O anjo em visita

Antes do Natal recebi esta carta de um amigo meu angolano, daqueles que viaja muito por razões petrolíferas, um destes nómadas modernos, a saltar, como o Vasco Grilo, de aeroporto em aeroporto. Não se admirem se um dia destes o apanharem, sentado num avião, próximo de vós, na fila ao lado.

Não resisti, e tanto o azucrinei que ele me autorizou a publicar a carta. Se vierem para aqui com intrigas de que não é verdade, que isto é tudo ficção, que foi a Tia ou que eu tenho heterónimos etc e tal… é tudo falsidades. Nunca fui à Terra Santa, não conheço Nazaré e, materialista soez e satisfeito, há muito que não me atormentam crises de fé. Eis a carta:

Sameiro Annunciation

Anunciação, azulejos do Sameiro

Mané, meu pequeno irmão pálido, não me perguntes como e porquê, mas um périplo de oriente médio, saindo de Tel Aviv pela estrada 65 e deriva para a estrada 60, atirou comigo para Nazaré, nas cinco estrelas de um muito aceitável golden crown. Para não te cansar com pormenores sórdidos, petróleo e diplomacia à parte, digamos que fiz turismo. E fiz. Turismo religioso até, se atendermos ao cristão que continuo a ser, já que, africano, sincrético e animista, não me concedo o luxo da europeia snobeira de agnosticismo (teu pecadilho de rapaz branco, confessa) ou da sua ateia doença infantil.

A minha religião parece-se com a de um amante do mar que do mar já não queira mais do que ver-lhe o espectáculo das marés, ver-lhe a variação que o esplendor do sol deixa nas águas. Tudo olhado de sobranceira esplanada, a fresca humidade de um copo de cerveja na mão. Vejo e não toco. Com saudades do padre basco que tu sabes, aquele que me ajudou a ir para a guerrilha contra a pátria que, por ser a do meu pai, eu ainda amava, é assim que sou cristão. Sou assim, religioso de um cristianismo de água azul e verde que vai e vem. Vejo esse mar que nunca se cansa, mas sei que já não voltarei a ter o êxtase de um mergulho. Não me voltarei a banhar nele, mas volto sempre à orla, à fina espuma que fica depois da onda.

Não há mar em Nazaré, na Galileia. E é daqui que te escrevo, antes que seja Natal. Detesto – tantas vezes te disse – o facilitismo multicolor da temporada e as efusões um pouco patetas (são mais patetas do que hipócritas, e bem sabes que não sou cínico) que nesta altura abundam. Volto, por isso, a Nazaré, onde há três meses me passeei menos de três dias. Fui jejuar ao deserto, meu kamba. Jejum gourmet que é um privilégio angolano. De classe, hèlas como tu gosta de dizer.

A Basílica da Anunciação foi, antes do calendário, o meu Natal. Edificada na gruta onde Maria foi visitada pelo anjo, a Basílica é um patchwork extraordinário. Monumental, com uma altura que chega aos 60 metros, o interior é novo e velho. Construída no final dos anos 60, reteve paredes, muros e pedras das igrejas que desde há séculos neste local se construíram e neste local foram destruídas, conforme vicissitudes históricas, políticas e militares a que nem Junot, invasor francês de Portugal, minha ex-pátria, escapou. Napoleão, no fim de bem sucedida campanha, fê-lo, vê lá tu, duque de Nazaré.

O único anjo especializado em assuntos de gravidez – já fora ele a comunicar a Zacarias que a sua estéril mulher Elisabete iria dar à luz um varão a que chamariam João Baptista – o arcanjo Gabriel, anunciou a Maria, e imagino a incrédula cara dela, que virgem, e continuando virgem, iria ter um filho. Esse mistério mudou a humanidade.

Por ironia, Nazaré é uma cidade árabe. Árabes são quase todas as 80 mil almas deste vale e cinco colinas. Árabes são quase todos os 20 mil cristãos maronitas ou ortodoxos, a maior comunidade cristã numa cidade de Israel. Salim, o meu motorista, confirmou-me a tensão. Primo, ainda pensei que fosse, de outro Salim, um imã que, por coincidência, foi preso há tempos por alegada incitação ao terrorismo e louvor a Bin Laden. Mas não era primo, nem parente, nem islâmico. Salim contou-me que também os fundamentalistas judeus vandalizaram cemitérios islâmicos e grafitaram uma estátua de Ytzhak Rabin. E, cristão, levou-me à Basílica da Anunciação. Vista de fora, deixou-me frio. Quando entrei, o anjo tomou conta de mim, da minha africanidade sincrética, da minha europeidade monoteísta. A igreja tem diferentes níveis: a igreja de cima resplendente da luz que os vitrais filtram, a semi-labiríntica igreja de baixo, tão íntima, bordada dos restos de igrejas antepassadas.

O que é que se passou aqui? Há dois mil e dez anos, no que deveria ser uma árida aldeia esquecida do mundo, em que as casas não eram mais do que grutas adaptadas, um anjo feito homem visitou os 15 anos de Maria, bela jovem, virgem e que fizera votos de continuar a sê-lo. “Alegra-te cheia de graça, o Senhor está contigo”, disse o anjo. E, depois, fez-lhe a anunciação. Que daria à luz um filho para o que o poder do Altíssimo a cobriria com a sua sombra. Será que algum dia mediremos bem a grandeza, a confiança, a entrega do “Sim” que Maria disse ao anjo: “Faça-se em mim segundo a tua palavra.

