão diz:

    …… simplesmente maraBilhoso e muito Bom 😉 só li agora 🙂

  15. Já me ri um pedaço!!!!! Só não encontro neste momento nada para trocar os bs pelos vs!!!!!

  16. luis joao sampaio diz:

    Gostei muito do comentário de Minhona

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