Quase um diário, 18 de Fevereiro

Maria A

 

Nunca tive um diário. Um diário requer alguma imaginação, a capacidade de isolar os factos e dar-lhes um sentido, adivinhar que é aquele exacto grão de presente que vai determinar o longínquo futuro. Tudo habilitações que não possuo.

Vou, a partir de hoje, consolar-me com “quase um diário”. Tentar o puro registo de pequenos acidentes: um livro em que se tropeça, a canção que se escuta, a rua por onde já não passava há mais de cinco anos. Nada de confessional: algumas histórias externas e alguma indulgência (já estou em idade disso) com as efusões e estados de espírito que porventura me provoquem.

Reli, num jacto, “Carta de uma Desconhecida”, de Stefan Zweig. Acabei há poucos minutos. Tradução e edição recentes. Ainda ofegante, fico com a sensação de que a obra, tão poucas palavras, tão grande ficção, é mal servida pela língua portuguesa. Tenho tanto mais a certeza quanto, estando a ler, há vários dias, a biografia que Zweig dedicou a Maria Antonieta, o português para o qual, na tradução de 1944, Alice Ogando verteu o original do austríaco é límpido, de uma deslumbrante riqueza lexical, de uma acuidade exaltante nos qualificativos, de um saudável fôlego quando mergulha na frase longa.

Traduzia-se, escrevia-se muito melhor em 1944. Ou talvez seja só a felicidade de ter sido traduzida por uma escritora, esta portentosa “Maria Antonieta” que é um ensaio histórico, político, psicológico, uma obra-prima de romanesco.

O livro é velho e desfaz-se nas minhas mãos. Agrada-me a ideia de que vou ser o último leitor deste velhíssimo exemplar a que uma mulher, em 1947, depois de assinar e datar, abriu as 480 páginas.  Assinava Vasconcellos, o que faz suspeitar que possa ser ainda parente da Eugénia ou da Rita. Será?

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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15 respostas a Quase um diário, 18 de Fevereiro

  1. Há livros de quando era muito pequena por aí. Se um deles for esse, olhe que bonito ter-lhe ido parar às mãos. Espero que sim. Boa ideia esta do quase diário.

    A despropósito: o Diogo quer falar consigo em Mogmog, está ali em baixo à espera.

  2. Diogo Leote diz:

    Manuel, aqui (mas só aqui) levo-te a melhor: tenho nas minhas mãos o Maria Stuart, do mesmíssimo Stefan Zweig, traduzido pela mesmíssima Alice Ogando, cuja leitura vou agora iniciar (depois de ter devorado o também velhinho José Fouché), e só falta dizer-te que está assinado e datado do ano de 1937 pelo punho do meu saudoso avô.

  3. CC diz:

    Manel…delas não sei, mas parente minha é de certeza 🙂
    Quanto ao congresso do amor…estava aqui a pensar quantos pontos valeria uma comunicação nesse congresso no desempenho académico de um professor do ensino superior…uma coisa tenho a certeza, tenho pena de não ter colocado isso no meu CV…pelo menos pelo gozo de ver de boca aberta a douta academia.
    Acrescento para o Diogo: meu caro essas duas almas que colocou como amantes jovens traindo o seu amor já velho não se me afiguram nada belas mas admito…talvez isso talvez seja por não ter FB nem querer ter…fica no entanto a ilha, esse belo cenário!
    ~CC~

  4. mónica diz:

    descarreguei (eufemismo para roubei na net) a maria antonieta traduzido pela Ogando, vou ler, obrigada pela sugestão

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Diário tive, mas este livro nunca me veio parar às mãos. E se me comovem os que possuo muito lidos, capas e contracapas desfeitas, páginas saltando da cola ressequida e dos fios que ainda prendem as restantes. Quantas estórias de leituras acumulam e como gostaria de as conhecer…

  6. Tens aqui um diário mas só para consumidores de John Lennon e blues:

  7. nanovp diz:

    um quase diário pode ser um semanário…

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