Os cisnes

 

É onde vão morrer os cisnes que se juntam

os bagos que guardam ainda a cor antiga

de uma vindima esquecida, coisa

de retrato arrumado sem memória

que o fermente e o traga à mesa onde

se sentam os homens que regressam do mar

e erram as rotas da cidade, desabituados

de esquinas e de praças.

 

Onde vão morrer os cisnes

não é lugar algum, é a ausência de referente

que o torne reconhecível no grémio das palavras.

É num lugar indizível

que morrem os cisnes.

 

Acho que cantam, diz-se, mas isso alongava-me o poema

e eu não sei escrever poemas longos.

 

 

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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8 respostas a Os cisnes

  1. Henrique Monteiro diz:

    É bonito. Lembra-me a longevidade dos cisnes, que aprendi com Huxley em Também o Cisne Morre. É bonito!

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Se tivesse um lago também tinha cisnes.

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Cisnes, bagas, vindimas, retratos d’antanho, esquinas e praças. A minha fantasia e realidade num poema. Obrigada, Ivone.

  4. nanovp diz:

    Pelos vistos, os seus cisnes não morrem!

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