O rei, a virgem

Coronation of Louis VIII of France and Blanche of Castile

De joelhos, Louis, o leão, e Blanca, de fina cintura

Foi um rei valente. Um leão quando um leão ainda era um leão e tão poucos  a Europa vira então. Louis VIII foi rei de França e desmentiu, porventura antes de tempo, que a ilha a norte da costa do seu reino franco, a Grã Bretanha, não pudesse ser invadida. Invadiu-a ele e conquistou Londres (uma Londres ainda sem swing, muito longe de ser a Londres do “Blow-up” de Antonioni) e todo o sul de Inglaterra. Parte da aristocracia inglesa queria-o para rei, temendo ou desprezando João Sem Terra… mas não é de nada disto que eu queria falar.

Corria o século XIII e houve um sopro de amor na casa real. Louis VIII, por arranjo familiar, casou com Blanca de Castilla. Esperar-se-ia dele que cumprisse os mínimos, fazendo, com compostura e esforço, filhos à rainha e alegrando-se com amantes e favoritas. Para espanto do século, deslumbrado com a inteligência e a beleza de Blanca, Louis VIII apaixonou-se pela rainha. Amaram-se. Também na cama, e porventura fora dela, actividades espirituais de que resultaram 12 filhos.

Depois de, a ferro e fogo, expulsar os ingleses de todas as suas possessões em França, iniciou uma cruzada contra os cátaros, sitiando cidades que se foram rendendo ao poder real.

Campanha dura e longa e eis que o rei é atingido, como muitos dos seus guerreiros, pela disenteria. A febre sobe e o rei delira. Os físicos do rei apalpam, olham, consultam-se e diagnosticam o problema. Não, não é só o problema intestinal. O rei, por amor à rainha, permaneceu toda a campanha em abstinência sexual. Tanta continência azedou os seus humores. É possível salvá-lo: terá de desflorar uma virgem. Sábio conselho, malgrado a reserva que Henrique Monteiro expressou nesta declaração. Mais obstinado do que o Henrique, o rei recusa a terapia. Rodeado de físicos e dos seus vigorosos capitães diz-lhes que ama a rainha e lhe será fiel contra tudo e contra todos.

Imagino que um frémito terá passado pelo que de intocado permanecia em todas as virgens de França. Como podia o rei cruel poupá-las à nobreza dessa missão salvífica. E um dos capitães, intrépido irmão de armas do rei, agarra numa das oferecidas ninfas, lava-a com recônditos cuidados, já a ponta do seio brilha como o capot de um vermelhíssimo Ferrari, perfuma-a com os mil perfumes de França, até uma efeminada gota de Thierry Mugler, e mete-a nua entre os lençóis reais.

Louis, rei e leão, acorda e espanta-se com a companhia. Resiste à sedução. Com mais brandura do que dureza, afasta a ninfa, manda-a sair da cama, cerra os olhos, vê a imagem da sua Blanca, Blanche, e morre, amante, amador de uma única coisa amada.

Quando uma virgem era o mais cobiçado dos tesouros, quando a virgem não era olhada com suspeita e irónica desconfiança, um rei, Louis, por amor a um casamento de Espanha, recusou o que os miseráveis terroristas islâmicos se atropelam para apanhar no céu às pázadas. Tudo porque as mães deles não lhes contaram a edificante história de Louis VIII e Blanca, cujo descendente foi – só podia ser – Louis, IX, rei de França que a Igreja canonizou como Saint Louis de France.

O Diogo Leote e eu, por ínvia manobra do cruel Pedro sem Coração, acabámos a representar este blog no Congresso do Amor que teve lugar na Quinta das Lágrimas. Esta foi uma das histórias com que pusemos a sala em lágrimas. É que já ninguém nos queria ouvir. Choravam para que nos fossemos embora.
A despropósito, as crónicas do Expresso vão passar a estar aqui, como antigamente, na 6ª seguinte à sua publicação no Actual.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

22 respostas a O rei, a virgem

  1. maria joão Vasconcelos diz:

    bem interessante……

  2. Henrique Monteiro diz:

    É o que dá ser casado com uma espanhola. Ó para mim…

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Bem se vê, bem se vê, que é um bem-aventurado, sempre a desdenhar das virgens. Não te metas em cruzadas contra os cátaros.

  3. maria jose diz:

    Sim o amor pode existir a esse ponto embora a febre tifóide ou similar mesmo nos dias de hoje nào se trate assim. Desconhecia ter decorrido um congresso do amor , mas muito e apraz que ainda se use tempo para assuntos, que em tempos de lixo comunicacional ninguém parece dar importância . Obrigada pela história que parece triste mas não é!

    • Manuel S. Fonseca diz:

      A história não é mesmo nadinha Triste. O amor é, às vezes, mas isso até nem é mau de todo.

  4. Que maravilha ter por amigo o Manuel Fonseca!

  5. Desde as actividades espirituais, ao locus do vermelho ferrari, ao anacronismo de Thierry Mugler, atchim!, passando pela avaliação do grau de real brandura e terminando nas pazadas de virgens, Manuel Fonseca, já me ri. Isto tem ritmo e está giro que se farta.

    Ah! e esperançoso, a espanhola em mim não é assim tão remota…

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Ah pois, Eugénia, tinha que estar cheio de ritmo, quase frenético. Sonhar com um milhão de virgens franceses põe qualquer um a delirar.
      Espanhola, a Eugénia? Não me vai dizer que é prima do Henrique, pois não? Explique lá isso, se faz favor…

      • Não me faça rir com os seus delírios de francesas virginais que me desconcentra: estou agarrada ao pc em trabalho escravo, com um olho na página em branco e o outro no lindo blog.

        Qual espanhola nem meio espanhola! Remota espanholice genealógica, mais judiaria do melhor acrescentada de adn dos lados da Finlândia por parte de pai e um cocktail e pêras do lado da mãe que também inclui uma tia mais que avó andaluza. O verdadeiro melting pot.

        Resumido e espremido: se fosse um cão, era rafeiro.

  6. mónica diz:

    fui ler o link, que dois se juntaram 😉 e que bela história!
    (a referência ao blow-up n percebi, só por ser em londres?)

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Mónica, isto é uma deriva maluca. Vale tudo. Até comparar a swinging London de Blow-up com a cidade saloia que Louis VIII terá conquistado.

  7. Maria do Céu Brojo diz:

    Estou orgulhosa, olá se estou! Porque sou Triste, mantive ar condigno. Por dentro, saltei como pipoca em tacho quente.

  8. nanovp diz:

    Uma verdadeira história de amor…as lágrimas só de rir, ou para quem as foi roubar à dita quinta…e se as meninas da cena “fast forward ” do Blow Up eram afinal virgens, então está tudo ligado…

Os comentários estão fechados.