Pardon my french: chapeau!

Francis Bacon. Estudo do Papa Inocêncio X

Francis Bacon. Estudo do Papa Inocêncio X

 

 

1 –Joseph Ratzinger, o «cardeal panzer», o todo-poderoso perfeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o grande inquisidor do Vaticano, o rottweiler de Deus, nunca gozou de boa imprensa. É um eufemismo. Nem – não sejamos excessivamente hipócritas – alguma vez terá gerado grandes simpatias. Mesmo em boa parte dos meios católicos. A sua fama precedia-o e antes de o ser, como a pescada, já na verdade o era. Estava escrito nas estrelas, antes ainda de o fumo branco se dissipar na capela sistina, que seria um papa austero, conservador, ortodoxo, reaccionário. Com um estilo gélido, nos exactos antípodas do seu simpático e popular antecessor, escandalizou o mundo mais progressista com o célebre discurso de Ratisbona; quando catalogou o casamento de divorciados como uma «chaga social»; quando, sem papas na língua (foi mais forte que eu e não resisti ao trocadilho) atacou violentamente a cultura «gay»; quando estendeu a mão aos bispos de Lefebvre; quando sugeriu que o preservativo agravava o problema da sida. É difícil, convenhamos, imaginar catálogo de afirmações mais politicamente incorrectas ou ementa mais indigesta para as consciências mais liberais. Ou ainda um discurso mais teimosamente erguido contra o ar dos tempos. Mas o que é facto é que o homem sempre pareceu encontrar um especial prazer na provocação arrogante. E nem a sua aura de intelectual, frágil parede atrás da qual alguns se esforçaram por defendê-lo, o terá impedido de suscitar antipatias epidérmicas um pouco por todo o Mundo.

Ora, ele há paradoxos que verdadeiramente não lembram ao Diabo. E a verdade é que o acto de renúncia de Bento XVI, para além de uma decisão de uma corajosa lucidez, para além de um sinal de comovente desapego, é provavelmente o gesto mais crístico de um Papa de que tenho memória. Tenhamos, nós também, ateus, agnósticos e demais ovelhas tresmalhadas, a humildade intelectual de reconhecê-lo. Pela minha parte, e pardon my french: chapeau!

2 – Mas se renúncia do Papa tem um inegável simbolismo ético, não deixa de ter um profundo significado político. Bento XVI era, é bom não esquecê-lo, Chefe de Estado. E não se trata exactamente de um Estado qualquer. Ritualista, tradicionalista, conservadora por vocação e por necessidade, a Igreja sabe bem que é também ou é sobretudo com o culto dos símbolos que se garante na terra, senão a vida eterna, pelo menos uns bons séculos de poder temporal. Ora, ao romper com uma tradição política com 600 anos – e digo tradição política porque é de política que agora importa falar – o Papa não deixa de lançar um poderoso e eloquente sinal aos seus homólogos mais terrenos. Pois se até o Papa aceita apear-se do trono de São Pedro em nome do interesse geral do seu rebanho…

Ou muito me engano, ou em Luanda, em Madrid, em Londres ou em Havana, por motivos muito diferentes, com contornos muito diversos, paira no ar uma sensação incómoda. E há muito boa gente com as orelhas a arder. Estou a sonhar ou será que já oiço, ao longe, numa voz sumida, alguém que clama: ovelhas de todo o mundo, uni-vos?

 

Publicado na Visão de 21.2.2013

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.

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27 respostas a Pardon my french: chapeau!

  1. Ivone Costa diz:

    Chapeau, Pierre, também ao texto.