Seria belo o anjo, esse anjo que proclamava ser a “força de Deus”? E Maria? Onde ela estava, o que fazia? Penteava os cabelos árabes e crespos? E depois, como é que ela contou a José que outro homem, súbito, a visitara na gruta e que uma sombra semeara nela a vida?

O “Sim” de Maria é o de um feminino que pertence a um mundo que já não é o nosso. O nosso é o mundo do não – e não, é sempre não.

Vim a Nazaré, meu irmão, cidade de figueiras e oliveiras mirradas. Deserto à volta, o mar tão longe e, no entanto, ao pé de um pequeno altar, numa gruta que o recolhimento de uma igreja protege, fechei os olhos e ouvi o eco antiquíssimo de um genuíno sim. Voltaremos algum dia, sem deuses nem anjos, a recuperar essa confiança?

grotto

Basílica da Anunciação

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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16 respostas a O anjo em visita

  1. curioso (nim) diz:

    nunca imaginei Nazaré assim… e aquele sim é vertido hoje para o não do Joseph (Rat) zinger 🙁

    recuperar (aquela con fiança)? não. hoje é outra. amanhã outra será…

  2. Uma carta endereçada a um cara-pálida é sempre impactante, gosto da palavra impactante, é muito nossa, devia figurar em todos os fados, por isso é que a escrevi.

    Não tive tempo para redarguir na questão dos Óscares, em primeiro lugar, devo dizer que festa de brilho e glamour prefiro a feijoada da revista Caras que abre o verão no Algarve; em segundo, se não são a cenoura para nós, os subdesenvolvidos, então que são os Óscares? claro, a entrega dos Óscares é uma coisa, é um programa de TV, e como tal tem que vender no mundo e isso faz-se com espetadores e eles formam-se com expetativa e marketing. Refiro-me aos Óscares númeno, diria Kant ao atravessar a rua (do sujeito-objeto, of course), e não vale dizer frases feitas dos jornais como celebração do cinema ou reconhecimento de valores, talvez fosse bom ler o pai fundador, o judeu das stars.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Táxi, também gosto de impactante. Cá está, reescrita.
      E tens razão, eles fazem aquilo tudo dos Oscars para nos enganar. Aliás, praticamente tudo o que é feito no mundo é para nos enganar. É preciso andar-se muito a pau.

  3. … e eis espetáculo:

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Bom, modero o meu comentário acima ao teu comentário. Nem tudo é feito para nos enganar. Estes não enganam ninguém.

  4. V diz:

    Que bom ser o pequeno irmão pálido, de um imagino grande irmão escuro. Invejo receber e escrever uma carta assim.

  5. Panurgo diz:

    Um novo tipo de cristianismo, estou a ver. Nietzsche não tinha fé num Deus que não dançasse; um cristão novo modelo é bem capaz de duvidar de um Deus que não jante no Tour d’Argent.

    Está bem, pronto. Já agora também podia publicar a resposta 🙂

    • Manuel S. Fonseca diz:

      E onde é que o Panurgo acha que Deus devia jantar? Como dizia o meu velho amigo João César Monteiro, “já provei a sopinha dos pobres, sempre prefiro a sopinha dos ricos.”

      • Panurgo diz:

        Naturalmente. Um homem pouco mais serve que para encher o bucho e a latrina – não me lembro do francês que disse isto.

        Um cristão só entra em restaurante ou em hotel de luxo se tiver um único e nobre objectivo: atear-lhe fogo. O resto é judaísmo. Essa coisa nojenta que tanta repugnância causava ao Cristo. Mas, hey, como pergunta o seu amigo “sem deuses, nem anjos, voltaremos a recuperar a confiança”? Com certeza que sim. Mamón é sempre de fiar e calharam-me ao jantar umas vieiras salteadas do melhor que há.

        • Estou esclarecido e tem aqui um apoiante. De que é que está a precisar? Rastilhos, umas cargas de dinamite, pedra-de-isqueiro? Quer também selênio, antimônio, enxofre? Pólvora seca, julgo que já não precisa, pois não?

          • Panurgo diz:

            ehehe “pólvora seca” é engraçado 🙂 fez-me pensar nesse hábito português de apontar como defeito uma condição fundamental para a acção dos elementos. O povo é sereno e contemplativo. E está bem assim.

            Preciso é de um clube de suicidas. Para presidir, como é lógico. Reuniões semanais no Le Bernardin, em Nova Iorque (Paris está muito visto). É um instante até recuperarmos todos a confiança em Nosso Senhor.

  6. Gosto muito de ouvir esta sua voz de outro, tão diferente da sua, e com um passado de semelhanças que a faz igualzinha. Mais, svp.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Eugénia, isto ainda era do tempo em que havia cartas. Já não há mais lá na arca.

  7. nanovp diz:

    Se fosse inventada ou ficçao não seria pior Manuel.

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