Os três impostores

KorTribfron

Há obra medieval quimérica, “De Tribus Impostoribus”. Moisés, Cristo e Maomé são os três impostores que o título anuncia. O livro não existe, tendo-lhe sido atribuídas as mais variadas autorias. Como diz Jorge Luis Borges, mais do que nas suas inexistentes páginas, o perigo (ou a virtude) estava nos nomes com que o revestiam. O que me trouxe à lembrança estas três histórias.

Um aviso: para se perceber tem de ser ler até ao fim. É uma grande seca, mas é o que se arranja.

Ben W. Jones

Ben W. Jones ganhara o coração do director das prisões do Texas e as mentes dos presos com que trabalhava. Em Huston, em 1955, vira o anúncio oferecendo um posto nas prisões do Estado. Apresentou-se, recheado de credenciais. Não só ganhou o lugar como provou estar acima dos objectivos. Não geria apenas rotinas. Criou um sistema de aulas e de práticas desportivas que levaram o Director Estadual das Prisões, O. B. Ellis, a convidá-lo para um lugar feroz, Huntsville, onde se amontoavam facínoras que as próprias mães tinham gosto em não voltar a ver.
Fiel aos métodos, Ben W. Jones começou com as aulas, passou ao desporto e acabou a mimar e adoçar aquelas almas empedernidas com a projecção de filmes, convertendo-os, por certo, em cine-clubistas militantes.
Teria sido a glória de Ben W. Jones se, exagerando, um dos presos não fosse também leitor dos atrasados números de 1952 da famosa e ilustrada “Life Magazine”. Em menos de um fósforo, a fotografia e o artigo deram lugar a uma reunião de emergência e à cara agoniada dos mais altos cargos da estrutura prisional. No fim, Ben W. Jones estava perdido e, tempo de fazer as malas, despedido e com guia de marcha.

 Martin Godgart

North Haven não é o lugar mais cosmopolita do mundo. Plantada no aconchego da baía de Penobscot, na costa do Maine, abrigava, em 1957, uma comunidade feliz, mais feliz ainda desde que Martin Godgart assumira as funções de professor de inglês, latim e francês.
Admirado como professor e estimado pelas boas maneiras, o “lovable professor” aninhara-se, definitivo, no coração da comunidade quando, sob o nome de Santa Claus, abriu uma caixa postal para receber os tradicionais desejos e “greetings”, a que respondeu com prosa nada tradicional, mas de uma elegância comovente e calorosa (“… dir-se-ia um autor do “Escrever é Triste”, foi o que disseram à Tia Escrever quando ela visitou North Haven), enviando presentes aos mais pobres. Numa manhã que anunciava alegrias primaveris, a polícia estadual irrompeu em North Haven. Uma hora depois partiam e, para espanto dos gentis habitantes, levavam com eles a figura simpaticamente arredondada de Mr. Godgart, cujas irrepreensíveis credenciais o sotaque de Harvard parecia confirmar.

Joseph Cyr

A mãe de Joseph Cyr talvez pudesse limpar uma orgulhosa lágrima ao ver o nome do seu filho, cirurgião, estampado como herói no jornal desse dia outonal de 1951.
A bordo do HMCS Cayuga, um destroyer canadiano em operações na guerra da Coreia, Cyr tinha operado, de urgência e em pleno deck, três coreanos, um dos quais com uma bala alojada junto ao coração, e tinha-os salvo.
Joseph Cyr apresentara as suas credenciais médicas à Royal Canadian Navy. As necessidades eram muitas e, numa antecipação dos actuais processos de licenciaturas por equivalência, fechou-se num dia o processo de admissão que antes levava meses.
Primeiro embarcado no HMCS Stadacona (e juro não ter sido coisa da minha perversa mente baptizá-lo assim) onde provou a eficácia dos seus testes psico-físicos com o pessoal, o doutor acabou transferido para o Cayuga. Mal chegara, teve de extrair um dente cariado ao comandante, o que fez com generosa dose de anestésico e a contento da autoridade máxima. Ficaram amigos. Discreto embora, o doutor Joseph Cyr era admirado por todos. Dava grande margem de manobra à sua equipa de enfermagem no tratamento dos ferimentos ligeiros, usava com liberalidade a penicilina quando algo mais complicado surgia. Não era por ele que HMCS Cayuga não navegaria, imperial, ao longo da costa asiática.
É verdade: descia aos seus dignos aposentos e fechava-se, angustiados minutos, antes das intervenções mais sangrentas. Assim fora com a cárie do almirante, assim foi com o estado grave dos guerrilheiros coreanos que tinham tentado assaltar o navio. A tripulação via nessa descida do cirurgião aos seus aposentos, uma imperiosa necessidade de concentração.
Com rigor canadiano, dois repórteres de guerra, nos respectivos jornais, contaram tudo isto que ouviram, a “open deck surgery” a que assistiram e, uma semana depois, a visita do cirurgião aos seus pacientes, em franca recuperação em terra.
A mãe de Joseph Cyr leu impressionada o artigo épico. Joseph Cyr era seu filho, era cirurgião e estava há mais de um ano num hospital de Grand Falls, New Brunswick, o que um urgente telefonema confirmou. “Juro que o meu filho não tem o dom da ubiquidade” terá a chorosa mãe dito ao Estado Maior. Quando James Plomer, comandante do Cayuga, recebeu a notícia, deitou o telegrama para o lixo, recusando acreditar na intriga. No dia seguinte, a cadeia de comando impôs-se. O espantado Dr. Cyr seguiu, preso, no cruzador britânico RMS Ceylon