  2. JP Guimarães diz:

    Meu querido amigo, como imaginas gostava muito deste Papa. Mesmo antes de renunciar… Aliás, é extraordinário como a renúncia o tornou tão “simpático” para tantos que sempre o acusaram e nunca perceberam. Em tempos marcados por um relativismo moral usado (e abusado) por todos e ao (belo) proveito de cada um, foi muito importante alguém afirmar e defender certos valores de forma clara e definitiva. É esse o papel de um líder e, em particular, de um lider espiritual. Ainda a propósito deste tema – e quando tanto se fala nos prováveis sucessores – sugiro-te a leitura de um texto de Nicholas Farrell, na Takimag, intitulado “Praying for a Black Pope”. Um abraço, JP

  3. Rita V. diz:

    belo post
    já não ouvia dizer ‘chapeau’ há muito tempo

  4. nanovp diz:

    Pois muito daquilo que parece ser não o é, e João Paulo II conseguiu passar como menos conservador, não o sendo na realidade. Resta saber como lembraremos este Papa. Se for só pela carta que escreveu aos bispos da Irlanda, (no auge da tragédia da pedofilia no interior da Igreja), inédita nos procedimentos da “Santa Sé”, não seria uma má imagem, para quem nunca terá conseguido libertar-se da imagem de “rottweiller” germânico…

  5. mónica diz:

    na minha opinião engana-se muito, safa-se a imagem do bacon muito a propósito, “le cri du pape”, um homem solitário e triste que desiste daquilo que estava incumbido. quem nos dera ter a liberdade/felicidade de poder escolher desistir. bacon forever 😉

  6. curioso (mais papista) diz:

    não seria perfeito… mas prefeito?

    não seria senão… mas se não?

    não seria panzer nem rottweiler (de Deus?) nem crístico (?) mas cristão?

    e de quantos Papas tem, de facto, memória?

    para divagar menos, vejamos mais a história (política):

    Em 1045, o Papa Bento IX renunciou, contra uma vantagem financeira, ao papado. O Papa Gregório VI, seu tio, para livrar a Igreja de Bento IX, convenceu-o a renunciar e tornou-se seu sucessor. Gregório VI demitiu-se em 1046, porque havia concluído acordo com Bento e tal era considerado simonia. O sucessor de Gregório, o Papa Clemente II, morreu em 1047 e Bento IX tornou-se papa novamente.

    O exemplo mais conhecido de renúncia de um papa é a do Papa Celestino V em 1294: depois de apenas cinco meses de seu pontificado, ele publicou um decreto declarando solenemente que permite que um papa renuncie o cargo, em seguida, fez-se. Ele viveu dois anos como um eremita e mais tarde foi canonizado. O decreto papal emitido por ele levantou dúvidas entre os canonistas sobre a possibilidade de uma renúncia papal válida.

    O Papa Gregório XII (1406-1415) renunciou para acabar com o Grande Cisma do Ocidente, que havia chegado ao ponto onde havia três pretendentes ao trono papal: o Papa Gregório XII, o antipapa romano Bento XIII do Papado de Avinhão e o antipapa João XXIII do Conselho de Pisa. Antes de renunciar, formalmente convocou o Concílio de Constança e permitiu que este elegesse o seu sucessor.

  7. Panurgo diz:

    Isso de dizer que a aura de intelectual do Papa é uma parede frágil é um bocado puxado. De facto, como é mais que lógico, o que se espera dum Papa é que seja heterodoxo. Ou que, ao invés de a conservar, destrua a Igreja. Já agora, como é que o homem foi reaccionário se, que eu me lembre, não ocorreu nenhuma tentativa de revolução na Igreja? Como é que causou polémica o seu violento ataque à «cultura(?!) gay»? (Pobre Aristófanes!) Ou o seu discurso em Ratisbona? Houve alguma discussão entre a Filosofia e a Teologia causada por aquelas palavras? Não me recordo. O homem não sugeriu, ele afirmou que o preservativo agrava o problema da sida em África. Não só não foi contestado, como até secundado na afirmação, que é, no máximo, óbvia. Lefebvre? É muita Teologia para a minha camioneta.

    Deixemos isso. Você encontra um paradoxo num acto lúcido que é ao mesmo tempo cristão (crístico está mal empregue – mas não deixa de ser curioso um ateu, ou agnóstico, utilizá-la). Eu não vejo paradoxo nenhum. Para o haver, teria de se assumir que um cristão é um louco, pelo menos. Os gregos emprestaram ao cristianismo uma palavra que resume a resignação do homem: kénosis. Não mandou nenhum sinal a esses badamecos de Lisboa, ou de Luanda. Porque o Papa é o elo entre a terra e o céu; os badalhocos da democracia são os representantes ao cimo da terra daquilo que de mais sujo há ao fundo do esgoto. Nada que Dionísio Aeropagita não tenha notado. Basta ver que é malta que tem sempre muito boa imprensa.

