O quarteto mais dinâmico do mundo (da série Árias) – 5

Vítor Hugo, que não podemos ficar a conhecer pelo horrível filme Os Miseráveis, escreveu a peça Le Roi s’amuse que Francesco Piave adaptou para um libreto batizado, primeiro, Maldição e depois com o nome definitivo Il Rigoletto.

Esta e Falstaff são do meu ponto de vista as melhores óperas de Verdi e estão entre as cinco melhores óperas italianas (sem contar com a série italiana de Mozart). Mas adiante.

A história, que na versão operária não trata de um rei, mas do Duque de Mântua, segue mais ou menos assim: o duque é um folião e desflorador de raparigas que tem um bobo da corte, Rigoletto, disforme marreco. Um dia, este é amaldiçoado por das muitas mulheres que o Duque, com a colaboração do bobo, engana.

Acontece que Rigoletto tem uma filha, Gilda, que ele preserva o mais que pode. Porém, o duque s’amuse e um dia consegue que Gilda engrace com ele. Rigoletto leva então a filha a uma hospedaria onde o Duque está à espera de uma outra mulher, Madalena. É durante a espera que o duque cinicamente canta a mais famosa ária desta ópera e do mundo – La donna è mobile. (Diz-se que o próprio Verdi, durante os ensaios da estreia, ficou surpreendido por ouvir um homem na rua a assobiar a melodia. Intrigado, perguntou-lhe como a conhecia. O homem confessou ser carpinteiro no La Fenice, onde a obra ia estrear. Tinha-a ouvido duas vezes e já não a conseguia tirar da cabeça).

Rigoletto espera demonstrar como o Duque é falso com as mulheres e é neste ambiente que se desenvolve o quarteto Bella Figlia dell’Amore. Em cena estão, de um lado o duque (tenor) e Madalena (contralto) e de outro Rigoletto (barítono) e Gilda (soprano). O resultado é quase divino. E faz jus a algo que Mozart já tinha refletido, a propósito de uma missa sua (a Grande Missa em dó menor): que apenas a música propicia estarem quatro pessoas a dizer coisas diferentes e o conjunto fazer sentido. É o princípio do pluralismo e da tolerância. Mais um ponto a favor dos bons quartetos.

Neste YouTube temos um elenco de luxo: o Duque é Pavarotti; a Gilda é Joan Sutherland (já com 62 anos, notável); Leo Nucci é o Rigoletto e Isola Jones a Madalena.

Deixo para o final a piadola brejeira de cantores. Quando o Duque canta “con un detto, un detto sol tu puoi le mie pene, le mie pene consolar“, por vezes, sem que o público veja, o detto (dedo) faz um gesto que seria uma pene aqui dizer qual é.

Mas ora ouçam, que isso é que interessa. Não vos conto o fim, porque esta tem suspense, mas sempre vos digo que a última palavra é maledizione, o que justifica o primeiro batismo da obra.

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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3 respostas a O quarteto mais dinâmico do mundo (da série Árias) – 5

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Oh Monsieur Monteiro, Maestro!, qu’est-ce que j’ai rigolé!

  2. Sou fã disto! Também rigolei uma fartura.

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