Quase um diário, 19 de Fevereiro: Maria Antonieta e o BPN

maria antonieta

a rainha pródiga, frívola e elegante

Mais um dia do meu quase diário. O segundo, vá lá. Não me atrevo a dizer, como Louis XVI nesse resumo do dia da Revolução: “Nada consta”. Continuo, afinal, a ler a biografia em que Zweig ama, devassa e protege Maria Antonieta.

Stefan Zweig mostra-a frívola e quase inocente. Dissipadora, sim. Tanto que, nas suas costas reais, há quem se aproveite e monte gigantesca fraude com um colar de milhões. A inocência da rainha é o mais dramático argumento de Zweig, mas o processo e o julgamento do caso na Assembleia não a deixam sair ilesa. Tornados coisa pública, os gastos envolvidos e o modo de vida que implicam, revoltam e indignam os humilhados de sempre. Cito com gosto:

Eis que, um após outro, dois formidáveis relâmpagos iluminam o céu e mostram ao povo a situação sob o seu verdadeiro aspecto; por um lado, o processo do colar; por outro, as revelações de Calonne sobre o deficit. Preso nas suas reformas e, talvez, também, por secreta animosidade contra a corte, o ministro das finanças citou algarismos preciosos; sabe-se agora aquilo sobre que há tanto tempo se guardava silêncio; em doze anos de reinado foram obtidos, por empréstimos, um bilião e duzentos e cinquenta milhões. O povo empalidece a este relâmpago. Um bilião e duzentos e cinquenta milhões, gastos em quê e por quem? O processo do colar fornece a resposta; os pobres diabos que trabalham durante doze a catorze horas por uns magros cobres, sabem que, em certos meios, brilhantes de milhão e meio são oferecidos como presentes de namorados, que se compram castelo por dez e vinte milhões, enquanto o povo não possui o necessário. E como toda a gente sabe que o rei, esse pobre pateta com o espírito de um burguês acanhado, não participa nesses gastos fantásticos, a onda de indignação recai sobre a rainha pródiga, frívola e elegante. Encontra-se o responsável da dívida pública. Sabe-se agora por que motivo as notas perdem o valor de dia para dia e porque aumentam o pão e os impostos; é porque essa “desavergonhada” gastadora faz, no seu Trianon, forrar um quarto com diamantes, porque envia secretamente para a Áustria, a seu irmão José, cem milhões de oiro destinados à guerra, porque enche os amantes e as amigas de pensões, cargos e prebendas. À desgraça aparece de repente uma causa, à falência um responsável, e a rainha é baptizada com um novo nome. De um extremo ao outro da França lhe chamam “a sr.ª Déficit”: esse nome ficar-lhe-á como um estigma.”

De Maria Antonieta ao BPN, e ao contrário de algumas ilusões, nunca há vida para além do deficit.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

8 respostas a Quase um diário, 19 de Fevereiro: Maria Antonieta e o BPN

  1. Maria do Céu Brojo diz:

    Sendo amante de biografias, romanceadas ou não, li alguma coisa sobre “a rai­nha pró­diga, frí­vola e elegante”. Este texto é maravilhosa metáfora sobre o país que somos.

    • Pois eu, agora, Maria, ando em campanha pelo Zweig. E ontem, vantagens da electricidade que Maria Antonieta não tinha, acabei de ler lá pelas 2 da manhã as 100 páginas que me faltavam.

  2. Não há como um chazinho para acalmar depois de ler ribombantes frases:

    • Boa ideia, Taxi, temos de ir os dois tomar um chazinho um dia destes. Bora lá?

      • Pois temos, estes são tempos de falência económica, e pouco saio do bairro, este país não é para pensionistas, e muita sorte tive eu em não ter esperado pela idade da reforma, pois não chegaria lá, estaria mortinho antes de chegar a casa. Veremos se lá mais para a high moon te mando um mail.

  3. Panurgo diz:

    Não estou a ver semelhanças com o BPN. A gente tem um Dias Loureiro. Tranquilo, não há revolução nenhuma.

  4. Já me está a fazer ânsias com o raio do Zweig, que nervos! Estou aqui estou a enfiar-me num alfarrabista, que chatice, estou cheia de coisas, das outras, para ler e você, Manuel Fonseca, não tem consideração nenhuma por isso…

  5. nanovp diz:

    Coitada da Antonieta, acho que foi tudo um problema de comunicação, e ao BPN faltou rainha.

Os comentários estão fechados.