    O cardeal Ratzinger é um homem admirável, corajoso, justo, digno, e também um dos mais brilhantes eruditos do nosso tempo. Quando comparados a ele e à obra que nos deixou, não temos humildade intelectual nenhuma: temos miséria. Por mim falo.

  8. Maria do Céu Brojo diz:

    Antes do fumo branco sair da chaminé, já o percurso rígido do Car­deal Rat­zin­ger era conhecido enquanto prefeito da “Congregação para a Doutrina da Fé”. Nada augurava de bom para o mais forte candidato a Papa.
    Anunciada a escolha, recordo-me do meu desgosto e de muitos católicos. O que viria a seguir deu-me razão. Católicos houve que se afastaram da Igreja. Talvez com esta decisão papal, e como o seu texto magnificamente aponta, a resignação seja a remissão de Bento XVI.

  9. Pedro Norton diz:

    merci, Ivone.

  10. Pedro Norton diz:

    eu já calculva Dr. Vou tentar encotrar o texto.

  11. Pedro Norton diz:

    obrigado Rita.
    ps: não me stá a chamar velho, pois não?

  12. Pedro Norton diz:

    é cedo para fazer esse balanço.

  13. Pedro Norton diz:

    Credo Curioso! Você tem uma professora primária reprimida dentro de si.

    • curioso (primus) diz:

      porque não professor? e porquê reprimido? professor primário é pouco in?

      o saber e o rigor são primários, sim, servindo de alicerces a actos mais elevados.

      incomoda (-me), mesmo só com tripas reprimidas cá dentro, que se troque perfeito por prefeito e não nos diga de quantos papas tem memória 😉

    • curioso (pedrada) diz:

      e já que insiste no crístico, o que pretende precisar?

      crístico diz respeito a Jesus Cristo. o Papa não tem que ser crístico, não pode ser crístico. o papa é ‘pédrico’ (sucessor de Pedro).

  14. Pedro Norton diz:

    Caro Panurgo,
    Você não vê paradoxo porque está a procurá-lo no sitio errado. Onde é que eu digo que o que é paradoxal é ser critão e ser lúcido?
    O que eu disse – e repito – é que é paradoxal que um papa, tido por muitos por arrogante (com gosto pela «provocação arrogante» foi a expressão que usei), seja capaz de um gesto de tão grande humildade «crística» (e não apenas cristã).
    Quanto ao mais, agradeço-lhe – sem ironia – o comentário. Aprendi o sigificado de kénosis. Mas aconselho-o a revisitar as suas certezas cientificas sobre o preservativo.

    • Panurgo diz:

      Disse-o aqui: «para além de uma deci­são de uma cora­josa luci­dez, para além de um sinal de como­vente desa­pego, é pro­va­vel­mente o gesto mais crís­tico de um Papa de que tenho memó­ria» – ou eu interpretei mal, o que é costume. Todavia, se é no «tido por muitos…» que está o paradoxo, volto a não encontrá-lo: quem são, ou foram esses muitos? Um bando de analfabrutos ululantes, que consideram a beleza e a inteligência uma provocação ao seu mundinho de ruminantes. Mas já que estamos no Paradoxo, local onde o mestre Agostinho da Silva dizia para nos instalarmos e amá-lo, deixe-me citar, bem a propósito do carácter político da resignação, Michel Henry, num capítulo intitulado “Paradoxos do Cristianismo”.

      «One mode of appearing, that of Life, makes the former (reality) possible; another one, that of the world, its counterfeit. So Christianity does not turn values upside down; on the contrary, it assigns them their unquestioned place. In granting values of Life, it withdraws them from the world. By the same token, it distinguishes two fundamental values, or rather, fundamental value and the place of all values, on one side and, on the other, counter-value and the foundation of all counter-values. Truth and Life versus Lies and the world. This is why Christ says: «You are from bellow; I am from above. You are of this world; I am not of this world». He says: «I», meaning Life and Truth, and «the world», meaning the counterfeit, life, hypocrisy. «I, the Truth, Life»: Life’s self-revelation, wich is Truth, is accomplished in the ipseity of the First Living, in this Me that is Christ.»

