Passo a passo

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Estou a reler o livro “Steps to an ecology of mind” de Gregory Bateson. Uma colecção de ensaios escritos ao longo da vida deste antropólogo, psiquiatra, cientista e filósofo. Deve ser a terceira vez que o leio e não consigo acabar. Também não acabei de o ler na primeira vez, nem na segunda vez que o li. Há qualquer coisa neste livro que o torna interminável. Poder-se-ia dizer que é a forma –uma colecção de ensaios escritos entre 1935 e 1971– pois pode começar-se a ler por qualquer lado e acabar em qualquer outro. Nesta terceira vez comecei pela parte 3, “Forma e patologia na relação”que é onde estão os ensaios sobre esquizofrenia e alcoolismo; depois reli a parte 1 “Metadiálogos”, as transcrições das conversas de Bateson com a sua filha, e agora acabei de ler o ensaio ” Patologias da epistemologia”.

“But when you separate mind from the structure in which it is immanent, such as human relationship, the human society, or the ecosystem, you thereby embark, I believe, on fundamental error, which in the end will surely hurt you.” Gregory Bateson, Pathologies of Epistemology, 1969

Talvez o livro seja mágico e, entre o fechar e o abrir das suas páginas, nele nasçam novos significados e revelações. Talvez por ser sobre nós. Sobre nós pessoas, nós mamíferos. Sobre nós as células. Sobre nós as famílias. Sobre nós culturas. Sobre esta a infinita regressão (ou progressão) que somos: sistema biológico, dentro de sistema biológico, dentro de sistema biológico. Talvez por ser sobre o modo como comunicamos, aprendemos e evoluímos. Talvez por tudo isto seja um livro que nunca acaba.
Em “Steps…” aprende-se (e demonstra-se) que epistemologia e ontologia são a mesma coisa, que não há saber e ser separados, que não há cisma entre mente e matéria. Talvez por isso seja mágico como a boa ciência costuma ser .

Na faculdade era leitura obrigatória mas a maior parte dos candidatos a psicoterapeutas não o lia. Era um livro desconfortável porque utilizava linguagem e modelos da ciência para falar de coisas que nós, cristãos, freudianos, lacannianos, educados na epistemologia da separação entre espírito e matéria, gostamos de manter longe da objectividade, e o mais perto possível do fantástico, do alegórico e da magia. Foi o preconceito, com a linguagem da ciência, que levou muitos a ignorar os contributos de Bateson e o seu holístico esforço para tentar uma ciência nova. Na altura tinha acaloradas discussões com os meus amigos freudianos que urgia a ler Bateson. Hoje, com menos proselitismo, sugiro-o, não aos terapeutas, mas aos meus amigos poetas, pois ainda estou para encontrar tanta clarividência sobre “isto tudo”.
Em cada texto há um Oh!, um momento em que entendemos tudo: o homem, os mamíferos, a hereditariedade, todos os sistemas biológicos, o mundo, o amor, tudo. Mas, como nas grande viagens, logo partimos de onde tínhamos chegado em direcção a uma nova epifania. Só para voltar a ver tudo de novo, numa infinita regressão de que fazemos parte e que é o nosso espírito.
Nunca li nada tão poético como a ciência de G. Bateson. Não tenho dúvida em afirmar que este foi o livro que mais me ensinou a olhar. A olhar de uma maneira que é, hoje, inseparável de mim mas que veio deste livro.
– Mas tu não vês? – pergunto eu. E eles não veem como eu.

“What was extraordinary –the great new thing– in the evolution of human language was not the discovery of abstration or generalization, but the discovery of how to be specific about something other than relationship. Indeed, this discovery, though it has been achieved, has scarcely affected the behavior even of human beings. If A says to B, ‘The plane is scheduled to leave at 6:30.’ B rarely accepts this remark as simply and solely a statement of fact about the plane. More often he devotes a few neurons to the question, ‘What does A’s telling me this indicates for my relationship to A?’ Our mammalian ancestry is very near the surface, despite recently acquired linguistic tricks.”
In Problems in Cetacean an Other Mammalian Communication, Gregory Bateson 1966

