Oscars, a ressaca

jennifer

É verdade que fui provocado. O Leonardo Ralha do “CM”, a propósito dos Oscars, fez-me meia-duzia de boas perguntas a que eu dei outras tantas Tristes respostas. Bem sei que o PMS já falou do que interessa – não tanto de quem ganhou, mas de quem, se houvesse justiça e poesia neste mundo, deveria ter ganho. Ainda assim, e até pelo que me fizeram – sim, a mim e a ti, Steven, meu irmão – vamos lá dizer porque é que a Academia, jarreta, é o que é.

Como se explica o domínio do Drama entre os filmes premiados?

Os Oscars existem desde 1927, quando Hollywood era uma terra árida e o negócio do cinema ainda andava à procura de legitimação artística. A comédia lembrava os mudíssimos primitivos e cómicos nickelodeons. Era um passado vergonhoso que a família empurrava para debaixo do tapete. O drama aproximava do teatro e da dignidade que fazia dele uma arte. Lembra-se de Singin’ in the Rain? dignity, dignity, dignity.

Apesar de a esmagadora maioria dos vencedores do Óscar de Melhor Filme serem produções de Hollywood, menos de metade têm a acção a decorrer nos EUA. Isso parece-lhe propositado?

Propositado não, mas lembro que: 1. Grande parte do pessoal que fez Hollywood era imigrante. Judeus que vieram da Russia, realizadores alemães e o diabo a quatro, uns austríacos geniais e um ou outro trânsfuga francês. Trouxeram com eles o sarro da miséria, a saudade e as histórias. Era as que os avós e os pais deles sabiam e lhes contavam. Contaram-nas eles outra vez 2. Sempre houve um sonho cosmopolita na parolice que era Los Angeles. Paris era o sonho de todo o americano antes de ser o de Gene Kelly, era a aventura artística e romântica. Se a Europa era (e ainda é) exótica aos olhos americanos, imagine-se a China e a Índia e o Japão.

Há duas vezes mais vencedores do Óscar de Melhor Filme protagonizados por um homem do que por um homem e uma mulher, mas são raríssimos os que têm uma ou mais mulheres como protagonista. A Academia de Hollywood é machista?

Dos 5.765 tipos que votam para os Oscars a esmagadora maioria são homens, dos quais 54% têm mais de 60 anos. O interesse deles em mulheres estará provavelmente a começar a declinar e o interesse no seu género, na pedra nos rins, na próstata, nas doses certas de Viagra e Cialis, atinge as raias da obsessão. É uma explicação mais justa do que o ideológico machismo.

– Desde 1970 há tantos vencedores de Óscar Melhor Filme baseados em livros quanto em argumentos originais. A sétima arte está a libertar-se da literatura e do teatro?

Desconhecia essa estatística. Mas julgo que os filmes estão sobretudo condenados a fórmulas que agradem ao seu público maioritário, tipos com menos de 25 anos. Ora, com um som que rebenta com os ouvidos e num 3D que já nenhum oftalmologista consegue corrigir, para pôr aos pulos a testosterona de putos teenagers não se vai lá com literatura. Além de que há mais scripts nos caixotes do lixo de Brentwood, Mulholand Drive e Santa Monica do que livros, essa espécie em extinção, em livrarias, se é que o conceito de bookstore ainda se aplica a Los Angeles.

– O típico papel de Melhor Actor é um militar ou polícia, seguindo-se os políticos ou monarcas. Ser uma figura de autoridade é meio caminho andado para o Óscar?

Outra estatística que desconhecia e de que desconfio. Sempre pensei que meio caminho andado fosse ser autista, aleijadinho e outras deficiências que autorizassem o actor a ter o nariz na nuca e a rebolar os olhos. Mas se calhar estou enganado.

– Pelo contrário, o típico papel de Melhor Actriz é uma doméstica ou herdeira, seguindo-se as artistas e depois as prostitutas. Como se explica o fascínio da Academia pelas mães, boémias e mulheres da vida?

