Os sonhos não puxam carroças

Os sonhos não puxam carroças,
disse o velho de voz acatarrada
e mãos reumáticas da enxada.

Serão peixe os sonhos?
Andarão no mar
em vez de fluírem dispersos
e invisíveis pelo ar?
Terão escamas e visco
para não se deixarem agarrar?

O velho cria vacas
que passam os dias a pastar
em pastos longe do mar.
Para ele, se calhar,
os sonhos são peixe.

Na madrassa onde ouvi
a doutrina, diz-se
que o sonho comanda a vida;
e que sempre que um homem sonha,
e deus quer, a obra nasce;
e que é sobre sonhos que se caminha
e quem não caminha sobre sonhos
definha parado, (talvez feliz coitado);
e que o poeta é um sonhador.
Sonhos e amor, sonhos e amor,
sonhos e amor. É do que falam.

Farto de poetas voltei ao pastor
e dei com o filho do velho,
que também guarda vacas
mas parece mais sonhador.
Perguntei-lhe se os sonhos são peixe?

Ele disse-me que não.
Que são grilos.
Grilos?
Porque não deixam a gente dormir,
disse-me.

Serão grilos?
Um incómodo agudo
que habita buracos
nas redondezas de nós?
Um cricador que se cala
quando chegamos perto,
mas que volta a apitar
assim que nos sente afastar?

Se calhar viver com sonhos,
e persegui-los,
é como tentar apanhar grilos.
Se calhar.

Em qualquer caso… os grilos
também não puxam carroças.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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10 respostas a Os sonhos não puxam carroças

  1. Maria diz:

    Puxam carroças sim senhor…
    Já vi um a fazê-lo!
    🙂

  2. fernando canhão diz:

    Disseram-me no outro dia, que até há uns anos os cascos, de dois dos Vauriens do Clube Lisnave, ainda estavam num arrumo ao ar livre das antigas instalações desse clube, na zona alta de Almada. perto de um infantário, ligado ao clube. Bons sonhos.

  3. vgrilo diz:

    Não puxo, não puxo e não puxo, já disse!!!

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    Já fui pastor, mas não guardei vacas.

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Um deleite. Estou com a Maria na convicção de que os grilos puxam carroças, assim deles ouvíssemos o canto na alma. A minha puxam com a certeza empírica da experiência feita.

  6. nanovp diz:

    Neste momento há que empurrar a carroça pela estrada a baixo, já nada a puxa, nem grilos nem os cavalos…

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