O elogio da preguiça

Restam poucos que saibam preguiçar. A preguiça foi proscrita dos centros urbanos. Ido o tempo em que havia tempo para escutar as cigarras que teimo em ouvir. Nos dias que correm, inatividade é equivalente a morte social. Sofrer por uma carreira, transpirar no ginásio, almoçar em trabalho, encher a despensa, ver o último filme de que todos falam, ler o que acabou de sair, não ter tempo para amar, conduzir os miúdos ao colégio. Tudo para não esquecermos o mundo. Implacável, o mundo esquece quem somos.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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10 respostas a O elogio da preguiça

  1. E merece. A preguiça merece mil elogios…

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Merece. Todavia, saber preguiçar contra a correria dos dias exige prioridades bem alinhadas. Nem sempre de tal sou capaz. E se gostava…

  2. nanovp diz:

    Pois é…os povos latinos deixaram-se corromper pela azáfama protestante, e até os Italianos já esqueceram o “dolce fare niente”…

    • Maria do Céu Brojo diz:

      E se o direito à preguiça constasse dos “Direitos do Homem”? A ONU, em meados do século passado, bem podia tê-la inscrito antecipando o futuro.

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Eu já tenho zumbidos nos ouvidos. São, acho eu, as minhas cigarras.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Ainda assim, preservar-lhes o zumbir talvez não seja mau como à primeira vista parece.

  4. Quem diz cigarras poderia dizer zoada do mar.

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