Para dizer merci ao caro Henri

Aqui há uns tempos, deu-me uma veneta e fiz um alfabeto feminino inteiro: a cada letra correspondia uma mulher da história, da literatura, da imaginação, do cinema, enfim, de onde surgisse. Por regras só as da tirania: que o texto coubesse numa página A4, e no resto as que me parecessem bem. Ora biografia, ora sonsice biográfica, coisa completamente inventada, uma vergonha, ora ficção; ora monólogo, diálogo, narrativa, ou como diz o outro: um calhar. Umas com introdução, a maioria sem. Umas saíram mais felizes do que outras – como na vida.

O amor de Tristão e Isolda, que alguns radicam em Uis e Ramin, transbordou dos personagens que se construíram para o representar, evoluiu para a Matéria de Bretanha e, amplamente difundido desde a idade média, fez-se mito fundador e sempre fundante de uma cultura amorosa ocidental, nosso próprio tecido amoroso, organizado num eixo religioso e social de transgressão ainda hoje transgressora, pois se as margens do permitido alargaram o leito dos amantes, nem por isso deixaram de estreitar o valor romântico do amor.

Haveria outros comentários que fazer, de outra natureza: não põem, Tristão e Isolda, explicitamente em causa uma certa ideia, obscurantista, de idade média? E a evolução da representação de Isolda no desenrolar do tempo, não revela que mulher foi a mulher ao longo desse tempo na estrutura transitada do matriarcado para o patriarcado? Há ou não a exaltação do amor adúltero, mesmo aos olhos do divino? Haveria outros, tantos, comentários a fazer, mesmo formais, a partir das distintas autorias do mesmo romance. Mas esta letrinha é só o monólogo pequenino que é: E.

(Para quem  esquece de lembrar: Tristão, guerreiro de grande valor, sobrinho de Marco, rei da Cornualha, a mando deste, vai à Irlanda buscar-lhe Isolda, princesa, para consorte. Desde então, e por três anos, vivem, Tristão e Isolda, um amor ilícito e, ao fim, mortal. Na agonia, Tristão espera Isolda, acompanhado de sua mulher, Isolda também. O sinal de que ela vem a caminho são as velas brancas no veleiro que a transporta, seriam negras, se ela não viesse nele. A mulher mente-lhe, diz-lhe que são negras. Quando chega Isolda, Tristão está morto e ela morre dessa morte.)

EESSYLT  DE DRYSTAN E DE MARCH TAMBÉM

Essylt sabia: não voltaria a ver Drystan em vida. Sabia com a certeza com que sempre se sabe o que não tem como saber-se, uma certeza das entranhas, o aperto abaixo do estômago já amarfanhado, o coração quieto de morte e a cabeça a mentir-lhe esperanças: sabia que não chegaria a tempo, nenhum branco de velas sinalizador do seu sim, estou aqui, o salvaria, nenhum vento nelas a faria chegar a tempo, não estava lá, ao lado de Drystan outra Essylt, a das Mãos Brancas e rancor negro como as velas da mentira, e esta era a verdade, outra ao lado dele, não ela. Não voltaria a ver Drystan em vida, nem havia vida sem Drystan. É tarde demais depois da hora passar e a hora passara. Como?

Agora que o último dia descia sobre ela, e consciência de ser o último descia com ele, a lucidez, garra de sol à volta da garganta, que desgosto, que desgosto, impossível nó de claridade, irrespirável dor, porque se conformara? Porquê? Não é a iminência da morte uma sombra nos dias? E não anda sempre a sombra na luz de alguém? Porque a negara até que crescesse para a engolir de escuridão? Quando chegasse, Drystan havia de esperá-la já na morte e ela iria. Então, porque não fora em vida? Porque esbanjara o amor, não de amá-lo, mas de reduzi-lo às sobras que da toalha caem para os cães?

Tão jovens, os dois, tão amantes, toda a felicidade que o corpo oferece, colhida para dar de beber à paixão. Essa, a paixão, e nada mais, era a poção antiga, o elixir amoroso que ambos tomavam, pois que é o êxtase se não for, pelo corpo sair do corpo, encontrar a alma e regressar, sabendo que não há um que não seja dois, nem dois que um não seja? Que interessava a cruz? O Cristo, a igreja? Isso era lá fora, no mundo, e Deus esquecera-se deles. Prova maior? Não havia: não estava ela casada com March e não estava ele casado com Essylt? Mãos Brancas… a casta Essylt das Mãos Brancas, casta de intocada contra a própria vontade. Que brancura é essa onde nenhum desejo da carne se sublimou em pombas, só secou em direcção ao osso?

E March? E March? Também não voltaria a vê-lo, se alguma vez vira aquele homem admirável, um rei justo, bom amante, apaixonado. Nada tremia? Ou seria outro amor, de tão distinta natureza que nem pelo nome de amor o conhecera? E se antes de March não tivera conhecido Drystan, que coração seria o seu? E de onde lhe surgiam ininterruptas, rápidas tanto quanto o mar era lento na travessia, estas perguntas e mais mil por enunciar, ondas onde submergia para se afogar: o que é o amor? Para quê amar?

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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3 respostas a Para dizer merci ao caro Henri

  1. Henrique Monteiro diz:

    Merci digo eu. E muito

  2. Isolda com Isolda se paga. Fun!

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