Mães à parte, que mãe há só uma, não estranho e coincido com Hollywood no fascinio. O fascínio de Hollywood por estas figuras terá razões elegantes, sentimentais e cívicas, as minhas nem às paredes as confesso.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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15 respostas a Oscars, a ressaca

  1. Fez bem! Dê-lhes sem piedade, meu rico Lincoln… se não fosse a canção das maminhas e aquela gracinha dos Von Trapp nem ao apresentador perdoava a desfeita.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Eugénia, bora lá formar uma frente unida contra os jarretas hollywoodinaos. By the way, que é isso da canção das maminhas? Não vi os Oscaras, não sei nada…

      • Escrever é Triste diz:

        É uma coisa de rapazes para as meninas maminhas: está aqui. A minha Eugénia não sabe linkar vídeos do lado de lá, e não ia deixar um sobrinho na ignorância.

        Ps: notou que nem ligou à gracinha dos Von Trapp? É para que saiba que sou uma Tia, vá, omnisciente.

  2. Henrique Monteiro diz:

    Boas respostas, o que não me surpreende. Fiquei abismado, sim, foi com a inovação e qualidade das perguntas.

  3. mónica diz:

    e depois dos oscares…. há sempre quem se dedique a discutir o sexo dos anjos

  4. Deixa lá, os Óscares são apenas uma cenoura que se mete na ponta de um pau para aumentar o consumo de indústria cinematográfica americana entre os povos subdesenvolvidos (que se fascinam pelo brilho porque vivendo na tal caverna do Trindade dos Santos). Os que deveriam ter ganhado nem estavam a concurso.

    Agora, é muito estranho ver um desacordista escrever “ter ganho”, e não “ter ganhado”, expressão mais correta, é por causa dos desacordistas que temos o Acordo Ortográfico, preguiçosos, não pronunciam as letras todas, não dizem adopeção, inaquetivo, aquetor, depois as letras caem e é uma choradeira “ai minhas queridas letras”, assim não defendem a língua do Camões. Façamos um favor à língua:

    http://www.youtube.com/watch?v=zI-7UF9zjLA

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Ó meu gramático Taxi, olha que tendo tu muita razão (não na história de cenoura e do consumismo que é demasiado básica para o alto nível desse teu magnífico cérebro) quanto ao uso das formas regulares do partícipio passado com o verbo ter (e das irregulares com o verbo ser), as gramáticas aceitam a excepção do verbo ganhar, pagar e gastar, permitindo que com o verbo ter, se use a forma regular ou a irregular. Dito isto, hás-de encontrar na minha prosa muito mais calinadas do que essa: eu sou tarantas apressadinho. Zero em ortografia é o que é.

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Fiquei elucidada. Perguntas e respostas no ponto certo.

  6. nanovp diz:

    A solução seria fazermos a nossa propria Academia, e não acredito que fosse consensual…

  7. curioso (F---) diz:

    a rimar com o título, e a reforçar a proposta lógica do BVP, aquela oscarizada lá de cima, provou ali o que vale, sem fitas:

    Provocada pelos fotógrafos, Jennifer Lawrence fez-lhes um gesto obsceno com a mão. Quando percebeu que tinha sido apanhada e que a imagem iria correr mundo, já era tarde…
    A cerimónia dos Óscares vai ser inesquecível para a atriz Jennifer Lawrence. Se não bastasse o facto de ter ganho a estatueta de Melhor Atriz pelo filme “Guia para um Final Feliz”, a jovem protagonizou uma série de momentos que ficarão registados na história.
    O primeiro foi a queda que deu quando subia ao palco para receber o Óscar.
    O segundo foi logo a seguir aos agradecimentos. Numa sala onde estava a ser fotografada com a estatueta na mão, a atriz deixou-se provocar pelos fotógrafos que a lembraram do incidente anterior e a avisaram para ter cuidado e não voltar a cair.
    Inocente e impulsiva, a jovem de 22 anos levantou um dedo para o batalhão de fotógrafos que tinha à sua frente, sem sequer pensar que a cena iria ficar registada e… correr mundo.
    Quando caiu em si era tarde de mais. “Desculpem-me. Eu bebi um shot antes… desculpem”, reagiu.
    Jennifer Lawrence admitiu ainda que, ao cair quando subia a escadaria para receber o Óscar só pensava numa coisa: a palavra começada por F.

    PDA: Pura deformação artística? 🙂 🙂 🙂

  8. Boas perguntas, melhores respostas. Gostei.

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