Ratio Studiorum da Companhia de Jesus

Andrea del Pozzo - Santo Inácio de Loyola

Andrea del Pozzo – Santo Inácio de Loyola

“Nada deve ser mais importante nem mais desejável (…) do que preservar a boa disposição dos professores (…). É nisso que reside o maior segredo do bom funcionamento das escolas (…).”
“Com amargura de espírito, os professores não poderão prestar um bom serviço, nem responder convenientemente às [suas] obrigações.”
Recomenda-se a todos os professores um dia de repouso semanal: “A solicitude por parte dos superiores anima muito os súbditos e reconforta-os no trabalho.”
“Quando um professor desempenha o seu ministério com zelo e diligência, não seja esse o pretexto para o sobrecarregar ainda mais e o manter por mais tempo naquele encargo. De outro modo os professores começarão a desempenhar os seus deveres com mais indiferença e negligência, para que não lhes suceda o mesmo.”
Incentivar e valorizar a sua produção literária: porque “a honra eleva as artes.”
“Em meses alternados, pelo menos, o reitor deverá chamar os professores (…) e perguntar-lhes-á, com benevolência, se lhes falta alguma coisa, se algo os impede de avançar nos estudos e outras coisas do género. Isto se aplique não só com todos os professores em geral, nas reuniões habituais, mas também com cada um em particular, a fim de que o reitor possa dar-lhes mais livremente sinais da sua benevolência, e eles próprios possam confessar as suas necessidades, com maior liberdade e confiança. Todas estas coisas concorrem grandemente para o amor e a união dos mestres com o seu superior. Além disso, o superior tem assim possibilidade de fazer com maior proveito algum reparo aos professores, se disso houver necessidade.”

“I. 22. Para as letras, preparem-se professores de excelência
Para conservar (…) um bom nível de conhecimento de letras e de humanidades, e para assegurar como que uma escola de mestres, o provincial deverá garantir a existência de pelo menos dois ou três indivíduos que se distingam notoriamente em matéria de letras e de eloquência. Para que assim seja, alguns dos que revelarem maior aptidão ou inclinação para estes estudos serão designados pelo provincial para se dedicarem imediatamente àquelas matérias – desde que já possuam, nas restantes disciplinas, uma formação que se considere adequada. Com o seu trabalho e dedicação, poder-se-á manter e perpetuar como que uma espécie de viveiro para uma estirpe de bons professores.
II. 20. Manter o entusiasmo dos professores
O reitor terá o cuidado de estimular o entusiasmo dos professores com diligência e com religiosa afeição. Evite que eles sejam demasiado sobrecarregados pelos trabalhos domésticos.”(1) (1599).

Ao fundar a Companhia de Jesus, Inácio de Loyola, posteriormente canonizado a 12 de Março de 1622 por Gregório XV, é possível ter antecipado agruras pelas quais passaria a atual e maior ordem religiosa do mundo. Dedicada, com sucesso, ao ensino, não esqueceu o espírito missionário que também a orienta.

Lendo os excertos de “Ratio Studiorum”, impossível não valorizar a semelhança com muitas das aspirações dos professores de hoje em Portugal. Aqueles princípios, levando em conta os quinhentos anos decorridos, como influenciaram as escolas públicas? _ Em nada! Indesmentível a presente senda de constituírem albergues de professores sem estímulos e atafulhados em legislação.

Nota (1) – Texto arquivado cuja fonte não pude identificar.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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14 respostas a Ratio Studiorum da Companhia de Jesus

  1. Maria diz:

    Será que interessa ter professores de excelência?

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Para o bem do futuro português, interessa muito e sempre. Uma das poucas certezas que tenho.

    • Maria diz:

      Também não tenho dúvidas quanto a isso mas penso que aos politicos não lhes dá grande jeito.

      • Maria do Céu Brojo diz:

        Professores de excelência implicam investimentos e a formação de cidadãos mais críticos e conscientes. Quem sabe se num futuro que vejo longínquo as orientações superiores se alterem?

  3. Por alguma razão as escolas Jesuitas têm formado muita gente notável, em conhecimento e em caráter.

    Trata pois o texto de cuidar do incentivamento dos professores para ensinar, sem o qual, a aprendizagem é ineficiente. Quantos professores sabem transmitir a paixão pelo conhecimento, pela descoberta? Quantos professores se empolgam e comovem pelas descobertas dos seus alunos? O que é que vale a pena ensinar? Haverá incentivo outro, além do salário nas sociedades atuais? Com a produção de conhecimento em contínua espiral, não estamos a perder a noção do essencial? Essa avalanche do conhecimento não nos está a conduzir à mortífera especialização? À sociedade dos que sabem muito de muito pouca coisa! Não é irreverssívelmente destrutivo que cada um no seu mister desconheça o impacto global da sua ação focada exclusivamente num contexto restrito?

    E quem deve decidir o que se deve aprender? O Estado? Os Pais? Os alunos?

    Defendo uma escola capaz de formar livre-pensadores, que sejam eles próprios, adquiridas as ferramentas necessárias, capazes de decidir por si o que querem aprender e com quem.

    Terei que referir o inevitável Agostinho: “Ainda um dia haveremos de fazer ums Escola onde cada um aprenderá o que necessita de saber”. Quando tal acontecer, estaremos muiito perto da autêntica Liberdade!

    Sem bons professoras(as) estaremos todos perdidos!

    Foi muito oprtuno o seu texto. Gostei.

  4. Publiquei. Obrigado.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Grata eu pela possibilidade de, tal como na resposta anterior referi, publicar o seu comentário.

      • Maria do Céu Brojo diz:

        Ao publicar o seu texto, acrescentei este vídeo.

        • Entre nós, Alçada Batista frequantou uma escola Jesuíta e julgo que também Virgílio Ferreira (entre muitos outros).
          O vídeo é interessante mas só aflora aquela que, quanto a mim, foi a grande obra Jesuita no Brasil; a evangelização e emancipação económica e pessoal de comunidades inteiras de indígenas, bem no coração da Amazónia, em isolamento quase total. Essa foi, aliás, a causa do ódio do Marquês de Pombal que lhes exigia tributo que eles se recusavam a pagar e por isso os perseguiu inexorávelmente. Há um filme muito interessante, relativamente recente sobre o tema; julgo que o protagonista é o Tom Cruise (O caro Manuel Fonseca há-de lembrar-se).

          É uma tristeza que os nossos produtores e realizadores não trabalhem episódios notáveis da nossa história, como este. Uma história riquíssima, de muitos feitos heróicos, que ignoramos quase completamente (em geral, claro) enquanto nos deixamos impregnar pelos heróis propandandísticos, balofos, das culturas atualmente dominantes. Bolas!

          • Maria do Céu Brojo diz:

            Concordo ser lamentável não haver documentação cinéfila sobre idos que fazem parte de nós. E subscrevo o seu “Bolas!”

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Toda a razão, Maria, com amargura de espírito não se vai a lado nenhum…

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Assim é. Porém, difícil mesmo é vencer o desalento que tantas vezes nos assalta e perturba. Contra ele, marchar, marchar.

  6. nanovp diz:

    Pouca inspiração e uma cuidadosa gestão da progressão não podiam dar bom resultado.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Tenho para mim que aprendermos com passados e presentes de sucesso é-nos difícil. Mais fácil importar modelos da «estranja» apenas para os converter em motivo de desculpa – não somos apenas nós, mas também estes e aqueles. E se essa importação, no que diz respeito até ao final do secundário resulta mal, nomeadamente nos Estados Unidos.

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