      Ou como um amigo meu tão bem escreveu:

      «quão tamanha é a dor não cantada. tê-la e à impotência de a exprimir. a insuficiência de ser. o herói anónimo, sem ser cantado, dirá «não sou nada». nem à vingança de Virgílio lhe é dado o direito, nem será acusado como David pelo pecado com Betsabé.

      restará apenas a justeza ou maldade no próprio âmago, com a voz única do autor incapaz como penitência. e com a dor do silêncio, sem epopeias que sejam amadas, louvadas, estudadas e estimadas. a sua dor não será aliviada pela apropriação de outros que sofram dela façam. o peso será sempre só seu para suportar.

      e carregam o mundo sem serem chamados Atlas, sem a honra do seu caos ser designado, vergados pelo peso da vergonha anónima.»

      Volto a insistir, embora já o tenham feito; não por teimosia, mas porque o poder das palavras significarem o que nós queremos é exclusivo do Humpty Dumpty ehehe. Você não pode utilizar a palavra crístico para definir um acto de um homem – há uma excepção: o Baptismo. Achei – sem ironia – curioso que um ateu a usasse. Não percebo muito de Cristologia, mas, se me permite, consulte os trabalhos de Schaff, Harnack e Dorner sobre o tema. É interessante, até.

      A única certeza científica que tenho sobre o preservativo, ganhei-a ainda pequeno, quando brincava de triciclo, sempre sem capacete. É muito melhor, não é? Sobre o que o Papa disse,

      http://www.bbc.co.uk/blogs/ni/2009/03/aids_expert_who_defended_the_p.html

      Podemos é fingir que a miséria não é um excelente negócio para essas máfias das ONG.

      Nunc dimittis servum tuum

      • Pedro Norton diz:

        Se bem percebo a tese científica pode portanto ser resumida da seguinte forma: se não queres cair do triciclo, o melhor é não andar de triciclo. O capacete confere uma falta sensação de segurança pelo que pode aumentar o risco de acidentes de triciclo.
        A lógica é impecável, caro Panurgo. Mas não conta com um irritante detalhe: às vezes assalta-nos uma irreprimível vontade de andar de triciclo!

  15. Pedro Norton diz:

    Mónica, se calhar engano. Mas acompanho-a no bacon forever.

  16. Pedro Norton diz:

    Caro Curioso,
    O primário, está bem provado, sou eu que dou erros de palmatória. Não vale a pena gastar saber universitário comigo. O género fica inteiramente a seu gosto. O reprimido, se ofende, retiro.
    No crístico é que insisto. Porque não pode existir um gesto crístico?
    ps: quanto aos papas, é uma questão de fazer as contas. São mais do que eu gostaria.:)

  17. curioso (habemus chapeau) diz:

    sendo a escolha do género uma opção que me deixa, por duas ordens de razão deixemos a/s professora/s em paz (e em bom pé de igualdade).

    quanto ao crístico, que muitos bons cristãos não gastam, não há qualquer fundamento para o uso que aqui lhe está a dar, pois faz dele a charneira do tal paradoxo (que não lembra ao Diabo): dum lado existe ‘uma decisão duma corajosa lucidez’ (que não tem que ser corajosa, basta que seja lúcida) ‘para além de um sinal de comovente desapego’ (que não é sinal nem comovente, basta que seja desapego) e do outro ‘pro­va­vel­mente o gesto mais crís­tico de um Papa de que tenho memó­ria’.

    não há naquele gesto (?) nada de crístico: Cristo nunca teve um acto de renúncia. conhece a história?

    decisões lúcidas, decisões corajosas, actos de desapego, sinais de amor (humanismo) comoventes, de acordo com a sua lógica, seriam também valores crísticos, mantendo-se a completa coerência papal, por muito paradoxal que lhe tenha parecido.

    espero ter ajudado, no primário e no secundário, a caminho do superior 😉

    • Pedro Norton diz:

      Caro Curioso, a conversa vai já longa mas não resisto. Renunciar à vida parece-lhe coisa pouca?