Os três impostores

Ben W. Jones, Martin Godgart e Joseph Cyr convergem os três na figura simpática e gorda, mas não excessivamente gorda, de Ferdinand Waldo Demara, que tinha como Fernando Pessoa a vocação da heteronímia, fingindo deveras o que na verdade sentia. Fazia, através da pura fruição da impostura, o que Pessoa fazia em verso ou desassossegada prosa.
Na sua “aventura maior”, Demara furtara as credenciais do verdadeiro Dr. Cyr, que conhecera em Grand Falls quando fazia noviciado num mosteiro local. Não tinha estudos médicos, a menos que ser pouco mais do que varredor num hospital americano durante poucas semanas sirva de curriculum. Demara confiou na penicilina, na juventude e boa aptidão física dos seus pacientes e numa extraordinária capacidade de memorização visual, que era o que o levava a descer ao seu camarote para ler em velocidade os manuais médicos de que se munira para a aventura. Depois valeu-lhe a audácia e uma divina dose de sorte.
A sua vida é um rosário infindável de “personae”. Nasceu em 1921, foi várias vezes monge (uma delas trapista, outra beneditino), psicólogo, engenheiro civil, adjunto de xerife, advogado, editor, desaparecido em combate, suicida com sucesso, investigador do cancro. Tudo isto forjou, tudo fez com mil nomes e credenciais irrepreensíveis que conseguia misteriosa ou habilmente obter.
Milagrosamente, nunca prejudicou ninguém a não ser a si mesmo quando, com uma pontinha de vaidade, aceitou ser figura do artigo da “Life” que tornaria mais arriscadas e efémeras as suas “vidas” posteriores.
Todos os directores, comandantes, reitores a que enganou, juraram que o voltariam a contratar de novo, de tanto terem apreciado os seus serviços. No site do Korea Veterans Association of Canada contam, e eu acredito, que os homens do HMCS Cayuga lhe mandaram um gigantesco cartão de natal com a fotografia do navio e o poema “Loyalty”, de Berton Bratley, sublinhando este verso:  “He may be six kinds of a liar, but I love him, Because he is my friend.
Foi imortalizado no filme “The Great Imposter” (fez dele Tony Curtis), e na canção “Ferdinand, the imposter”, de The Band. Como impostor, foi as outras pessoas todas que quis ser. O que nunca conseguiu foi ser ele-mesmo. Não tinha jeito.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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8 respostas a Os três impostores

  1. Henrique Monteiro diz:

    Olha, Manuel, tu és um portento. Juro! Acho mesmo. Sem ironia. Eu sei que hoje é difícil elogiar, poque manda a turba que sejamos todos iguais, ou mais ou menos, e que aqueles que não são inteligentes tenham, pelo menos, inteligência funcional, ou emocional ou tal e qual, mas eu digo isto de ti sem reserva, sem mas e sem condições. Porra! Há escritores que me deixam assim, mas não esperava tanto de ti. A última frase é fantástica….
    Já te disse que gostei?

    • Henrique, deixaste-me, digamos, entre o encafifado, o encavacado e o encalistrado. Ou seja, não há tribunal que não te obrigue a casar. Vai preparando a pensão. E a partir de hoje acabou-se essas coisas que andas a fumar.
      Thanks man.

  2. Pois eu, ao contrário do Henrique, não espero outra coisa de si.

    Está ver, Manuel Fonseca, como é um escritor resistente?! Quantas vezes é que tenho de lhe falar no raio da souplesse?! Num diabo de um mundo onde toda a gente é escritor, principalmente quem jamais será, tinha de vir você armar-se em original e resistir à escrita e a ser escritor – que nervos que me dá!

    Quem é que tem razão? Eu. Havia de ser tirana para o obrigar a escrever um romance em condições, daqueles que dizem que estão em extinção.

    Ps: se me reponde com a treta das bondades e das generosidades, não lhe falo mais.

    • Mas eu algum dia disse que a Eugénia era de bondades e generosidades? Se até lhe sai fogo pelas narinas. E ainda bem que não se meteu na política, dava uma Estaline que até os museus, as bibliotecas e esses delicados miminhos iam de rojo…
      Thanks, dear lady.

      • É que é preciso fazer gosto em implicar comigo! Já me chamou cavalo nervoso; cobra falsa e agora para rematar, zás, dragão estalinista – se ainda fosse águia ou, vá, papoila…

        É impressionante a sua incapacidade de dizer uma coisinha boa a meu respeito. Vou apontando. Just you wait lailai just you wait, you`ll be sorry lailai too late…

  3. mónica diz:

    uma espécie a estudar..

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Ainda não tinha lido. Vou digerir gostosamente, I think!

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