Este é um livro de ciência i.e. metáfora da boa, da lógica, da exacta, da prática. E por isso é epifânico –um ver que nos faz acreditar e um acreditar que nos faz ver. Nestes textos Gregory Bateson fala da teoria dos sistemas, do Principia Matematica de Russell, da cibernética, da antropologia, da genética, de macacos, ratos e golfinhos, de ecologia e planeamento urbanístico, da biologia, de Freud, de Jung, de Kant, de São Tomás de Aquino, de William Blake … e, holisticamente, ensaia explicações. Como muito bem diz a sua filha no prefácio, cada artigo é um passo de uma viagem. Uma viagem pela ciência e pelo conhecimento, uma viagem para encontrar sentido ou, talvez seja melhor dizer, para fazer sentido. Passo a passo.
Li uma vez que há dois paradigmas de narrativa na tradição ocidental: a Bíblia e os épicos homéricos. A Bíblia dá-nos tudo: lírico, épico, mito, história, lei, guerra, amor, biografia, epigramas, parábolas, elegias, profecias… Os poemas homéricos, a Ilíada e a Odisseia dão-nos dois dos mais usados modelos de narrativa: as de cerco e as de viagem ou de demanda. As ciências sociais sempre preferiram a narrativa bíblica, as explicações fantásticas e alegóricas. Sempre multiplicaram os seus princípios explicativos numa tentativa de preservar o mistério que sentimos ser cada um e nós. Afinal somos uma espécie que, anti-ecologicamente, se separou da natureza e se sente perto de deus.
O “Steps to an ecology of mind” é uma demanda científica por uma metáfora mais simples, mais universal. Como escreveu William Blake:

“To see a world in a grain of sand,
And a heaven in a wild flower,
Hold infinity in the palm of your hand
And eternity in an hour”

Criar uma nova ciência terá estado sempre subjacente aos esforços intelectuais de Gregory Bateson. O resultado desta tarefa homérica chama-se “Steps to an ecology of mind” e é ciência épica.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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23 respostas a Passo a passo

  1. Olinda diz:

    como me abriu o apetite. também quero disso.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Ah, é assim como se percebe a graça de se ser Triste. Fascinante. Houve um livro, Estrutura das revoluções Científicas, do Thomas S. Kuhn, que também me baleou assim. Tiro e queda.

  3. Conciliar saber e ser é conciliar Lápitas e Centauros, Pedro. Parece-me bonito como exercício da imaginação. Visto do lado mais ocidental do pensamento, há mais fantasia nessa união do que na Bíblia inteira e nos arredores do rico Platão. Objectivo era Shakespeare. E sim, claro que esta é uma discussão que vale a pena.

    • Pedro Bidarra diz:

      Não é uma conciliação porque parecem não ser coisas diferentes, epistemologia e ontologia. Falaremos mais mais à frente que aqui há pouco espaço

      • Maria diz:

        As ideias/ciência não surgem do nada logo estão intimamente ligadas ao estado de evolução do ser humano; elas surgem naquela pessoa com todas as suas circustâncias históricas, sociológicas, económicas… Uma não existe sem a outra, são indissociáveis; penso que a sua separação foi apenas uma mera divisão académica para se poder aprofundar os temas em separado mas, infelizmente, há depois quem perca esta noção de conjunto com resultados catastróficos para a evoução do conhecimento.

  4. Suponho que não há tradução em Português.

    • Pedro Bidarra diz:

      Só em francês “Vers une écologie d’esprit”.

      • Manuel S. Fonseca diz:

        E em espanhol…

      • Obrigado. O arrebatamento do seu texto compele à leitura do livro.

        • Pedro Bidarra diz:

          Sou dado a arrebatamentos 🙂
          Mas a sua pergunta fez-me pensar no porquê de esta obra não estar traduzida em português. Claro que não cheguei a conclusão nenhuma; mas qualquer que seja a conclusão ela dirá mais da nossa academia do que da obra em si que é considerada por muitos como um dos grandes livros do século XX.

          • Maria diz:

            Há pensamentos/livros que não interessa que sejam conhecidos. Li-o há muitos anos foi bom relembrá-lo; este conceito, tão nefasto, de se retalhar o homem talvez tenha, em mim, nascido ai, Digo-o agora, Sei lá eu…

  5. nanovp diz:

    Nunca li! Mas parece extarordinário…Valter de ser em inglês então…

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Para quem pasma com pé torcido e ao alto, excelente recomendação. Alguém solidário que mo traga a casa? Era bom, era.

  7. Maria diz:

    * fá-lo-ia

    🙂

  8. Pedro Lupi Caetano diz:

    A capa é magnífica.

  9. Panurgo diz:

    Tem de voltar ao tema. Não li o livro, e também não me parece que vá fazê-lo. As passagens que o Pedro deixou, estalam-me a pipoca do cérebro. Há aqui pano para mangas. Acho que nunca um post me fez dizer tantas vezes: «foda-se, o quê?». E por isso vou guardá-lo aqui nos meus favoritos.

  10. p diz:

    Pode ser que queiras pesquisar/descobrir – Programação neurolinguística –

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