      • curioso (gnóstico) diz:

        quando há kenosis já não é à vida que se renuncia: “faça-se em mim segundo a Tua Vontade”. é uma oferta por uma causa maior.

        “Os primeiros cristãos da era apostólica viviam esse conceito de auto-esvaziamento. … Foi também por causa deste conceito enraizado no coração e na mente que muitos perderam suas vidas na pregação do evangelho, pois mesmo diante das ameaças de morte, não poderiam deixar de falar Daquele para quem eles viviam.” e não eram Papas!

        se conseguiu resolver o paradoxo, a conversa valeu a pena 😉

  18. Óptimo post. Mas porque não acrescentar Lisboa às capitais mencionadas (sobretudo Londres e Madrid)? Ab

  19. Panurgo diz:

    Agradeço a sua disponibilidade em me responder, e abençoada seja a sua Vontade. Que nunca lhe falte. Nem triciclos 🙂

    Agora, não pode é constatar falhas em algo que não possui lógica, como é o caso da Ciência, que não existe enquanto tal, enquanto Ciência. Isto é, a Ciência não possui elementos próprios de modo a constituir em si uma Harmonia, ao contrário da Matemática, da Filosofia, ou da Teologia. É assim que fomos deixados por Aristóteles no livro Delta da Metafísica, e de lá ainda não saímos. Não deixa de ser divertido olharmos para os grandes teóricos da economia, ou para manuais patetas de gestão, e verificarmos a estupidez involuntária que pulula pelo Ocidente.

    Isto conduz-nos ao caso em questão. Antes de um homem olhar para o mundo, ele olha primeiro para si próprio. Se ele olha para si e para o seu corpo como semelhante a um deus (os heróis de Homero são assim descritos), o interior do homem, o seu espírito, mora ao lado dos deuses, nas altas montanhas, nos céus. O que está em causa nesta pseudo-polémica é um modelo de homem, uma nova ontologia, se quisermos. De nova não tem nada, já leva cinco ou seis séculos, diga-se. O Papa opõe-se a esta noção em voga de que um homem pode ser traficável, negociado – isto é, que ele pode ser definido apenas pela sua circunstância, sendo a essência coisa irrelevante, insignificante – um filho do macaco e nada mais. Portanto, se a saúde é o estado natural e desejável do homem, o que importa é espalhar-se a doença, porque é ela, e não a saúde, que é rentável, que pode ser espalhada, propagada, e, acima de tudo, criada e ensaiada em laboratório. Que o laboratório sejam povos inteiros, isso pouco importa. O importante é (sempre o foi) criar uma rede criminosa que lucre proporcionalmente com a miséria alheia. O preservativo não resolveu problema nenhum – se o agravou, ou não, é uma leitura diferente. Serviu para a farsa, para a experimentação, e para que chamássemos «ajuda» uma acção inumana, uma das muitas que os Novos-Impérios por lá têm feito.

    Pegando na política, porque «é disso que importa falar»,também não deixa de ser interessante esta notável coincidência: ao mesmo tempo que se dava a inversão da hierarquia Deus-Homem, surgiram, espantosamente, ideias como o Materialismo e os seus abortos predilectos: Liberalismo e Socialismo, que deram colo à Ciência, mal esta se libertou das negras amarras da Teologia – a Academia de Lagado.

    Tudo isto nos devia envergonhar. Antes de Cristo nos ter ordenado a primeiro cuidarmos dos nossos olhos, para que depois, com a visão clara, pudéssemos cuidar dos outros, Hipócrates escrevia: «O médico deve ter autoridade. Ele terá boa cor e boa disposição de acordo com a sua natureza. Porque a multidão crê que aqueles que não estão bem não sabem cuidar convenientemente dos outros». Felizmente para as ONG há a imprensa. E a política.

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