O Papa que perdeu a Fé

Francis Bacon. Estudo do Papa Inocêncio X

Francis Bacon. Estudo do Papa Inocêncio X

Leio este magnífico post do Pedro Norton e lembro-me de uma personagem literária, Gog, um louco milionário, criação do escritor italiano Giovanni Papini. O livro é um conjunto de histórias e aventuras vividas ou narradas por Gog e, numa delas, um apóstata, dissimulando-se, chega a Papa. Prepara-se para, no momento da entronização, denunciar a abominável farsa que seria a religião e toda a monstruosa maquinação obscurantista que talvez seja a Igreja Católica. Mas no momento em que, no Vaticano, vem à varanda, raios e coriscos iconoclastas a afogar-lhe o peito, a imagem da multidão, a fé que das preces se soltava, convertem-no. Como Saulo, como o próprio Giovanni Papini, a Graça toca esse homem e o ódio desfaz-se. Um rio de lágrimas – a amazing Grace – funde-o na comunhão dos santos e dos crentes.

O que diria Gog, no seu asilo de loucos, se agora soubesse da renúncia de Bento XVI? E se a renúncia deste Papa germânico – deixemos que a imaginação grotesca de Gog irrompa – fosse, na sua discrição, o gesto de uma homem cansado que perdeu a Fé? Nos corredores da Cúria, entre a agitação conspirativa, o rumor das pequenas e grandes traições, a desilução com a hipocrisia, a avareza, a concupiscência de teólogos dúbios, bispos e cardeais de comportamento desprezível, um homem, um idealista e racional herdeiro de São Pedro, pedra a pedra, decepção a decepção, teria visto desabar o seu edifício de crenças. Sem alarde, pompa ou circunstância, guiado só por uma racionalíssima solidão, um Papa, agora ateu, renuncia.

GOG

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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12 respostas a O Papa que perdeu a Fé

  1. Manuel Papini Fonseca, se non è vero, è ben trovato.

  2. Continuo a aprender consigo Manuel. Desconhecia o Gog, mas há que tempos que tinha na ideia (eu sei, eu sei, isso não conta, que ideias há muitas) escrever uma dupla história dum Papa que anuncia ao mundo que não existe Deus, enquanto um ateu é ordenado padre, porque, embora não acredite em Deus, reconhece que o ser humano não se dá bem no mundo recorrendo só a psicólogos e terapeutas.

    Mas afinal já existe o Gog! E ainda assim, em vez de um apóstata, não seria mais curioso um Papa que tivesse sido nomeado Pontifex Maximus inteiramente crente na obra do Espírito Santo?

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Olá caríssimo Francisco, mas que saudades suas que para aqui temos. Diga quando cá vier (ou anda por cá?)
      Escreva lá esses contos!

  3. curioso (mis são) diz:

    não creio que seja um papa ateu, nem germânico, nem de fé perdida. desesperado sim.

    eu creio que Deus (ou deus) não está minimamente em causa. são homens. ele e os outros que o cercam (ou rodeiam ou envolvem ou confundem ou desencorajam).

    rendeu-se perante a falta de esperança em ver cumprida uma missão que só poderia ser realizada em igreja (todos unidos). abdicou da missão impossível. deixou a barca a outro arrais, que os há, muitos e bons (mais fortes, com melhores sortes).

    também a madre Teresa desesperou… não conseguiu… sentiu-se fraca e não ajudada, incapaz de continuar a acreditar na validade da sua missão: o bem que conseguia fazer, com muito custo, era bem menor que a miséria que permanentemente galopava à sua frente, à sua volta.

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Frequentemente, da ficção à realidade o salto é pequeno. A estória desse tal Gog de Papini bem pode ter dado o salto. E daqui em diante? «Futurar» o Vaticano irá ser conjugado em todo o lado.

  5. maria de jesus pires da rocha diz:

    …Muito Bela, esta descrição, de uma possível realidade. Os mistérios da Fé.

  6. nanovp diz:

    A Fé pode-se perder ou ganhar, a Graça já não se escolhe, Fé sem Graça pode ser perigosa.

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